Seu pavilhão de espelhos

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Uma foto. Uma imagem. Um outdoor na cabeça. Outro no coração. Um pavilhão de espelhos onde nos vemos multiplicados em mil e, conosco, tudo aquilo que trazemos em nossa cabeça e coração. Cada reflexo é uma batida do coração não dita. Cada reflexo é uma lembrança de algo que já foi, de algo que não foi… Cada reflexo é uma saudade sentida, às vezes de coisas que nunca vivemos de fato, mas que queríamos viver com todas as forças do nosso ser.

Cada espelho nos mostra uma faceta. Umas mais delgadas, de uma época sem tantas emoções, uma época de quimera onde o mar estava tranquilo para navegar mas muito porque não procuramos alguma emoção fora da nossa concha; outras, mais largas, que representam a fartura de lembranças, os risos soltos, as emoções sentidas e vividas em sua plenitude.

Às vezes, os reflexos são pela metade. Metade de um coração pulsante em silêncio que só espera outro chegar para completar o quebra-cabeça da vida, que só espera o estetoscópio que são os olhos de quem completará o quadro e que sentirá as pulsadas baterem sincronizadas. Às vezes, os reflexos estão sobrepostos e você não sabe exatamente o porquê até se afastar um pouco e perceber que estava tentando completar seu quebra-cabeça com uma peça de corte arredondado quando a sua pede um quadrado. E cada vez que você insiste, você trinca o reflexo, você alarga algo que não tem elasticidade, você rasga algo que foi feito para ser delicado. São peças certas para outros quebra-cabeças que estão por aí, em espelhos errados.

O pavilhão de espelhos da alma reflete a sua verdade mesmo que você esconda a você mesmo delas. Mesmo que você abafe o sussurro da verdade com o grito histérico da brincadeira querendo mostrar que está completo quando está quebrado. Você já mencionou alguma vez ao espelho que por vezes não reconhece o que está refletido nele? Que por vezes vê a pessoa que esperam que você seja e não a que você realmente é, com suas vestes, penteado e cara lavada?

Em um mundo que só grita e quebra espelhos bradando meias verdades, que só tira foto em frente ao espelho que emagrece a coragem e infla a vaidade da mentira de uma vida infeliz, tudo o que você precisa é ouvir o sussurro que vem do fundo do coração. O seu norte. A sua razão.

Chorar e ver sua imagem assim refletida faz lembrar do quão humano você é e de como as coisas doem. Chore. Chore como criança ou como uma manteiga derretida no final de “A Vida É Bela”. Se emocione, a vida não é para aqueles que se escondem sisudos em máscaras de ferro e constroem em si fortalezas que ninguém consegue derrubar. Tem sempre alguém que consegue penetrar o impenetrável e trazer à tona o seu melhor que podia estar escondido há anos no fundo de um lugar ermo, escuro, frio, tapado para que não visse a luz do sol.

Sorrir e ver sua imagem refletida, em contornos que lembram covinhas ou um largo sorriso faz lembrar do quão doce a vida pode ser quando nos permitimos tentar coisas novas, caminhar de mãos dadas, conhecer novos horizontes, rir de piadas contadas um monte de vezes como se fosse a primeira vez só porque você ama ver quem conta empolgado contando tudo de novo. Faz lembrar de todas as vezes que você amou e foi amado, encantou e foi encantado, desejou e foi desejado.

É claro que por vezes a gente passa uma época de aversão a reflexos. A imagem distorcida nos impede de ver com clareza o que está bem diante de nós e nos irritamos com a nossa própria ignorância. Se posso dar um conselho, em horas assim, vende seus olhos e peça que outra pessoa te diga o que vê. Se imagine atrás dos olhos desse outro alguém. E se você sabe quem esse outro alguém seria e que a visão seria mais terna e amorosa do que a sua com relação a você mesmo/mesma, tire a venda e olhe pelo espelho para essa pessoa: ela te vê melhor do que você. Os olhos da bondade e da ternura enxergam suas qualidades e seus defeitos, exaltam os primeiros e deixam claros os segundos de uma forma confortável. Os olhos do amor não julgam, são benevolentes, são abnegados. Mas nunca mentirosos. O amor de verdade não mente, não passa a mão na cabeça; ajuda a crescer, aponta os erros e espera que, de mãos dadas, desenhem no espelho com batom um recadinho por dia: amar vale a pena.

Não ache que a vida não requer coragem, assim como fazer um 360 em frente ao espelho e perceber suas imperfeitas perfeições. Mas quem tem 20 segundos de coragem maluca, cega, absurda, faz muito mais do que quem tem 20 minutos de paciência mas não dá um passo.

Não trate os seus espelhos como partes de você que não precisam de manutenção. Seus reflexos dizem muito de você. Como você se vê hoje? Delgado? Largo? Sobreposto? Incompleto? Está feliz? De verdade, está feliz? Satisfeito com sua vista atual?
Sua vida depende dessa resposta. Tudo o que se seguir a isso, é mágica. Apenas como aquele olhar ou aquele sorriso são.

Não seja pela metade. Procure o inteiro, você não merece nada menos do que isso.

Não esteja sobreposto. O peso excessivo te deixa torto, o não encaixe tem contraindicações que podem ser danosas pela vida. Uma vida de sobrepeso mata a espinha dorsal da felicidade.

Não prefira a delgadeza do lago sempre; as emoções dependem de um pouco mais de espaço, de um mar maior para navegarem sem afundar. E deixe que as ondas quebrem nas pedras, tomar banho de água salgada espanta o azar. E o banho de chuva espanta a monotonia e manda para o espaço o estado depressivo dos dias cinza. Porque se houver 1 instante de dança na chuva, você entende que começou a viver. E não vai querer parar mais.

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2 Comentários

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2 Respostas para “Seu pavilhão de espelhos

  1. Estou chorando desde ontem quando comecei a ler até agora, quando tomei coragem para continuar. Obrigado pela profundidade das tuas palavras, elas são verdadeiramente tocantes, elas ensinam, libertam. Parabéns pelo ótimo texto!

    • Michelle

      Acho que eu deveria ter colocado um avisinho no começo do texto pois tem bastante gente chorando com ele!
      Agradeço imensamente as suas palavras, são preciosas! De coração, muito obrigada! Fica com Deus 🙂

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