Sim

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Eu, uma vida sendo tão reticente, tão em cima do muro, tão da turma do talvez, quem sabe, vamos ver, me joguei de cabeça no sim.

Eu disse sim ao mundo que eu desconhecia até então por medo de sair da concha, de pisar fora da minha zona de conforto. Eu disse sim para o mundo do novo que assusta, do novo que alarma, que faz o coração acelerar em um misto de desespero com o desconhecido e alegria pelo o que se pode descobrir com o simples sim dado ao mundo.

Eu disse sim aos sonhos que até então eu tinha e abafava com a falsa noção de realidade que sempre me dava um tapinha nas costas dizendo “sonhos são sonhos por alguma razão, mas por mais que você queira, você não vai realiza-los”. Há uma dose de covardia aqui, covardia essa que nos mantém presos no fundo do mar com uma bola de ferro amarrada em nosso tornozelo. Covardia talvez proveniente do medo, ou da necessidade, ou da falta de confiança para assumir suas próprias vontades. Quantos sonhos foram abafados enquanto você sonhava acordado? Quantos sonhos foram solenemente esquecidos quando você acordou e pensou ser absurdo um sonho literal daquilo que era seu sonho metaforicamente falando?

Como canta Billy Joel em Vienna “dream on, but don’t imagine they’ll all come true”, ou “sonhe mas não imagine que todos se tornarão realidade”. Seria ingenuidade achar que todos os nossos sonhos se realizarão. Mas sonhar faz a vida muito mais colorida; sonho a um, sonho a dois, sonho de um que passa a ser sonho de dois. Os maiores sonhadores são as pessoas mais felizes pois da sua idealização pode sair sua grande realização, com o simples sim dado aos sonhos.

Eu disse sim para a falta de controle. Eu disse sim para o desconhecido. Eu abracei o desvio repentino de rota que minha vida deu. Eu reconheci a necessidade da mudança ou percebi que eu não sabia que precisava mudar até de fato, mudar. Eu disse sim para tudo o que eu não previa, para tudo o que eu temia não conseguir controlar. Eu disse sim para a surpresa, para a felicidade do momento seguinte espontâneo. Pensar demais cansa, tira a graça da vida. Medir milimetricamente cada passo, cada espaço, cada decisão pesa demais na mala que carregamos conosco. Responsabilidades que acumulamos na vida e nossos valores internos jamais nos deixariam tomar uma decisão que não fosse a que acreditamos ser a melhor para nós. Com o simples sim dado ao descontrole, eu me senti livre.

Eu disse sim para o inexplicável. Eu disse sim para o que a razão não passa perto de conseguir explicar. Eu disse sim ao que era até bem pouco tempo atrás, imponderável. Eu aceitei que coisas acontecem por razões que talvez nunca entendamos ao certo mas que delas surgem verdadeiros milagres, sorrisos sinceros, votos eternos, além da eternidade. O inexplicável porém aceitável. O inexplicável porém compreensível. O inexplicável para o consciente mas plenamente justificável para o subconsciente. Para a vontade mais íntima. Eu disse sim ao inexplicável e passei a entender muito mais da vida do que se tivesse pensado em mil possibilidades sem nunca ter certeza de alguma delas.

Eu disse sim pra tudo o que eu podia e descobri que eu podia muito mais do que eu sabia. Descobri que com o sim ao que eu podia, eu tive coragem de querer o que eu pensava não poder. O não poder, a bem da verdade, quase sempre não é um não poder genuíno: ou é um não querer ou é um querer amedrontado que se disfarça de não poder. A vida é infinitamente possível. Arcar com as consequências do sim que damos ao que podemos e ao que queremos faz parte da responsabilidade de nossas escolhas. Faz parte do uso do livre arbítrio. Com o sim que eu dei para tudo o que eu podia, eu pude muito mais do que um dia imaginei poder.

Eu disse sim a vida não retilínea. Eu disse sim às curvas acentuadas que me fazem colocar o pé no freio e às retas que seguem estas curvas que me permitem avançar com mais rapidez. Eu disse sim às linhas tortas da vida, pois se não fossem por elas, nossos caminhos não se cruzariam. E as tais linhas tortas que eu disse sim representam a minha verdade e a minha verdade parece muito mais minha quando é nossa.

Mas eu também disse não. Eu disse não a não querer preencher com ausências os espaços preenchidos por presenças, ainda que conturbadas. Eu disse não ao adeus que não quis dar, não que eu não pude. Eu disse não ao que me fazia chorar para dizer sim ao que me faz rir. Eu disse não ao incompleto e assumi a imperfeita completude. Eu disse não para o pior de mim. E talvez eu tenha dito sim a minha melhor versão, que é melhor quando imperfeitamente completa.

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2 Comentários

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2 Respostas para “Sim

  1. “Melhor versão”, “imperfeitamente completa”, “caminhos cruzados”, “não planejar cada passo”…
    Fica difícil, assim fica difícil. Mesmo assim parabéns, texto bastante bom!

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