Arquivo do mês: novembro 2015

A sua rima

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Quantas e quantas vezes você se viu numa daquelas ruelas estreitas da vida que parecem não levar a lugar algum? Em quantas dessas vezes você parou e deu meia volta, indo de encontro ao ponto de partida já velho conhecido seu? Em quantas dessas vezes você se atreveu a continuar e acabou dando de cara com o inesperado, bom ou ruim?

Quando você para, você pode sim evitar um tombo. Pode sim evitar uma decepção, um caminho tortuoso, íngreme, daqueles que se caminha na beiradinha do penhasco. Mas a vida é 50% de chance para cada lado e então você precisa lembrar que a cada parada você também pode perder a chance de encontrar seu pote de ouro no final do caminho ou não apreciar a paisagem que pode ser surpreendente se você for cuidadoso o suficiente para perceber os milagres e sutilezas da vida que te acompanham pelo caminho.

Eu sei. Por vezes falta iluminação nas ruelas… Você não enxerga um palmo na frente do nariz e fica hesitante em seguir o caminho que você um dia julgou ser o melhor para você. O GPS da intuição falha, você erra, cai no chão, rala os joelhos, acha que não vai aguentar e a vida passa e você continua exatamente do jeito que era: os joelhos ralados saram e você suporta. Aquela hora do “não aguento mais” passa. E aí você decide se retorna ao ponto de partida e recomeça (ou não, de repente você se acomoda ali mesmo com as situações que você tentou fugir ou mudar) ou se tenta daí mesmo de onde está descobrir o que fazer com o caminho que segue em frente mesmo sem você.

Com um pouquinho de coragem a viagem segue. A paisagem muda, você acostuma com o peso de certos fardos, se livra de outros, emagrece as preocupações e engorda a satisfação de ter optado por ver o que tinha além do horizonte. Ah… O horizonte, aquele lugar que parece interminável de tão vasto pode trazer surpresas que você nem imagina, pessoas, situações… Seguindo em frente, você pode se enroscar numa lembrança doce de algo que ficará impregnado e pode, de repente, ganhar companhia pelo caminho. Pode ser que algum andarilho tenha pensado como você, que foi de passo em passo, dor em dor, lágrima em lágrima, construindo seus sorrisos e olhos brilhantes ao longo do caminho.

Um bom ouvinte. Um bom amigo. Uma boa alma passando por ali que não necessariamente ficará com você no resto da viagem, mas ficará tempo suficiente para te ensinar coisas que ninguém consegue aprender sozinho. E a gratidão por essa pessoa será eterna, assim como todas as lições de quem um dia foi seu companheiro de viagem.

Todos nós temos uma bagagem para carregar. Todos nós passamos por situações indescritivelmente pesarosas e dolorosas durante os anos vividos. Tudo isso nos faz sermos quem somos, toma espaço na nossa mala, mas não impede que permitamos que alguém nos mostre que já não dói mais tanto assim. Que as coisas hoje são melhores do que eram antes. Que te faça se olhar com olhos de amor que você não tinha, com os olhos dele que surgiu para te dar borboletas no estômago e sorrisos bobos. Que te ensine o que é mágica.

… I don’t know how these cuts heal
But in you I found a rhyme…

Se você decidiu continuar pelo caminho que um dia te machucou e hoje te faz feliz, se você no meio das tempestades e dias de sol forte achou a sua rima, agradeça, pois você tem algo raro. Nem que a sua rima seja você mesmo e seu amor e compaixão por aquela pessoa que um dia foi o pior algoz – você. Seja lá quem for a sua rima, o dia tem 1440 minutos. É o tempo que tem para se lembrar do quão sortudo és.

Boa viagem!

Bom retorno!

O que te fizer feliz. Só não desista do que te faz sorrir. Principalmente de quem…

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Se você não pode aguentar, aguente

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É fácil dar conselhos sobre como viver a vida da melhor e mais leve forma possível até que você esteja no olho do furacão. Até que seja você a passar pela situação que seus amigos passaram e você deu mil e um conselhos sobre “como superar uma perda”, inclusive de algo que nunca foi seu. Somos especialistas nisso, não é mesmo? Pode admitir que você já tratou alguma vez na sua vida algo que não era seu como se fosse. Não seu de propriedade em si, mas “alvo dos seus melhores sentimentos”.

Então você percebe a razão pela qual conselhos são escutados e na maioria das vezes as pessoas apesar de internalizá-los, não os colocam em prática. Não, não é a famigerada má vontade do “você não se esforça!”, não na maioria das vezes pelo menos… Simplesmente elas não conseguem fazer com que a razão supere a emoção, não enquanto o torniquete não faz efeito e não estanca a hemorragia sentimental que se instaurou naquela cabeça. Metaforicamente, no coração também.

