Arquivo do mês: fevereiro 2016

Amar é…

We-Heart-It

“People think a soul mate is your perfect fit, and that’s what everyone wants. But a true soul mate is a mirror, the person who shows you everything that is holding you back, the person who brings you to your own attention so you can change your life. A true soul mate is probably the most important person you’ll ever meet, because they tear down your walls and smack you awake. But to live with a soul mate forever? Nah. Too painful. Soul mates, they come into your life just to reveal another layer of yourself to you, and then leave. A soul mates purpose is to shake you up, tear apart your ego a little bit, show you your obstacles and addictions, break your heart open so new light can get in, make you so desperate and out of control that you have to transform your life, then introduce you to your spiritual master…”

― Elizabeth Gilbert, Eat, Pray, Love

Não é fácil falar sobre o amor. Não é fácil viver o amor. O amor que você nem sabe que é amor de verdade até que ele se vá; amor que não era amor, era solidão, medo de ficar sozinho e acabou fazendo com que você se apegasse a primeira oportunidade de “para todo sempre, amém” que apareceu. Amor que era mais que amor, como diria Poe, daqueles que atravessam oceanos a nado, – cuidado aqui pois o seu amor por alguém pode atravessar o Atlântico a nado mas o destinatário dos seus sentimentos pode não pular nem uma poça d’água por você.

Amor, facilmente confundível com a atenção dispensada a alguém que supre a inevitável solidão que todos vivemos em algum momento da vida. Carência. Sentimento que se esvai quando se descobre que atenção dispensada de forma livre e espontânea acaba virando demanda, acaba virando obrigação e você já não sabe mais se um dia amou de verdade ou se era carência ou medo de um futuro a um. Com certeza algum “eu te amo” dito aqui valeu a pena… Mas provavelmente não era amor.

Mesmo que não seja conhecida por todos aquela lenda oriental do fio vermelho amarrado ou no dedo ou no tornozelo daqueles que estão destinados a se encontrar pelos caminhos da vida, aconteça o que acontecer, a verdade é que encontros e desencontros fazem parte da nossa existência. Pessoas entram e saem das nossas vidas a todo momento, o que muda é a razão. E você se pergunta, muitas vezes “por que essa pessoa apareceu no meu caminho?” ou “por que eu fui obrigado a ir embora quando tudo o que eu mais queria era ficar?”.

E no fundo, no fundo, a resposta para a primeira pergunta está no fio vermelho dos orientais, no destino, nas leis divinas ou no acaso e a resposta para a segunda pergunta está no fundo do armário, amassada no meio de uns papeis que você jogou ali “para arrumar depois” e fica se enrolando para não fazer o que precisa fazer porque é cansativo, é chato, dá trabalho.

Nem todo mundo tem o sonho de casar com toda aquela pompa e circunstância ou mesmo de casar mas garanto que todo mundo tem vontade de ser feliz a dois. Ser feliz a um é parte fundamental da felicidade em dupla, mas, para isso, precisamos entender que nem tudo está sob nosso controle… A bem da verdade, a maioria das coisas que realmente importam não estão. O amor não está.

É claro que temos escolhas na vida. É claro que abrimos e fechamos portas conforme nossa vontade ou conveniência. Mas às vezes, num desses dias normais que vivemos, corremos e colocamos o braço na porta do elevador, sem outro propósito além de aproveitar que ele está ali no andar e você não tem que esperar ele subir ou descer de novo – fora o fato de ter sempre um inconveniente que fica com a porta aberta mais tempo do que o necessário atrasando a sua vida.

E você entra nesse elevador e vê que nele tem um espelho. E você fica abismado porque nunca viu um espelho que te mostrasse como você é de verdade tão bem quanto esse espelho desse elevador. E você passa a notar coisas que nem imaginava que tinha ou era. E nota também que não importa para onde você olhe, o espelho nunca desiste de te mostrar o seu melhor eu; não tem um lado dele que te engorde mais, te emagreça mais, te deixe maior ou menor. Ele é fiel ao que reflete. Sempre fiel.

