Vai

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Vai, se olha no espelho. Se olha no espelho e se pergunta quantas vezes você se pegou dizendo “eu não preciso disso” ou se perguntando “você vai continuar insistindo nessa barca furada?”. Quantas vezes você concluiu que precisava parar e cinco minutos depois estava checando seu e-mail esperando aquela mensagem que nunca vem.

Se olha no espelho e se pergunta quantas vezes você já jurou que nunca mais faria o que acabou de fazer; que nunca mais falaria com quem acabou de falar; que nunca mais enganaria quem acabou de enganar – nem que essa pessoa enganada seja você mesmo, a pior de todas as enganações.

Vai, se olha no espelho. Se olha no espelho e se pergunta quantos do seus “nunca mais” foram realmente um “nunca mais”. Quantos dos seus “basta” foram realmente “basta”. Quantos dos seus “para sempre e sempre” duraram mais do que uma temporada da sua série preferida.

Se olha no espelho e se pergunta se valeu a pena deixar aquela pessoa esperando como plano B porque você nunca teve coragem de dar um bico no A que na verdade era o Z. Pergunta olhando nos olhos se valeu a pena se machucar e machucar todo mundo que está em sua volta com o seu egoísmo das escolhas não feitas. Ou de perceber que ao não escolher você na verdade escolheu sim e só não anunciou expressamente, deixou que a vida e os acontecimentos fizessem isso por você.

Se olha no espelho e se questiona se você é bom o suficiente. Sim, se questiona. Questiona sua moral, sua ética, sua integridade. Questiona se você fez o suficiente. Questiona se você foi honesto o suficiente com quem não esperava nada de você além do mínimo de honestidade e hombridade. Questiona a sua moral em deixar alguém na sombra da sua vida quando você diz que a lua seria dessa pessoa se você pudesse dar isso a ela. Questiona qual é o sentido de levar uma vida de mentirinha, uma relação de fachada. De empurrar um emprego que você detesta com a barriga mas não fazer nada para sair dele.

Vai, pelo amor de Deus, se olha no espelho e se vê. Se veja nu e cru. Se veja de peito aberto, coração rasgado, cabeça cheia. Se veja com a profundidade que você nunca deixou ninguém te olhar. Se analise, seja verdadeiro ao menos uma vez na vida e grite para fora o que você grita para dentro. Está tudo errado? Berre. Está tudo bem? Berre. Não é o que você quer mas é o que você tem? Berre. Grite mas faça alguma coisa além disso. Bebês gritam e choram porque não sabem expressar de outra forma mas alguém sempre entende por eles quais são as necessidades. Você já passou da fase, faz tempo, de querer que alguém faça isso por você. De querer que alguém decida por você só o que você pode decidir.

Faz alguma coisa. Nem que seja desistir. Desista da covardia de fugir da vida ou desista da ideia de correr atrás da sua vida. Mas desista. Desista de ser sempre o último a fazer o que precisa fazer e se contentar com as decisões que sobram porque alguém já foi embora e levou uma lembrancinha rosa da festa te deixando a roxa ou porque alguém pegou o ultimo brigadeiro da mesa te deixando o docinho de uva. Desista de ser o covarde da classe que nunca se pronuncia a favor de nada, nem de você mesmo, que nunca fala nada e sempre diz amém para os mandos e desmandos de quem não está nem aí se o que acontece é bom ou ruim para você.

Faz alguma coisa. Nem que seja assumir finalmente que você cansou porque esperar sentado também cansa. Nem que seja assumir finalmente que você colocou a sua vida para alugar porque não consegue fazer dela um lugar habitável por você mesmo então precisa de alguém para viver por você. Nem que seja assumir finalmente que você não precisa disso, não precisa dele ou dela te enrolando e te causando uma vida de labirintites indesejadas.

Tira uma selfie dessa cara de pau que nega ter algo errado, que sorri quando quer chorar, que fala quando quer calar e cala quando quer falar. Tira uma selfie dessa cara sem vergonha que mentiu tanto para esses olhos tristes que eles acreditaram nas mentiras a ponto de não brilharem mais e de deixarem partir quem conseguia resgatar tal brilho. Tira uma selfie dessa alma perdida em meio ao breu que você insiste em se colocar se acuando no canto escuro do quarto porque tem medo. Aproveita que está na frente do espelho e tira uma selfie que demonstre a sua falta de amor próprio ao se abandonar desse jeito.

Agora vai. Sai do banheiro. Sai da frente do espelho e vai viver. Vai ver o que te restou, vai ver quem ficou te esperando enquanto você ia tentar descobrir que rumo tomar na vida. Vai ver quem aguentou todas as barras porque acreditou que você estava realmente tentando encontrar as respostas para as prioridades da sua vida. E não culpe a alguém se quando abrir a porta não tiver mais ninguém em casa; você demorou mais do que a vida esperou. A vida passa você querendo ou não, e infelizmente as pessoas passam com ela.

Vai. Ou fica aí na frente do espelho ensaiando o discurso do Oscar para quando você acordar amanhã e viver mais um dia em ponto morto dessa sua vida em preto e branco.

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