Perder

Quem nunca conviveu com a sensação de perder algo ou alguém? Aquela promoção que passou por um triz de ser sua mas acabou indo para outra pessoa; aquela pessoa que você queria ter ao seu lado e por alguma razão não teve ou até mesmo aquela roupa que você jurou para você mesmo que iria emagrecer o suficiente para poder comprar e usar. Quem nunca passou por alguma situação dessas e tantas outras nesse sentido?

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É natural perder. Ainda que seja natural, conviver com a sensação de perda nos deixa mal e nos faz questionar se fizemos o suficiente, onde foi que erramos ou até mesmo se somos bons o suficiente para aquilo. Questionamos a nossa habilidade de nos mantermos em pé diante de uma derrota da vida, diante de uma série de obstáculos que se colocam na frente da linha de chegada e que por mais que você os escale, por mais que você deles desvie, eles parecem nunca acabar.

Ninguém se acostuma a perder. A resignação com a derrota vem do simples fato de que a vida não para e não espera você terminar com toda a caixa de lenços de papel por tanto chorar antes de levantar do chão e seguir seu rumo. A resignação te ajuda a lembrar de esquecer o que tanto dói. A resiliência aparece nas situações de crise, de sofrimento. É a capacidade de nos recuperarmos dos reveses da vida e nos tornarmos flexíveis. Uma hora de galhos secos que quebram fácil, passamos a ser como o bambu, que não se curva diante do vendaval.

Acontece que das três coisas ditas, nenhuma delas era realmente sua. Nunca foi. Você nunca teve a promoção efetivamente para perde-la; você nunca teve a pessoa com você para perde-la; você nunca coube em um vestido ou uma calça daquele tamanho para perde-los. Você tinha expectativas. Você tinha uma ideia de que era bom o bastante para ter aquilo porque aquilo em tese seria o melhor para você e essa ideia era sua; o objeto da sua ideia nunca foi. Nunca foi.

Mesmo que teu chefe te garantisse a promoção, ela não seria sua até a plaquinha da sua porta mudar ou seu contracheque engordar. Mesmo que aquela pessoa dissesse que era você a pessoa certa para ela, ela nunca seria sua até que realmente pudesse ou quisesse te assumir. Mesmo que faltasse um pouquinho só para o zíper da roupa fechar, enquanto você não tirasse o vestido do manequim da loja e levasse para casa ele não seria seu. Em nada sendo seu, quando algo disso vai embora, você não perdeu. Isso só foi embora.

É claro que a visão racional da situação é essa. A visão objetiva de que só se perde o que efetivamente se tem fica borrada quando sai da esfera da ideia e passa para o plano da ação. Em qualquer situação que você se veja em compasso de espera, que gere expectativa, quando não acontece o que você pretendia você vai sentir sim que perdeu e vai começar sim a questionar se fez o que podia fazer ou se era bom o bastante. E geralmente vai achar algum ponto fora da curva para dizer que a culpa de não ter acontecido foi sua. “Eu não fiz tantas horas extras quanto ele”; “eu cheguei atrasado, já tinha alguém no meu lugar”; “porque eu nasci com biotipo que puxou o lado ruim da família” … Em suma, num dia a gente perde, no outro ganham da gente.

Nos acostumamos desde cedo a avocarmos coisas para nós que não são nossas. Responsabilidades, comportamentos, dores, amores. Nos acostumamos também a arrumar desculpas para justificar coisas serem como são, tampado o sol com a peneira numa tentativa tresloucada de não assumir que as coisas estão erradas. Nos viciamos em tristeza. Sim, nos viciamos em tristeza e em metades para justificar o medo que impede de mudar e o “eu não aguento mais” entalado na garganta que não sai. Não buscamos o inteiro e a cura para o que nos deixa triste porque sem isso teríamos que ser felizes. E felicidade dá medo, não dá?

Nos acostumamos a deixar que os outros vivam a nossa vida e morremos de medo quando tentamos cumprir a promessa que fazemos a nós mesmos de que “amanhã será diferente”. Nós nos esquecemos pela manhã daquilo que pedimos de noite em oração. E quando não dá tempo de nos esquecermos do que pedimos porque recebemos antes mesmo de nos darmos conta, damos um jeito de dizer que não era bem isso ou de nos apavorarmos com tal coisa a ponto de não aproveitarmos nada.

Não está nada certo viver com medo. Muito menos passar os dias achando que você perdeu algo que nunca foi seu. Do mesmo modo como é costume dizer que perdemos, temos que mudar a cabeça para pensar que se nós fizemos o possível e mesmo assim tal coisa não aconteceu, nós não perdemos; só não aconteceu. Não quer dizer que não vá acontecer nunca e as vezes acontece, mas de outros jeitos. Às vezes você muda de emprego e entra em outro numa posição melhor do que estava; às vezes a vida te faz trombar com alguém no meio da rua e dessa trombada vocês marcam um café e você finalmente tem alguém. Às vezes você resolve experimentar um modelo parecido com o do vestido que só tinha tamanho pequeno e se vê deslumbrante no espelho.

2+2=4.
3+1=4.
5-1=4.

São várias as formas de se chegar no resultado que se pretende. Mas para se chegar nesse resultado, por mais vias que existam, você precisa saber de verdade o que quer. As pessoas a sua volta não tem nada com a sua felicidade. Se você coloca a chave da sua felicidade no bolso de outra pessoa, o errado é você que coloca, não a outra pessoa que aceita. Tome partido de você mesmo! Comece a viver! PERCA O QUE É REALMENTE SEU, não o que você nunca teve. Expectativa de algo não é algo concreto, lembre disso. Perder algo que foi seu significa ao menos que você tentou, que você fez por onde, que não se escondeu da vida esperando que a solução caísse do céu. Quando você não toma partido no sentido de garantir o que quer, de deixar claro o que quer, esse algo pode não estar mais lá quando você se julgar finalmente pronto para ir atrás.

Nós nunca pensamos que a última vez é a última vez. Você sempre acha que terá outra oportunidade o que aquela durará para sempre. Mas não. Então dê valor para o que você tem antes que vire algo que você tinha. Dê valor para as chances que você tem na vida de ser quem você quer ser e estar com quem você quer estar. Não ache que as coisas estarão onde estão para sempre. Tem mais gente rezando pelo o que você reza e que pode dar valor se as conseguir pela manhã caso você não dê. Decida o que quer. Decida o que vai fazer. Reconheça suas limitações, enfrente seus medos. E só se preocupe com o que for realmente seu e estiver nas suas mãos. Do contrário, promessas voam tão fácil quanto as folhas que caem das arvores no outono.

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