O elevador que você correu e enfiou o braço para a porta não fechar, entrou e se maravilhou com o espelho também é um elevador que correu, enfiou o braço para a porta não fechar, entrou e se maravilhou com o espelho; é a sua alma gêmea. É a pessoa para a qual você olha e se enxerga, é quem faz com que você se veja com os olhos de bondade, ternura e amor que você provavelmente nunca se olhou numa exigência absurda de justificar seu eu com os seus defeitos e não reconhecer seus acertos.

Almas gêmeas se reconhecem e não, isso não é balela. Você sabe quando encontra a sua porque não importa se estão juntos há 1 minuto ou há 10 anos, parece que o tempo para vocês não passa igual como passa para as outras pessoas. 5 semanas parecem 5 meses. 5 meses parecem 5 anos. Cada dia parece uma eternidade. Você vive a plenitude da vida sem a menor cerimônia, você não liga de sentar no chão mesmo que ele esteja meio sujo; já que sentou, faz um pic-nic. Você não liga de resolver parar na praia depois de ter ido jantar e andar na areia de sapato; você aproveita e senta na areia e olha o mar, escuta as ondas e sente que a sua companhia vem logo em seguida jogando um casaco nas suas costas, trazendo os braços que te envolvem para que fiquem ali, sentindo a benção da vida em cheiro de maresia.

O amor é muito mais do que ter afinidade com alguém, é muito mais do que “eu te amo” que depois de um tempo fica mecânico; amor é cumplicidade. Amor é se sentir eternamente chegando em casa, se jogando num daqueles puffs gigantescos e aconchegantes e contando como foi eu dia e o que te aflige para o seu melhor amigo, pessoa realmente interessada em te ouvir, aconselhar, ajudar, não a te julgar ou ver defeito em tudo o que você faz. Nem sempre os dias serão fáceis, mas com certeza em todos os que houverem dificuldades você não dorme sem antes resolver a história porque dormir “bunda com bunda” é para quem não está mais nem aí para o que anda acontecendo.

O amor não dá espaço para o orgulho idiota que te impede de pedir desculpas e dizer que errou ou que te impede de aceitar desculpas ao ouvir que o outro errou. O amor não dá espaço para o desprezo pelo o que o outro gosta mesmo quando não é muito do seu estilo porque o amor sabe que é importante para o outro então que se faz o outro feliz, faz você feliz também. O amor não dá espaço para o medo que te faz medir palavras antes de falar sobre algo ou que faz guardar para si coisas porque o outro não entenderia ou porque você acha que seria julgado ao invés de ser compreendido.

O amor que é mais que amor faz com que você se enxergue pelos olhos daquele que te ama. Faz com que o melhor em você resplandeça e que o que precisa ser organizado, seja. Te dá coragem. Te faz olhar o horizonte sabendo que tem algo lá no final que faz com que a jornada valha a pena. O amor mais que amor é o que uma alma gêmea sente pela outra depois de 60 anos de casados vivendo como se estivessem nos primeiros dias da lua de mel.

Por que da citação no começo do texto? Porque muito embora eu concorde com a parte do que é a alma gêmea e do que ela faz por você, eu não consigo acreditar que seja doloroso viver com ela para sempre. O amor da sua vida é geralmente uma escolha; a sua alma gêmea, não. O que não significa que ambos não possam estar na mesma pessoa e essa pessoa não possa estar do seu lado agora. A maior bênção da vida é ter alguém nela que faça com que você entenda porque antes as coisas não deram certo e porque foi tão importante você passar por tudo o que passou até chegar no mesmo balcão que ela numa cafeteria qualquer e os dois pedirem um café preto, forte, ao mesmo tempo, para o mesmo atendente, que fica com cara de espantado olhando os dois enquanto os dois se entreolham e sorriem, despertando o coração um do outro do coma em que estavam, induzidos a isso ou não.

