Tempo ao tempo

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Certa vez li a seguinte frase da Amma, uma humanitarista indiana: “o sucesso da nossa vida depende da capacidade de esquecer o que não é adequado ao momento presente”. Não só parece como é difícil esquecer certas coisas que embora não sejam adequadas ao momento presente insistem em ocupar um espaço nele. Eventos e lembranças que se acomodam dobrados, amassados, enrodilhados em espaços que claramente não têm sua forma, jeito ou tamanho.
Muitas vezes esquecer o que não é adequado implica em perdão. Em dar perdão a outrem e a si mesmo e em receber perdão. Perdoar é um ato que exige coragem de fechar livros que estamos acostumados a ler mas que sabemos que não são tão bons assim para nós. É como insistir em assistir um filme de terror cheio de palhaços tendo coulrofobia…
A capacidade de esquecer coisas não nasce conosco; é um exercício diário tanto quanto controlar a ansiedade. Quando não conseguimos pegar o jeito rapidamente, nos frustramos. E nos cobramos. Cobranças movem o dia a dia das pessoas da hora que acordam até a hora em que vão dormir.
Muitas vezes não são nem os outros que nos cobram em demasia; a cobrança exaustiva, aquela que estenua, que deprime, que corrói é a nossa para conosco.
Quantas e quantas vezes as coisas não vão bem mas teimamos em colocar um sorriso no rosto e agir perante todos como se nada acontecesse? Quantas e quantas vezes estamos enfurnados no quartinho escuro do nosso coração que todos temos e inventamos de passar a impressão que não estamos sofrendo seja lá pelo motivo que for?
Parece errado não cair. Parece errado não demonstrar fraqueza, não demonstrar que um colo cairia bem ou que os dias estão passando e não estamos conseguindo vivê-los em sua plenitude porque estamos ocupados demais em disfarçar tristezas e sofrimentos em prol de não precisarmos nos justificar perante terceiros que muitas vezes nem se importam de verdade conosco?!
Não tem nada de mais em se permitir sofrer pelo tempo necessário para que possamos levantar e seguir em frente sem a tentação de coçar a casquinha até arrancá-la de novo.
Que nos permitam fazer isso. Que nos permitam o não sorrir. Que nos permitam ficarmos no quartinho escuro da alma quando estamos com um nó na garganta e com vontade de desistir de tudo. Que o “sai dessa!” , “vamos lá, você consegue!” não seja mais um imperativo e sim uma opção. Que o cansaço seja respeitado, que sejamos sombra quando precisarmos ser…
Já que ainda não inventaram o doping emocional aos que sofrem demais, amam demais… Ou que simplesmente sentem.

* N.A:  texto em colaboração com Michelle De Mentzingen Gomes

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2 Comentários

Arquivado em Divagações, Pessoal

2 Respostas para “Tempo ao tempo

  1. De uma intensidade, com tanta verdade em cada palavra, que acabamos descobrindo que, mesmo que em parte, estamos precisando desmoronar e sofrer um pouco.
    Excelente texto.

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