Fardos

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Fardos. A vida é feita de fardos. De pesos que acumulamos durante nossa jornada. De escolhas que fazemos cujas consequências suportamos invariavelmente, queiramos ou não. Alguns fardos são como uma joia rara, pesada, que você faz questão de carregar porque embora pesos, são bênçãos e toda bênção tem seu quê de pesar até que se revele algo perfeito. Paramos para pensar que dizer que algo é um fardo não é necessariamente ruim? “O que é pesado ou custa a suportar; que exige cuidados ou responsabilidades”.

Amor é um fardo. Deixando de lado a leveza de um amor que se parece mais com uma tarde preguiçosa na rede de um domingo e não com uma noite agitada de sábado na balada mais movimentada da cidade, o amor, assim como qualquer outro sentimento exige cuidados e responsabilidades, em primeiro lugar para com você mesmo que o sente; em segundo lugar, atrás por um fiozinho de cabelo, para com aquele a quem se destina ou se destinou algum dia. Respeito mútuo ao que ainda existe ou já acabou, um fardo que chegou num embrulho bonito e com um laço vermelho e dourado e com o tempo passou a ser roto e a não fazer mais sentido. Acontece quando se vive a vida em sua plenitude, algumas coisas se perdem no tempo e no espaço, crescem separadamente sem que se perceba. O que é pesado ou custa a suportar já não vale mais a pena, mas é algo que você carrega consigo há tempo e por isso é difícil depositá-lo em outro lugar que não nos seus ombros.

Seus ombros foram feitos para aguentar o lado agridoce dos sentimentos que te preenchem ou te transbordam. Foram feitos para que ao caminhar, memórias novas sejam criadas e memórias antigas passem para o fundo da mochila, que conforme o tempo passa vira aquelas de alpinista já que precisa ser grande para comportar tanto. Decidir o que fazer com o que se sente quando no meio do caminho se acha o que você não sabia, ao menos acreditava não saber, que procurava, mas percebe que era tudo o que sempre quis, ou que a amizade que parecia ser boa em via de mão dupla na verdade era mão única e você se viu na contramão é algo difícil e por isso a responsabilidade e o cuidado sempre precisam ser o seu ponto de chegada, mas também o de partida. Precisam ser seu começo, seu meio e seu fim. Mesmo que você não tenha noção de onde a linha de chegada está.

Sentimentos nem sempre são correspondidos. Há algo errado quando se acredita que ao não corresponder mais ou nunca ter correspondido um sentimento o errado é você, o incompreensível é você. “Se você não disser que me ama eu vou me matar!” – metaforicamente ao permanecer em algo falido – quantas e quantas vezes não vemos esse tipo de situação? E você morre afogado numa mentira quando coaduna com isso e diz que ama quando não ama ou pior: quando diz que entende que o errado é você por não corresponder e se sente culpado por não dar a alguém aquilo que alguém esperava ou queria de você.

Ninguém tem obrigação de corresponder o que sentimos. E nem de servir de muro de lamentações por causa disso. É chato. É inconveniente. A bem da verdade as vezes você não tem a menor culpa do que cativou. Então “O Pequeno Príncipe” que diz que somos e seremos eternamente responsáveis pelo o que cativamos é uma das maiores balelas da literatura mundial. Isso é te fazer crer que você é responsável por sentimentos e pessoas que você atraiu só por ser como é. Não é desprezo pelo sentimento alheio, é só não tomar para si um fardo que não precisa e nem deve estar sobre seus ombros. Eu não sou eternamente responsável por nada além do que me faz feliz e de quem me faz feliz. Eternamente responsável pelo o que eu escolhi. Por quem eu escolhi.

Sou eternamente responsável por zelar pelo sentimento, meu e pelo mútuo. Pelo coração entregue para alguém cuidar, eternamente enquanto dure, até que a vida ou a morte os separe. Ou a morte em vida, a pior de todas. Eternamente responsável pela verdade e sinceridade do que se sente. Eternamente responsável por se olhar no espelho e reconhecer o reflexo de quem todo dia muda um pouco, morre um pouco, renasce um pouco, espera muito, faz muito, quer muito, tem muito. Ou de quem nada faz e vê a banda da vida passar jogando confete nas cabeças alheias e na sua cara também.

Fardos acumulados são como rugas e linhas de expressão que demoraram a aparecer, mas que aparecem e contam a historia de quem você é. Contam seus caminhos, contam seus atalhos, contam como você chegou onde está. Fardos te ajudam a escolher para onde ir e o que levar enquanto vai. Pesos e responsabilidades existem e sempre existirão. O que temos que perceber claramente é que alguns não são nossos e que alguns que são já não precisam ser mais. Que muitas vezes vivemos em noites agitadas de sábado por medo de deixarmos o dia seguinte chegar e nos deitarmos na rede quieta de um domingo preguiçoso.

Que seja uma quimera. Que seja um devaneio acreditar que as pessoas algum dia dirão não quando quiserem dizer não, dirão sim quando quiserem dizer sim e não deixarão o grito preso na garganta por se importar demais com o que não deveriam e se importar de menos com o que deveriam – se importar com o que vão pensar ao invés de prestar atenção ao que cada batida do coração quer dizer.

Que seja uma quimera. Mas é por causa de quimeras que sonhadores tornaram seus sonhos realidade e fizerem o impossível acontecer. Seja sonho ou realidade, mas seja de verdade.  

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2 Comentários

Arquivado em Contos, Divagações, Romance

2 Respostas para “Fardos

  1. Li um texto libertador hoje cedo e agora esse vem pra completar, dizendo muitas verdades. Deixemos os fardos desnecessários e gastemos nossas forças para carregar aqueles que nos importam. Belo texto! Parabéns!

    • Michelle

      Muito obrigada! 🙂
      Que vivamos bem. A vida passa bem rápido e as oportunidades também, nunca sabemos ao certo quando será “o último vagão”!

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