Acontece de almas gêmeas se acharem na vida e não ficarem juntas por uma infinidade de razões que por vezes não têm solução. Acontece de amores só darem certo 50 anos depois do primeiro oi e de toda noite de lua cheia ambos tamparem a lua com o dedão porque lembraram da promessa de que a lua seria sempre a mesma independentemente de onde estivessem e de quando fosse. Acontece de “para sempre, amém” não ser um para sempre; ser, na verdade, uma etapa antes do “para sempre e sempre, amém” se você permitir que assim seja. Amor é tão sublime que te faz pensar que viver sem amar e ser amado é das piores heresias que se pode cometer. E é das piores maldades que se pode fazer a si mesmo.

O amor é uma conquista, é uma luta diária e você participa ativamente dos rumos que cada minuto toma. O amor é o sorriso que você sabe que é só seu, é aquele olhar bobo enquanto você fala com alguém… É a certeza de que quem você abraça é o seu lar. É o seu começo, meio e final feliz. Amar mais que o amor. Poucos sabem o que é isso, o que é sentir que “eu te amo” fica pequeno para tanto sentimento. Se você sabe o que é isso, você sabe que encontrou a sua alma gêmea. E assusta, mesmo. Mas é sinal de que é algo tão precioso que você encontrou o pote de ouro no final do arco-íris.

Que você seja o pote de ouro de alguém.

Que alguém seja o seu pote de ouro.

E que vocês sejam, um do outro, para todo o sempre.

Amém.

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Medo

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E se num dia de chuva ao invés de você olhar, da sua janela, cada pingo cair, cada gota entranhar na terra ou correr pelo chão, você sair de casa e for sentar no chão, lá fora, deixando a chuva cair sobre você? E se você brincar de pular em poças sem se importar com quem estiver vendo? E se pelo menos uma vez na vida você só fizer isso, sem pensar demais, sem pensar se vai pegar um resfriado ou se vai molhar a casa inteira até chegar no chuveiro? E se você simplesmente fizer o que quer sem medir cada passo milimetricamente tentando saber o que você nunca saberá, a sorte e o revés a cada passo?

Temos medo. O medo é intrínseco ao ser humano. Medo do escuro do quarto ou do escuro do quartinho que a sua mente se enfiou e não quer sair. Medo de chorar por achar que é fraqueza ou de abaixar a guarda prevendo uma decepção que pode não acontecer. O medo de perder alguém, algo. Uma chance. Uma vida inteira vivendo como antagonista da sua própria história. Vivendo como sombra da sua própria sombra. O medo pode nos catapultar para o outro lado com a coragem de um salto mas também pode nos fazer recuar tanto a ponto de voltarmos ao começo do jogo. O medo que nem sempre é sinônimo de covardia, sempre é sinônimo de que algo importa.

Se tudo o que você faz é pensar o dia inteiro sobre algo, você certamente não estará mais vendo as coisas como são pois sua cabeça terá dado tantas voltas que você não sabe mais o que você criou e o que já estava ali antes de você. Mas você tem medo de não pensar demais e acabar deixando algo passar batido, como se você tivesse o poder de saber o que cada curva da vida pode trazer. Deveríamos aceitar o fato de que não temos controle de nada e que por mais vontade tenhamos, algumas coisas não saem tão bem na prática quanto estão no papel.

Eu sei, eu sei que dói. Eu sei que quem viveu sempre com a guarda erguida prevendo um murro na boca do estômago caso abaixasse – e sempre levou esse murro quando abaixou a guarda – não espera que isso aconteça de novo. Diz que foi “pela última vez” mas essa última vez sempre tem replay. E você cansado de sofrer, passa a desacreditar que sua vida precisa de mais alguém além de você. Você aprende a não ter medo da solidão e passa a ter medo da companhia porque quem está do seu lado pode ir embora de uma hora para a outra sem que você possa fazer algo a respeito. Você não tem medo de ficar sozinho; você tem medo deixar que se aproximem.

