O lado bom do imperfeito

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Penso se muito dos “não consigo” que temos pela vida não são, em verdade, “não quero” que não temos coragem de assumir para nós mesmas. Geralmente quando um “não quero” se traveste de “não consigo”, ficamos presos em nossa concha da mediocridade e andando em círculos dentro de nossa mente, em meio a indagações não externadas, mudas, que apenas transparecem na feição cansada e fechada do dia a dia.

Lutamos tanto para manter o controle das coisas que não nos permitimos o erro, vemos as coisas como algo de vida ou morte e damos peso demais ao que deveria fluir com naturalidade. A bem da verdade sequer sabemos mais o que é naturalidade na maioria das nossas relações afetivas que de efetivas têm cada vez menos e de afetivas, no sentido de dano, cada vez mais. Mal analisamos que do outro lado, do lado de quem nos olha, também existem histórias e poréns sem fim. Não nos damos conta que não estamos sozinhos mesmo que muitas vezes nos sintamos uma ilha em nós mesmos porque estamos preocupados e absortos demais em nossa própria quietude que não vemos as boias salva-vidas que jogam por aí.

Gostamos de bradar que atravessaríamos o Oceano Atlântico a nado por alguém e não o fazemos por nós mesmos e qual é o sentido de priorizar alguém que não nós mesmos? É mais fácil, aparentemente, querer viver para o outro do que para si mesmos pois nos tornamos turistas nas nossas próprias escolhas e não telespectadores apenas das escolhas alheias. Gostamos de viver em função da felicidade de terceiros, quartos, quintos quando a felicidade, a nossa, a própria, se esgotou antes mesmo de começar a ser vendida. Não nos apaixonamos por nós mesmos, a cada dia que passa e não conquistamos a mesma pessoa – nós mesmos – todos os dias… Ao contrário, vivemos casos amor e tórridas paixões com estereótipos e metas inatingíveis, com a intangibilidade das necessidades e desejos que nos impomos.

Somos autocríticos e desmerecemos nossos méritos e virtudes para viver nos méritos e virtudes dos outros sem nos darmos conta que se os outros estão conosco, como família, amigos, namorados ou amantes (não no sentido promíscuo do termo) é porque viram em nós o que deveríamos ver do nascer ao pôr do sol. É porque muitas e muitas vezes nos encontraram antes mesmo que nos encontrássemos e funcionam, ainda que sem pretensão alguma, como bússolas nos apontando a direção do apaixonamento pelo “eu”.

A descoberta do “eu” é fantástica. Quando descobrimos quem somos e nos despimos do véu que nos consome e não permite enxergar o horizonte como terra nova e não como limite imposto, conseguimos sustentar nossos “não quero” sem travesti-los de “não consigo” e tudo o que de fato não conseguimos fazer é nos desapaixonar do que conhecemos. Habitamos um corpo físico que detestamos muitas vezes por não aceitar que a perfeição da capa de revista só cabe à revista e que a realidade do dono daquele corpo não é a nossa – e nem a do photoshop.

A realidade que comparamos à nossa muitas vezes é só isso: photoshop. Muitas vezes é só um filtro bonito disfarçando as imperfeições que não pensamos que aquele ser tenha. A grama do vizinho nem sempre é maior ou mais verde, às vezes, e quase sempre, é maquiagem. Ninguém vive sem problemas.O que precisamos aprender é a como lidar com tudo o que nos cerca sem que nos causemos mais mal. Sem que sejamos tóxicos ao ponto da autossabotagem de nossas conquistas em nome do desacerto que justifica o descompasso no qual passamos boa parte da vida confortáveis em viver.

Que possamos nos encontrar e se nessa busca encontrarmos alguém que queiramos e que nos queira, ao mesmo tempo, que saibamos ter encontrado o pote de ouro no final do arco-íris. Precisamos de alguém que não queira viver por nós, mas conosco. Precisamos de alguém que saiba a hora de nos pegar no colo, a hora de dar a mão mas também saiba a hora de nos deixar caminhar sozinhos. Precisamos de alguém que ame o “eu” que amamos ou que vamos aprendendo a amar ao longo da vida. Para sermos, precisamos nos permitir ser. E precisamos aprender que o imperfeito é belo, assim como o tempo é relativo e o medo existe para ser trampolim, não tábua. E nada como um dia após o outro…

* N. A: texto da colaboradora Michelle De Mentzingen Gomes

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