Enquanto o torniquete não faz efeito, você fica à mercê de ver a banda da sua própria vida passar solucionando problemas insolucionáveis com a máxima “o que não tem remédio, remediado está”. Como diria Dadá Maravilha, “para toda problemática existe uma solucionática” e dessa vez parece que o conformismo é a indicada. Isso mesmo, o conformismo se torna aquele puff que você se afunda esperando se esconder do mundo. Conformismo até a página dois, porque uma parte de você grita, esperneia, faz um escândalo se rebelando… para nada. Não vai adiantar, você sabe que não vai ganhar uma estrelinha dourada no seu caderno agora.

Então por que você ainda insiste? Porque você que se diz um ser humano cinicamente racional e dolorosamente lógico, na superfície faz o que precisa ser feito fingindo que “ok, é isso? É isso”, no seu íntimo não passa de um coração mole banana que sofre com comercial de margarina quando as coisas não vão tão bem assim. Posso te contar um segredo? Vai doer. Mas vai passar, só tente não enlouquecer enquanto isso não acontece. Parece fácil? Não, não é fácil. Mas você tem opção? Não, não te deram outra opção.

Escreva nos outdoors mentais tudo aquilo que você gostaria de dizer e não pode. Pinte na sua vida quadros felizes de amores que deram certo. De jogos que viraram a favor do seu time. De músicas que passaram a fazer sentido. De filmes que ganharam lógica real, personagens que se transformaram pessoas e pessoas que se transformaram em rimas. E saiba que nas reticências da vida é que se encontram a força e a paciência.

E de reticências eu sei que você entende. E sabe que nelas é que se diz implicitamente o que está estampado na sua testa mas não pode ganhar voz.

Time.

Truth.

Hearts.

E uma boa dose de esperança.

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Tudo novo, de novo

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Dentro de nós existe um quartinho, talvez escuro, talvez com luz fraquinha, onde entramos e ficamos quando precisamos de um tempo conosco. Entramos aí, puxamos uma cadeira e servimo-nos de café, por vezes amargo por vezes doce demais, depende do estado de espírito do dono do quartinho.

Lá, recolhemos os cacos do coração partido, damos um pouco de descanso ao cérebro recarregado, ouvimos o barulho do nosso próprio silêncio exterior. Percebemos que as coisas da vida que nos pegam de supetão assim como aparecem, desaparecem. Às vezes por opção, às vezes por falta dela, por não termos escolha. Certo é certo, errado é errado e “bola pro mato que o jogo é de campeonato”.

Percebemos que somos instantes. Que num momento somos e no outro já não somos mais. Ou que nunca fomos; parecemos ser. Aprisionamo-nos em momentos de alegria eternizados em lembranças que não deveriam existir ou, ao invés disso, nos colocamos na difícil posição de, ao acordar da utopia vivida, retroceder.

Só retrocede quem tenta. Quem sai da zona de conforto, quem dá a cara a tapa mesmo que somente em nome do “amor às causas perdidas”. Só volta duas, três, quatro casas no jogo da vida quem tem coragem de fazer o que precisa fazer para sair do “se” e ao invés de viver com esse “se”, viver com o “eu tentei”.

Tentamos todos os dias descobrir qual é o nosso propósito. O que estamos fazendo com a nossa vida, a quem estamos entregando momentos preciosos dos nossos dias, endereçando músicas ou fotos banais. Nada disso vem com um script pré-formatado. O script da vida é escrito, reescrito, deletado, reformado, amassado, pisado, prensado, torcido e retorcido a cada segundo.

O script da vida permite erros, mas cada um tem o seu e cobiçar o script do outro é um erro cujo o preço é alto: você se frustra e se entristece por não poder ser aquela personagem na história dos dias porque alguém já o é. Alguém fez o teste para aquele papel antes de você. Acontece, ergue a cabeça e é para frente que se vai.

E então você se dá conta que sermos instantes é uma bênção; que o senhor do tempo faz tudo ficar bem e mostra os caminhos. Você se dá conta que tropeços acontecem para prestarmos atenção ao que estamos fazendo, que erros de percurso nos demonstram necessidade de atenção e que as coisas são como as coisas são e cabe a você aceitar o que não pode mudar, mudar o que pode mudar e viver com a consciência tranquila, deitando a cabeça no travesseiro com a paz de quem fez o que pôde… E com a certeza de que, na manhã seguinte, tudo novo, de novo.

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