E não é que você deixe alguém se aproximar e te mostrar que esse medo é tão irracional quanto qualquer outro; simplesmente um tanque de guerra bate nesse muro e derruba como se fosse uma navalha cortando facilmente um papel. E você se vê despido de qualquer receio anterior porque é sempre diferente… você sempre sente que é o certo, que não tem problema. Que quem derrubou seus muros como se os muros fossem um nadinha é também sua rede de segurança. Seu porto seguro. Por um tempo ou pela eternidade, não se sabe; tudo o que você pode fazer é viver cada segundo disso como se fosse o último e ter com você que por mais que as vezes isso acabe, por ora ou para sempre, você soube o que é ter alguém na vida que te fizesse se sentir caminhando nas nuvens mas, ao mesmo tempo, em segurança. Você conheceu o que é o amor de verdade em algum momento da sua vida. Você que sempre teve medo de amar, se permitiu amar e permitiu que te amassem, sem perceber.

É assim mesmo, de supetão, que a vida te tira um medo mas te dá outro. E a gente cansa, achando que tem que decidir tudo o tempo inteiro; a gente cansa pensando que se nos dermos um tempinho para curtirmos a chuva gelada caindo lá fora sem nos importarmos com algo além de curtirmos a chuva, estaremos sendo levianos. Em nome de responsabilidades que nem precisaríamos ter a todo o momento, nós nos levamos a sério demais. E desaprendemos a viver com a ingenuidade e a doçura de quem sabe que…

 Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa
Tudo sempre passará

A vida vem em ondas
Como um mar
Num indo e vindo infinito

Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente
Viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo
No mundo

Não adianta fugir
Nem mentir
Pra si mesmo agora
Há tanta vida lá fora
Aqui dentro sempre
Como uma onda no mar

A mesma onda que banha seus pés enquanto você caminha na beira da areia com seus sapatos na mão vendo seu amor dando estrelinha na areia enquanto você diz que a sua maior frustração de infância é justamente não saber dar estrelinha é aquela que destrói o que vê pela frente a depender de sua altura e intensidade. A mesma situação que te traz paz pode ser a que te traz dissabores. Mas assim como a maré que é inconstante, a vida também é. O que hoje dói amanhã pode não doer mais; o que hoje é choro amanhã pode ser riso; o que hoje é saudade amanhã pode ser uma aparição surpresa na porta da sua casa ou na sua sala do escritório.

Você não sabe o que será de você no próximo segundo, quem dirá no próximo dia. A única coisa que você precisa fazer por você mesmo é seguir em frente, mesmo com medo. É retroceder dois passos, mesmo que magoe quem você não queria magoar, para que depois, ao andar 500 milhas, você possa mostrar que fez o que precisava fazer e que nada foi em vão.

Você não sabe quem estará na sua vida amanhã ou depois. Só se certifique que quem está hoje é quem você quer que esteja. É que você respeita, é quem te respeita. É quem você consegue ter uma conversa franca sem medo de ser julgado ou de se sentir sob o crivo da hostilidade. Sem olhar e não reconhecer mais quem está ali. Viva a vida com a certeza de que você não está deixando as coisas irem para só perceber que elas foram quando já não tiver mais placa de retorno nessa estrada.

Prometa a si mesmo que seja num pic nic em um domingo ensolarado, seja num dilúvio que você resolveu aproveitar para brincar de Gene Kelly, você saberá quando parar de pensar para começar a sentir. Ao menos tente. E depois se ficar queimado do sol ou resfriado da chuva, a farmácia está cheia de remédio. Mas vazia de momentos que poderiam ter sido mas não foram porque você não teve a coragem de fazer isso por você.

