Permanentemente impermanente

do better

Vivemos flertando com estados durante a vida. Nem sempre somos; por vezes, estamos. Dizemos “não sou assim; estou assim” mas devemos tomar muito cuidado para não nos acostumarmos tanto a estar e passarmos a ser. Frequentamos estados impermanentes porém duradouros. Um deles é o estado de abandono. Abandona-se quem vive um quase relacionamento, uma quase reciprocidade, quem aceita um quase abraço – de apertado e seguro só tem a pretensão de quem recebe, não de quem dá. Abandona-se quem se contenta com o pouco, quem acha que deve se desdobrar cada vez mais e receber cada vez mesmo. Frequenta o estado de abandono e faz dele a sua morada quem, com a assiduidade de um bom estudante, esquece-se de ensinar a si mesmo que migalhas não são um banquete. Frequentamos também o estado de saudade. Saudade do que nunca se teve. De quem nunca tivemos ao nosso lado propriamente. Saudades de situações não vividas de fato… Saudades daquilo ou daquele que não era para ser objeto do nosso sentir falta. Saudades das palavras ternas ditas que não passaram de palavras. Dos planos feitos no calor do momento apaixonado desfeitos pelo véu da distância, física ou emocional imposta por nós mesmos seja lá por que situação for. Saudades de quando o orgulho nos permitia voltar por uma porta que fechamos e juramos nunca mais abrir. Saudades de quando as lembranças eram o presente e o presente era o que existia de mais puro e sublime, do “oi” que era a melhor parte do dia e do “até amanhã” que era a pior das partes.

Sentimos falta, muitas vezes, por estarmos feridos demais para nos abrir de novo a situações que julgamos já conhecer ou a filmes que julgamos já ter visto. Seguimos a cartilha que escrevemos e reescrevemos ao longo da vida e nos privamos da tentativa com medo do erro novamente e, com isso, a possibilidade do acerto se esvai. Preferimos o barulho do silêncio em nós quando poderíamos perfeitamente tentar verbalizar o que se passa dentro do coração, mesmo que não esteja em compasso com o que está na cabeça, ou na voz da razão – talvez esses dois nunca andem juntos. A questão vai muito além de sentir saudades. A questão vai muito além de se permitir tentar de novo. O âmago reside no fato de que certamente sentimos saudades do que nos era mais caro naquele momento em que tudo se perdeu. E talvez não queiramos arriscar ter e perder de novo… É melhor perder só uma vez, diz a razão… E com isso perdemos para sempre, talvez, a oportunidade de trocarmos o sentir saudades do que ou de quem nunca tivemos pelo sentir saudades do que temos ou de quem temos. As coisas feitas pelo coração e desfeitas pela cabeça são as que mais doem. Deixe doer. Deixe sangrar, deixe que o tempo amenize as feridas e cure o seu luto. Deixe que o tempo se encarre de levar embora inclusive as saudades que não fazem bem, as saudades que não são recíprocas, as saudades que não são verdadeiras. Talvez, no fundo, tudo que nos falte seja a coragem de abrirmos mão do esconderijo em que nos entocamos chamado “estado de saudade”. O estado de saudade requer disposição e coragem para ser curado. Requer que saiamos dos nossos casulos e nos desapeguemos das justificativas que criamos para não ter o que ou quem não temos (mais ou ainda).

Somos todos lições, ainda que duras, ou bênçãos na vida de alguém e assim são as pessoas que conhecemos para nós. Que sejamos mais generosos conosco mesmos quanto aos estados em que nos colocamos e passamos a viver. Que desacostumemos do abandono. Que a saudade seja do que temos ou de quem temos. E que a reciprocidade dos estados seja o presente do presente.

* N. A: texto da colaboradora Michelle De Mentzingen Gomes Michelle De Mentzingen Gome

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