Tudo novo, de novo

maquina_escrever

Dentro de nós existe um quartinho, talvez escuro, talvez com luz fraquinha, onde entramos e ficamos quando precisamos de um tempo conosco. Entramos aí, puxamos uma cadeira e servimo-nos de café, por vezes amargo por vezes doce demais, depende do estado de espírito do dono do quartinho.

Lá, recolhemos os cacos do coração partido, damos um pouco de descanso ao cérebro recarregado, ouvimos o barulho do nosso próprio silêncio exterior. Percebemos que as coisas da vida que nos pegam de supetão assim como aparecem, desaparecem. Às vezes por opção, às vezes por falta dela, por não termos escolha. Certo é certo, errado é errado e “bola pro mato que o jogo é de campeonato”.

Percebemos que somos instantes. Que num momento somos e no outro já não somos mais. Ou que nunca fomos; parecemos ser. Aprisionamo-nos em momentos de alegria eternizados em lembranças que não deveriam existir ou, ao invés disso, nos colocamos na difícil posição de, ao acordar da utopia vivida, retroceder.

Só retrocede quem tenta. Quem sai da zona de conforto, quem dá a cara a tapa mesmo que somente em nome do “amor às causas perdidas”. Só volta duas, três, quatro casas no jogo da vida quem tem coragem de fazer o que precisa fazer para sair do “se” e ao invés de viver com esse “se”, viver com o “eu tentei”.

Tentamos todos os dias descobrir qual é o nosso propósito. O que estamos fazendo com a nossa vida, a quem estamos entregando momentos preciosos dos nossos dias, endereçando músicas ou fotos banais. Nada disso vem com um script pré-formatado. O script da vida é escrito, reescrito, deletado, reformado, amassado, pisado, prensado, torcido e retorcido a cada segundo.

O script da vida permite erros, mas cada um tem o seu e cobiçar o script do outro é um erro cujo o preço é alto: você se frustra e se entristece por não poder ser aquela personagem na história dos dias porque alguém já o é. Alguém fez o teste para aquele papel antes de você. Acontece, ergue a cabeça e é para frente que se vai.

E então você se dá conta que sermos instantes é uma bênção; que o senhor do tempo faz tudo ficar bem e mostra os caminhos. Você se dá conta que tropeços acontecem para prestarmos atenção ao que estamos fazendo, que erros de percurso nos demonstram necessidade de atenção e que as coisas são como as coisas são e cabe a você aceitar o que não pode mudar, mudar o que pode mudar e viver com a consciência tranquila, deitando a cabeça no travesseiro com a paz de quem fez o que pôde… E com a certeza de que, na manhã seguinte, tudo novo, de novo.

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