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Não deixa ela escapar

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*Espero que vocês gostem do texto abaixo gentilmente cedido pela Mayara Godoy, publicado em 05 de novembro de 2015 no blog Uma Segunda Qualquer . Segue nossa linha editorial e é realmente muito bom!

“Amigo, ouve o meu conselho: não deixa essa mulher escapar.

Se você olhar pra ela e, por um segundo, parecer que teu mundo parou, não deixa ela escapar.

Se você tiver vontade não só de acordar do lado dela, mas de tomar café da manhã, almoço e jantar com ela, não deixa ela escapar.

Se ela tiver aquela gargalhada maravilhosa que te faz querer fazer as piadas mais bobas só para vê-la (e ouvi-la) rir, não deixa ela ir embora por nada nesse mundo.

Se você sentir aquele frio na espinha toda vez que o nome dela aparece nas notificações do Whatsapp… Meu amigo, a coisa é séria. Você não pode deixá-la escapar.

Se todo e qualquer tempo livre que você tem só fizer sentido se você estiver com ela… Não perde ela, não.

Se aquelas músicas românticas de repente passaram a fazer sentido, tenho uma notícia pra você: você não pode – nem deve – deixar ela fugir.

Não importa o quanto você tenha afirmado e repetido que você é um solteirão convicto, que pra você sábado é dia de bar e domingo, de futebol… Se você perceber que prefere passar os sábados com ela no sofá, e os domingos, com ela na cama… Corre lá agora e diz pra ela que você não vai deixar ela escapar.

Mas faz isso rápido. Porque, pode até ser que ela também não queira escapar, mas, se ela for embora, é muito provável que nunca mais volte.”

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Supere

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Esperar por algo que pode nunca acontecer é difícil, dói. Mas não esperar e conviver com a sensação de que “talvez se eu tivesse esperado as coisas tivessem acontecido” é pior ainda. Desistir daquilo que você entende ser tudo o que você sempre quis é pior do que ficar, ainda que esse ficar tenha seu quê de murro em ponta de faca. Então você insiste, as vezes estupidamente já que edificada numa esperança tola de que as coisas podem vir a funcionar. A sua parte você faz. Você se dedica ao trabalho novo, a esperar por algo ou alguém e esquece de lembrar que os resultados não dependem só de você, que existe toda uma vida paralela a isso acontecendo. E é exatamente por isso que as coisas podem mudar da noite para o dia.

Pela mutabilidade da vida você aprende que cada dia é único. Cada dia é seu primeiro e último. Cada oportunidade pode ser a última de dizer que ama, de agradecer por algo, de se desculpar, de voltar atrás, de desistir de algo falido e recomeçar. Cada dia é raro e vem cheio de milagres como quando você se depara com alguma situação que muda a forma como seu coração bate e você aprende a dançar conforme a nova batida dele enquanto esta batida durar. Cinco dias. Cinco semanas. Cinco meses. Mas você dança. Descalço no shopping ou de tênis na areia da praia. Você dança. Com roupa de festa no meio do supermercado ou de pijama no meio da rua, com pantufas de ursinho na chuva. Você dança sem medo de parecer ridículo porque você sabe que seu coração só bate diferente pelo o que te faz bem. Por quem te faz bem.

Você passa a vida inteira procurando por completude e você termina sendo um paradoxo ambulante. Você diz que é feliz ou que quer ser feliz e ainda assim se sujeita a ter a sua volta pessoas que só reclamam das coisas, que colocam defeito em tudo, inclusive no que você faz, que só te trazem para baixo ou que não te acrescentam nada de bom. Você diz que quer se sentir completo e convive, sem nada fazer a respeito, por medo ou comodismo, com pessoas que fazem o perto parecer longe e que, por tabela, fazem com que 900km pareçam mais perto do que aquele 1 metro que separa vocês num mesmo cômodo. Você diz que quer mudar, que quer novos horizontes, mas faz tudo exatamente do mesmo jeito e quando vê a oportunidade de mudar passando, recolhe a perna ao invés de pular no barco.

