Medo

rain-room-large1

E se num dia de chuva ao invés de você olhar, da sua janela, cada pingo cair, cada gota entranhar na terra ou correr pelo chão, você sair de casa e for sentar no chão, lá fora, deixando a chuva cair sobre você? E se você brincar de pular em poças sem se importar com quem estiver vendo? E se pelo menos uma vez na vida você só fizer isso, sem pensar demais, sem pensar se vai pegar um resfriado ou se vai molhar a casa inteira até chegar no chuveiro? E se você simplesmente fizer o que quer sem medir cada passo milimetricamente tentando saber o que você nunca saberá, a sorte e o revés a cada passo?

Temos medo. O medo é intrínseco ao ser humano. Medo do escuro do quarto ou do escuro do quartinho que a sua mente se enfiou e não quer sair. Medo de chorar por achar que é fraqueza ou de abaixar a guarda prevendo uma decepção que pode não acontecer. O medo de perder alguém, algo. Uma chance. Uma vida inteira vivendo como antagonista da sua própria história. Vivendo como sombra da sua própria sombra. O medo pode nos catapultar para o outro lado com a coragem de um salto mas também pode nos fazer recuar tanto a ponto de voltarmos ao começo do jogo. O medo que nem sempre é sinônimo de covardia, sempre é sinônimo de que algo importa.

Se tudo o que você faz é pensar o dia inteiro sobre algo, você certamente não estará mais vendo as coisas como são pois sua cabeça terá dado tantas voltas que você não sabe mais o que você criou e o que já estava ali antes de você. Mas você tem medo de não pensar demais e acabar deixando algo passar batido, como se você tivesse o poder de saber o que cada curva da vida pode trazer. Deveríamos aceitar o fato de que não temos controle de nada e que por mais vontade tenhamos, algumas coisas não saem tão bem na prática quanto estão no papel.

Eu sei, eu sei que dói. Eu sei que quem viveu sempre com a guarda erguida prevendo um murro na boca do estômago caso abaixasse – e sempre levou esse murro quando abaixou a guarda – não espera que isso aconteça de novo. Diz que foi “pela última vez” mas essa última vez sempre tem replay. E você cansado de sofrer, passa a desacreditar que sua vida precisa de mais alguém além de você. Você aprende a não ter medo da solidão e passa a ter medo da companhia porque quem está do seu lado pode ir embora de uma hora para a outra sem que você possa fazer algo a respeito. Você não tem medo de ficar sozinho; você tem medo deixar que se aproximem.

E não é que você deixe alguém se aproximar e te mostrar que esse medo é tão irracional quanto qualquer outro; simplesmente um tanque de guerra bate nesse muro e derruba como se fosse uma navalha cortando facilmente um papel. E você se vê despido de qualquer receio anterior porque é sempre diferente… você sempre sente que é o certo, que não tem problema. Que quem derrubou seus muros como se os muros fossem um nadinha é também sua rede de segurança. Seu porto seguro. Por um tempo ou pela eternidade, não se sabe; tudo o que você pode fazer é viver cada segundo disso como se fosse o último e ter com você que por mais que as vezes isso acabe, por ora ou para sempre, você soube o que é ter alguém na vida que te fizesse se sentir caminhando nas nuvens mas, ao mesmo tempo, em segurança. Você conheceu o que é o amor de verdade em algum momento da sua vida. Você que sempre teve medo de amar, se permitiu amar e permitiu que te amassem, sem perceber.

É assim mesmo, de supetão, que a vida te tira um medo mas te dá outro. E a gente cansa, achando que tem que decidir tudo o tempo inteiro; a gente cansa pensando que se nos dermos um tempinho para curtirmos a chuva gelada caindo lá fora sem nos importarmos com algo além de curtirmos a chuva, estaremos sendo levianos. Em nome de responsabilidades que nem precisaríamos ter a todo o momento, nós nos levamos a sério demais. E desaprendemos a viver com a ingenuidade e a doçura de quem sabe que…

 Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa
Tudo sempre passará

A vida vem em ondas
Como um mar
Num indo e vindo infinito

Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente
Viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo
No mundo

Não adianta fugir
Nem mentir
Pra si mesmo agora
Há tanta vida lá fora
Aqui dentro sempre
Como uma onda no mar

A mesma onda que banha seus pés enquanto você caminha na beira da areia com seus sapatos na mão vendo seu amor dando estrelinha na areia enquanto você diz que a sua maior frustração de infância é justamente não saber dar estrelinha é aquela que destrói o que vê pela frente a depender de sua altura e intensidade. A mesma situação que te traz paz pode ser a que te traz dissabores. Mas assim como a maré que é inconstante, a vida também é. O que hoje dói amanhã pode não doer mais; o que hoje é choro amanhã pode ser riso; o que hoje é saudade amanhã pode ser uma aparição surpresa na porta da sua casa ou na sua sala do escritório.

Você não sabe o que será de você no próximo segundo, quem dirá no próximo dia. A única coisa que você precisa fazer por você mesmo é seguir em frente, mesmo com medo. É retroceder dois passos, mesmo que magoe quem você não queria magoar, para que depois, ao andar 500 milhas, você possa mostrar que fez o que precisava fazer e que nada foi em vão.

Você não sabe quem estará na sua vida amanhã ou depois. Só se certifique que quem está hoje é quem você quer que esteja. É que você respeita, é quem te respeita. É quem você consegue ter uma conversa franca sem medo de ser julgado ou de se sentir sob o crivo da hostilidade. Sem olhar e não reconhecer mais quem está ali. Viva a vida com a certeza de que você não está deixando as coisas irem para só perceber que elas foram quando já não tiver mais placa de retorno nessa estrada.

Prometa a si mesmo que seja num pic nic em um domingo ensolarado, seja num dilúvio que você resolveu aproveitar para brincar de Gene Kelly, você saberá quando parar de pensar para começar a sentir. Ao menos tente. E depois se ficar queimado do sol ou resfriado da chuva, a farmácia está cheia de remédio. Mas vazia de momentos que poderiam ter sido mas não foram porque você não teve a coragem de fazer isso por você.

Anúncios

2 Comentários

Arquivado em Contos, Divagações, Pessoal, Romance

2 Respostas para “Medo

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s