Peneira

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Entre passos e descompassos da vida, o tempo passa. E o tempo não passa igual para todo mundo. Provavelmente os planos que fizemos enquanto éramos crianças mudaram um pouco e você não se tornou um astronauta ou uma modelo de capa das Vogues da vida. Às vezes as coisas acontecem prematuramente, às vezes demoram mais do que você esperava e você acaba achando que o timing da sua vida veio com defeito. E onde você reclama do mau funcionamento do tempo? Para quem você diz que as coisas não andaram ou andam como você planejou? Particularmente nunca fiz planos de viver uma vida de dona de casa, meus sonhos sempre envolveram me formar, fazer pós-graduação, encarar mestrado e doutorado… Ou seja, acabei colocando o que eu faço na frente do que eu sou. Quando te perguntam “quem é você” o seu primeiro impulso é responder a sua idade e o que você faz da vida, não é? Você responde tudo, menos a pergunta que fizeram. Já reparou que é difícil tentarmos resumir quem somos e o que fazemos é algo mais palpável?

Os meus sonhos se resumiam a trabalho e a vida acadêmica porque eu sempre fui aquela pessoa que não acreditava que seria contemplada pela vida com um grande amor. Eu mesma nunca acreditei que encontraria alguém por quem eu largasse tudo, alguém por quem eu teria coragem de deixar tudo o que eu conheço dar as mãos e seguir uma nova estrada. Piegas mas verdade. O que a gente não conta é que logo depois da curva a vida pode nos surpreender e que nós que passamos a vida toda achando que a luz no fim do túnel era o farol do trem e não a saída vemos nossos sonhos mudarem bem diante dos nossos olhos. O quem eu sou passa a vir antes do que eu faço, pois depois de uma certa idade e do amadurecimento, seja em função da idade mesmo, seja em função das coisas que passamos na vida, nós aprendemos que correr riscos faz parte da vida e que não tem nada de mais em cair. Do chão nós não passamos!

Não faz muito tempo, li um termo que me intrigou bastante e me fez refletir sobre ele: a peneira da vida. Tal qual no futebol que as crianças passam por testes, as peneiras, para serem separadas em “você tem potencial para ser craque e você fica para a próxima”, a vida nos oferece a peneira todos os dias. Todos os dias somos convidados a não usar a peneira para tentar tapar o sol e fazer dela um subterfugio dos nossos dias atribulados mas sim utiliza-la para que só fiquem na superfície aquilo que realmente importa. É muito difícil que ao peneirar com atenção restem coisas tóxicas próximas a você. O que realmente importa, o que realmente te faz querer viver cada dia em sua potencialidade máxima sempre fica. O que cai no chão são as coisas que já não nos servem mais, são os momentos que precisamos desapegar, os sentimentos rotos que precisam dar espaço aos novos, o que teve seu prazo de validade expirado, a relação de fachada, a vida pela metade.

Com o tempo percebemos que não é fácil peneirar. Tem dias que a peneira fica tão cheia e tão pesada que tudo o que você mais quer é largar a tarefa para lá. Ok, você pode fazer isso, é uma escolha. Só não reclame depois se viver uma vida inteira chamando o joio de trigo. Se você opta por tentar separar o que te faz bem e o que não faz, a tal primeira peneirada já elimina um bom peso. Isso não é tornar fatos e pessoas descartáveis; é tornar sua vida mais leve, tendo coragem para dizer “sim, eu quero isso”, “não, isso não me serve mais”, “preciso analisar esse aqui com mais calma” ou “eu não sei mais o que isso ainda está fazendo aqui”. É fantástico o que podemos fazer com um pouco de coragem!

A tal da vida nos cobra todos os dias que tomemos decisões que nem sempre são fáceis mas precisam ser tomadas. Tropeçamos nas palavras, andamos em círculos na nossa mente e tudo isso porque precisamos decidir. Precisamos olhar para trás e tentar responder com a maior dignidade possível quem somos. Quando conseguimos olhar no espelho e reconhecer algo além das características físicas e profissionais, nós chegamos num patamar da vida onde ninguém mais consegue nos tirar do prumo. Quando sabemos quem somos, as opiniões e julgamentos que antes magoavam passam a entrar por um ouvido e sair pelo outro. Somos fortes o suficiente para sustentarmos nossas convicções, nossas vontades e desejos. Quando respondemos quem somos automaticamente sabemos quem queremos ter por perto e quem não queremos porque entra meio que naquela do “ou soma ou some”.

Quando os sonhos de criança já não são os sonhos do adulto que precisou tomar rumos na vida ou que só foi levado por ela até onde está no momento, entendemos que crescemos. Entendemos que a maturidade chegou e que com ela a sabedoria veio junto. Que a sabedoria também pode ser a sua intuição, o seu instinto. Aprendemos que sonhar sozinho é bom mas ter com quem sonhar junto, talvez não as mesmas coisas mas coisas que se complementam, é bem melhor. Mas que também se for para sonhar sozinho, que sonhemos com toda a força que tivermos pois é possível ser feliz dos dois jeitos, basta querermos. Felicidade é pura consequência das nossas escolhas. “Escolhi errado na vida” e por isso preciso percorrer a vida toda numa caminho de migalhas e infelicidade? Quem disse que não podemos mudar? É inacreditavelmente doloroso viver pela metade!

Viver com medo de colocar o pé fora da zona de conforto porque você não sabe o que te espera equivale a não viver. Isso te faz acostumar com metade quando você poderia ter o todo e ser o todo de alguém, por que não?! Assim como se acomodar no que já conhece e mentir para si mesmo dizendo que está bom assim é uma escolha. Passar a vida reclamando do que escolheu sem fazer nada a respeito é um baita contrassenso. Ou se acomoda e aceita ou cria coragem pra pular do barco. O que a gente não pode é andar em círculos na própria vida para sempre.

Com a peneira da vida você tira de si pesos que não são mais seus. Você faz por você mesmo aquilo que ninguém faria. Você se dá uma nova chance de começar a viver mais leve, com mais escolhas, com menos medo. Você sonha de novo. A um, a dois, muda os sonhos, muda o dois, muda até o um. Mas entende de uma vez por todas que jamais se pode duvidar da força do que nos faz rir e nos dá paz porque no final das contas, por mais nebuloso que possa ser, ali estará seu porto seguro.

Demore o tempo que demorar. Apenas se certifique que os passos ao menos não são afobados ou lentos demais. Se permita viver. Se permita curar suas feridas naquele em quem você encontrou sua rima, a risada escandalosa que vira risada em mute e depois volta a ser escandalosa, a conversa de horas ao telefone e a saudade da ausência de 1 hora.

Peneire. Sonhe. Viva.

A vida não espera ninguém. Se você não tirar um tempo do seu dia para analisar o que está sobre a superfície da sua vida, poderá perder, no meio da bagunça, algum tesouro precioso que poderia ser eterno.

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2 Comentários

Arquivado em Contos, Pessoal, Romance

2 Respostas para “Peneira

  1. A capacidade que as tuas palavras têm de nos motivar e nos fazer meditar é algo fora do comum. A cada texto nos encontramos um pouco mais. Parabéns e obrigado!

    • Michelle

      Pois saiba que é exatamente por isso que escrevo. Enquanto converso comigo mesma, acabo descobrindo formas de conversar com quem lê. Obrigada pelo carinho! Muito importante saber que as palavras possuem tanto poder para quem as lê!

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