Você se revolta com as coisas que fazem contra você mas é incapaz de se defender. É incapaz de se priorizar, de dizer não quando quer dizer não, sim quando quer dizer sim e que você quer o que você quer e pronto. Você se indigna por ter uma vida medíocre, por ter um trabalho que não te satisfaz, por ter alguém ao seu lado cuja presença já não é mais companhia, ou nunca foi mas você quis se convencer de que era porque ou era isso ou ter que aprender a conviver com você mesmo e sua solidão, como se não tivesse nada de bom nisso. E o que você faz? Nada. Apenas se recorde que toda ação tem uma consequência e que se você não lutar pelo o que você quer você não terá direito algum de chorar pelo o que vier a perder. Porque, convenhamos, foi você quem quis assim.

Quando mais novo e na fase de idealizações, você faz listas, listas de tudo. Listas de como você espera que seu emprego após formado fosse, que tipo de chefe você gostaria de ter, que tipo de colegas de trabalho dividiriam o mesmo andar. Listas de como você gostaria que seu amor fosse quando aparecesse. Você pensa em alguém com senso de humor apurado, que te faz rir com a mesma facilidade com que você pisca os olhos. Você pensa em alguém que seja seu melhor amigo ao mesmo tempo que é o amor da sua vida. E que o amor da sua vida é aquele mocinho louro de olhos claros com quê de melhor jogador de futebol da escola ou aquela mocinha ruiva de olhos verdes e óculos de grau com quê de melhor aluna da classe. Pior ainda quando ela é a idealização dele, ele é a idealização dela e os dois passam a vida sem saber porque são orgulhosos ou medrosos demais para fazer seus mundos se cruzarem ou disfarçam quando os mundos se cruzam porque “o que é que vão pensar de mim se isso acontecer?”.

O que você percebe conforme o tempo passa é que isso tudo é uma tremenda bobagem. Que na verdade você não fazia ideia do que procurava, que aquela lista era possivelmente alguma receita pronta de bolo que deu errado e alguém esqueceu de apagar. Raramente é uma receita de bolo que deu certo, raramente você encontra aquilo que supostamente era o que você queria e estava na lista e você só percebe isso quando tromba por aí com aquela oportunidade de emprego na Austrália; com aquele andar lotado de gente que fala alto e que você achava que era a casa da mãe Joana mas na verdade era o melhor pessoal da firma; com aquele carinha do cabelo castanho desarrumado, do cavanhaque bem aparado e boa praça; com aquela mocinha dos cabelos ora castanhos, ora louros, olhos expressivos, sorriso largo e que tem o esmalte vermelho como característica.

Você morre todos os dias para nascer de novo. Se você nasce melhor ou pior, só cabe a você decidir. Aquela estátua de vidro linda que cai no chão e quebra em migalhas num primeiro momento pode ser uma decepção mas quando o sol bate nela, forma uma gama de cores que não teria se formado caso ela permanecesse inteira. E pode até achar que o ciclo da vida consiste em um dia perder e no outro ganharem de você. Todo mundo acha que merece uma vida plena e bem aproveitada, criando memórias novas e melhores a cada dia, mas a maioria passa os dias agindo como se o mediano contentasse e como se fosse razoável aceitar algo que claramente está errado em prol de… de quê mesmo? Por que é mesmo que se aceita isso? Vale a pena? Só uma pessoa pode avaliar isso a cada decisão tomada e essa pessoa é você.

