Você vive. Você aprende

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Apanhamos. Da vida, das situações, de nós mesmos. Apanhamos das nossas escolhas, do nosso livre arbítrio. Apanhamos e escolhemos não sucumbir à dor dos duros golpes porque julgamos que as surras valem a pena por aquilo que se pretende ter e conseguir.

Obstinados demais ou idiotas demais, não desistimos quando o mundo todo nos diz que devemos desistir e seguir em frente. Desistir de algo que lutamos tanto e passamos tanto tempo segurando firme a corda que queimou nossas mãos e machucou tanto que sequer dói mais; acostumamos com a dor das situações que nos colocamos e ali vivemos, fazemos morada no comodismo e na dormência.

Percebemos que vale a pena lutar, seja pelo o que for, quando pensar na possibilidade de uma vida sem aquilo que queremos equivale e tirar qualquer sentido do que conhecemos. Equivale a perder o chão, viver com balão de oxigênio porque respirar sozinho já não parece mais opção. E é por isso que aceitamos as surras da vida; me valendo da licença poética, nós aceitamos as surras que pensamos merecer por aquilo que pretendemos ter.

Verdade nua e crua, nem sempre apanhar da vida e do nosso livre arbítrio vale a pena. Por vezes queremos acreditar que a solução vai aparecer na próxima curva e você se obriga a continuar andando até lá para descobrir que nada aconteceu de novo. E você insiste naquilo que te faz chorar com a esperança de que um dia seja o que te faça sorrir. Não vale a pena mas que mal tem nisso? Nenhum, se você está disposto a pagar o preço do calvário da espera. Se você está disposto a se transformar de galho seco em bambu.

Somos galhos secos que se moldam pela vida e através da vida naquilo que quisermos, inclusive em bambu. O bambu enfrenta tempestades e não se curva diante das intempéries, segue imponente na sua função, criando raízes profundas que se estendem pela terra tornando difícil a vida daquele que quer arrancá-lo sem cortá-lo ao meio. Talvez seja a sina da vida do ser humano que sofre por opção; acabar virando bambu se prestar atenção naquilo a que está se prestando.

Todos temos nossos dias de galho seco. Todos nós alguma hora, em alguma situação, por mais que desejemos tal coisa mais do que tudo do mundo, podemos quebrar. Por mais firme que seja o pensamento e fixa seja a ideia de obstinação, existe aquele dia que nos sentimos idiotas por querer demais algo que parece longe demais. Como num exemplo um tanto esdrúxulo, uma grávida espera que sua bolsa se rompa para que possa ter seu filho por parto natural e a bolsa não se rompe. Ou ela espera, correndo todos os riscos da espera que mesmo calculada pode trazer surpresas – agradáveis ou não, ou ela opta pela intervenção cirúrgica, antecipando seus planos mesmo contra a sua vontade.

Temos que parar por vezes de prestar atenção no que queremos e começar a prestar atenção naquilo que merecemos. Quando as duas coisas não se coadunam, por mais fé em Deus e na vida que você tenha, você precisa mudar. Você não muda ninguém, o único poder que você tem é de mudar a si mesmo e as suas atitudes. Rever seus conceitos, suas prioridades. O que dói e merece continuar na sua vida da mesma forma como que faz rir pode ser descartável por nada agregar. São múltiplas possibilidades que você consegue vislumbrar e colocar em ordem com um simples passo para trás.

Um passo para trás é sobrevivência. É sanidade. É emocional no lugar dele, racional no lugar dele e o início do desembolar do novelo de lã que se formou na sua vida de cosplay de Rocky Balboa. Porque não importa o quanto a vida te bata e nem o quão forte seja o soco na boca do seu estômago; o que importa é se você tem a força para seguir em frente. Saber seguir em frente mesmo depois de tudo é sinal de maturidade, assim como saber a hora de dar esse passo para trás e ver se o caminho é esse mesmo.

Ninguém consegue viver no masoquismo sentimental das lutas inglórias por muito tempo sem desabar ao menos um pouco vez ou outra. Como diz a música “Dom Quixote” dos Engenheiros do Hawaii:

“Por amor às causas perdidas

Tudo bem, até pode ser

Que os dragões sejam moinhos de vento

Muito prazer, ao seu dispor

Se for por amor às causas perdidas

Por amor às causas perdidas”

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A virtude do obstinado é o defeito do idiota e ambos podem estar na mesma pessoa: não acham que existam causas perdidas. Mas mesmo estes cansam. E tudo o que querem, no final do dia, é parar de apanhar um pouco para que os olhos inchados consigam se abrir e ver que o sol nasce e dorme todos os dias, e nossas chances de fazer melhor seguem o mesmo caminho.

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