Você que não diz coisas com medo de matar alguém de tristeza e acaba engolindo palavra por palavra e matando a você mesmo todos os dias, minuto a minuto, letra por letra. Você que esconde coisas com medo de provocar uma tormenta externa e vive em uma tormenta interior com tudo fora do lugar porque você não é capaz de reconhecer que algo vai errado bem debaixo do seu nariz e, quando reconhece, acaba sendo covarde e não age. Você morre todos os dias um pouco mais por não sair da sua zona de conforto. Por tratar quem te dá valor com desprezo. Por tratar quem te ama com indiferença. Por não amar. Você morre todos os dias quando esquece que amanhã ou depois tanto faz já que algumas oportunidades não voltam mais a não ser que você, com muito custo, reverta a situação. A não ser que você comece a viver e a responder que está bem somente quando estiver de verdade. Às vezes, dizer “eu não faço a menor ideia de como estou” é mais honesto do que um “estou bem” tão falso quanto nota de 1.99.

A vida não para. Ou você é forte o suficiente para assumir suas vontades e aguentar suas porradas ou você vai ser aquele sentado no sofá reclamando que nunca teve quem passasse um sábado acordado com você enquanto você tinha plantão de madrugada ou que nunca teve um companheiro de viagem que não dormisse no banco do carona mas sim ficasse cantando e falando abobrinha te fazendo rir para não dormir no volante. Você vai ser aquele que tem um empreguinho mais ou menos porque teve medo de aceitar uma proposta melhor por medo de não ser capaz quando todo mundo confiava no seu taco, menos você.

The world ain’t all sunshine and rainbows. It’s a very mean and nasty place and I don’t care how tough you are it will beat you to your knees and keep you there permanently if you let it. You, me, or nobody is gonna hit as hard as life. But it ain’t about how hard you hit. It’s about how hard you can get hit and keep moving forward. How much you can take and keep moving forward. That’s how winning is done! Now if you know what you’re worth then go out and get what you’re worth. But you gotta be willing to take the hits, and not pointing fingers saying you ain’t where you wanna be because of him, or her, or anybody! Cowards do that and that ain’t you! You’re better than that! – Rocky Balboa

Quando não se tem outra escolha, o melhor a fazer é seguir em frente. Quando escolheram por você o seu destino, lembre-se que o passo seguinte é seu. Quem decide se vai ficar sentado chorando no meio-fio 1 dia ou 1 mês é você. Quem decide se aproveita para tirar o salto ou o sapato apertado e correr uma maratona descalça é você. Se permita o tempo da cura. Mas não se permita a eternidade da clausura. Porque por mais que a vida seja dura e você só perceba que algo era importante quando esse algo se vai, ou você decide que esse algo tem que ir, quarto escuro só faz bem quando você está com enxaqueca e tem um monte de banho de chuva para você tomar lá fora. 

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Fardos

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Fardos. A vida é feita de fardos. De pesos que acumulamos durante nossa jornada. De escolhas que fazemos cujas consequências suportamos invariavelmente, queiramos ou não. Alguns fardos são como uma joia rara, pesada, que você faz questão de carregar porque embora pesos, são bênçãos e toda bênção tem seu quê de pesar até que se revele algo perfeito. Paramos para pensar que dizer que algo é um fardo não é necessariamente ruim? “O que é pesado ou custa a suportar; que exige cuidados ou responsabilidades”.

Amor é um fardo. Deixando de lado a leveza de um amor que se parece mais com uma tarde preguiçosa na rede de um domingo e não com uma noite agitada de sábado na balada mais movimentada da cidade, o amor, assim como qualquer outro sentimento exige cuidados e responsabilidades, em primeiro lugar para com você mesmo que o sente; em segundo lugar, atrás por um fiozinho de cabelo, para com aquele a quem se destina ou se destinou algum dia. Respeito mútuo ao que ainda existe ou já acabou, um fardo que chegou num embrulho bonito e com um laço vermelho e dourado e com o tempo passou a ser roto e a não fazer mais sentido. Acontece quando se vive a vida em sua plenitude, algumas coisas se perdem no tempo e no espaço, crescem separadamente sem que se perceba. O que é pesado ou custa a suportar já não vale mais a pena, mas é algo que você carrega consigo há tempo e por isso é difícil depositá-lo em outro lugar que não nos seus ombros.

Seus ombros foram feitos para aguentar o lado agridoce dos sentimentos que te preenchem ou te transbordam. Foram feitos para que ao caminhar, memórias novas sejam criadas e memórias antigas passem para o fundo da mochila, que conforme o tempo passa vira aquelas de alpinista já que precisa ser grande para comportar tanto. Decidir o que fazer com o que se sente quando no meio do caminho se acha o que você não sabia, ao menos acreditava não saber, que procurava, mas percebe que era tudo o que sempre quis, ou que a amizade que parecia ser boa em via de mão dupla na verdade era mão única e você se viu na contramão é algo difícil e por isso a responsabilidade e o cuidado sempre precisam ser o seu ponto de chegada, mas também o de partida. Precisam ser seu começo, seu meio e seu fim. Mesmo que você não tenha noção de onde a linha de chegada está.

Sentimentos nem sempre são correspondidos. Há algo errado quando se acredita que ao não corresponder mais ou nunca ter correspondido um sentimento o errado é você, o incompreensível é você. “Se você não disser que me ama eu vou me matar!” – metaforicamente ao permanecer em algo falido – quantas e quantas vezes não vemos esse tipo de situação? E você morre afogado numa mentira quando coaduna com isso e diz que ama quando não ama ou pior: quando diz que entende que o errado é você por não corresponder e se sente culpado por não dar a alguém aquilo que alguém esperava ou queria de você.

Ninguém tem obrigação de corresponder o que sentimos. E nem de servir de muro de lamentações por causa disso. É chato. É inconveniente. A bem da verdade as vezes você não tem a menor culpa do que cativou. Então “O Pequeno Príncipe” que diz que somos e seremos eternamente responsáveis pelo o que cativamos é uma das maiores balelas da literatura mundial. Isso é te fazer crer que você é responsável por sentimentos e pessoas que você atraiu só por ser como é. Não é desprezo pelo sentimento alheio, é só não tomar para si um fardo que não precisa e nem deve estar sobre seus ombros. Eu não sou eternamente responsável por nada além do que me faz feliz e de quem me faz feliz. Eternamente responsável pelo o que eu escolhi. Por quem eu escolhi.

Sou eternamente responsável por zelar pelo sentimento, meu e pelo mútuo. Pelo coração entregue para alguém cuidar, eternamente enquanto dure, até que a vida ou a morte os separe. Ou a morte em vida, a pior de todas. Eternamente responsável pela verdade e sinceridade do que se sente. Eternamente responsável por se olhar no espelho e reconhecer o reflexo de quem todo dia muda um pouco, morre um pouco, renasce um pouco, espera muito, faz muito, quer muito, tem muito. Ou de quem nada faz e vê a banda da vida passar jogando confete nas cabeças alheias e na sua cara também.

Fardos acumulados são como rugas e linhas de expressão que demoraram a aparecer, mas que aparecem e contam a historia de quem você é. Contam seus caminhos, contam seus atalhos, contam como você chegou onde está. Fardos te ajudam a escolher para onde ir e o que levar enquanto vai. Pesos e responsabilidades existem e sempre existirão. O que temos que perceber claramente é que alguns não são nossos e que alguns que são já não precisam ser mais. Que muitas vezes vivemos em noites agitadas de sábado por medo de deixarmos o dia seguinte chegar e nos deitarmos na rede quieta de um domingo preguiçoso.

Que seja uma quimera. Que seja um devaneio acreditar que as pessoas algum dia dirão não quando quiserem dizer não, dirão sim quando quiserem dizer sim e não deixarão o grito preso na garganta por se importar demais com o que não deveriam e se importar de menos com o que deveriam – se importar com o que vão pensar ao invés de prestar atenção ao que cada batida do coração quer dizer.

Que seja uma quimera. Mas é por causa de quimeras que sonhadores tornaram seus sonhos realidade e fizerem o impossível acontecer. Seja sonho ou realidade, mas seja de verdade.  

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