Arquivo do mês: julho 2016

Ciclos

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Despedidas nunca são fáceis. Seja a despedida de um parente querido que vai fazer intercâmbio na Europa por um tempo, seja a despedida de uma pessoa importante que se vai “daqui para uma melhor”, seja de um relacionamento, seja de um ciclo.

Rompimentos de ciclos e relacionamentos exigem maturidade porque esses na verdade nós temos mais controle que os demais e implicam em ter uma vida de outra pessoa diretamente relacionada a nossa decisão. Relacionamentos e ciclos exigem responsabilidade. Rompimentos, idem. Demandam saber que do outro lado alguém pode ser pego de supetão pela sua decisão e não estar no mesmo compasso que você. E se dói em você que decide romper, vai doer muito mais em quem vai ouvir que acabou.

Quando não existe responsabilidade para com essa decisão, você deixa de dizer a quem julgava ser importante para você uma série de coisas que facilitariam demais entender o porquê tudo ficou como ficou no final. E não havendo explicação, vendo a vida levar cada pessoa para um lado e você forçando o ficar quando o partir era a única opção que não era contramão esse tempo todo, você se machuca.

Quando você se machuca pelo descaso alheio pelo o que você sente ou pelo aparente desinteresse pelo o que você teria a dizer, ou pela crença de que você que sempre compreendeu tudo compreenderia mais isso, você começa a olhar para o ciclo que viveu com olhos críticos. E começa a perceber que você mais perdeu do que ganhou. Você mais doou do que recebeu. Você teve mais perguntas do que respostas. Poucas vezes a via foi de mão-dupla. Mas em nome de algo maior, talvez de uma esperança besta de que as coisas mudassem, você esperou e fez sua parte.

Você, do lado que segurou a corda e continuou aguentando a barra durante muito tempo, ainda que a corda queimasse a sua mão a cada dia que passasse e o peso a fizesse correr para baixo como se houvesse uma âncora nela amarrada. Você que esperou porque você quis esperar, não impute essa culpa a quem com desídia tratou o final do ciclo. A escolha de ficar era tão sua quanto a de partir. Essa parte da culpa pelo tempo do ciclo cumprido é sua. A César o que é de César.

Conceitos de justo ou injusto jamais serão únicos. Conceitos de tempo e espaço também não. Se para um a conta era “é menos um dia nessa situação”, “menos um dia longe”, para o outro poderia ser “mais um dia nessa”, “mais um dia sem que nada mudasse”. E ninguém tem bola de cristal para saber quem está em qual das situações. E quando você não verbaliza o que quer, você vive uma ilusão. Você acredita no que quer acreditar e não no que deveria acreditar.

Quando você tem coragem para encarar o que de fato está na sua frente, você percebe que decisões erradas podem ter doído e podem ainda doer, mas te ensinaram coisas que um mar calmo não ensinaria a um bom marinheiro. Você entende que sim, quando você se machuca, você sente que tudo quebra “aí dentro”, mas também percebe que é nesse momento que a luz entra e forma as minhas lindas imagens refletidas no lugar mais importante: a sua alma.

Todos os vitrais coloridos pela luz do sol que preenchem seu coração e sua alma são parte do que você é. O que você fez é o que você é. O que você diz é o que você é. O que você quer é o que você é. Você precisa ter coragem para perceber seus erros, aprender com eles e seguir em frente. Ninguém gosta de perder, mas algumas pessoas parecem fazer questão de não gostarem de ganhar. Paciência, certamente alguém vai ganhar e ser feliz com o que você não teve coragem de assumir ou bem no fundo nunca quis de verdade e só não sabia ou tinha coragem de verbalizar.

“Os sonhos vêm e os sonhos vão. E o resto é imperfeito”. O que ontem era seu mundo, hoje pode não ser mais. O que ontem era perfeito, hoje tem mais defeitos do que você pode suportar. Os sonhos mudam quando obrigados a enfrentar a realidade. E a realidade por mais dura que seja sempre ensina alguma coisa: que pontos finais são necessários ainda que as reticências do futuro façam sentido no presente.

Quando um ciclo termina em cacos, a beleza da vida acontece na alma. E quando você para de olhar para o chão e tira a cabeça que você enterrou nos ombros e olha para frente, você vê que os caquinhos estão ali sim, mas que é tudo tão remediável quanto impermanente. E que a impermanência da vida faz o que há de melhor: você querer recomeçar.

Despedidas são difíceis. Mas ficar as vezes é mais difícil ainda. E ainda que algumas despedidas não aconteçam de fato, de ciclos ou de pessoas, faça uma prece, agradeça pelo o que passou, agradeça as lições e o que houve de bom, agradeça o que houve de ruim e hoje te faz não querer aceitar nada do que te fez mal de novo. E mande embora tudo o que dói.

Respeite o tempo do recomeço, mas não ouse não recomeçar. Porque eu sei, eu tenho certeza, que o que você merece aparece da forma mais repentina possível. E te fará tão feliz que o abraço juntará o que está quebrado e você finalmente entenderá o porquê de cada ciclo vivido.

Honestidade nunca perdeu no jogo da vida. Mas a covardia… essa perdeu e sempre perderá.  A impermanência é uma dádiva. Abrace e ame a oportunidade de se fazer novo. Nem que seja de novo. E quantas vezes forem necessárias.

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Precipício

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Diante do precipício, a única forma de se avançar é dando um passo para trás. Às vezes, a gente precisa saber parar. E eu parei.

Ninguém gosta de se ver forçadamente trancado para fora da vida de alguém, quanto mais da própria vida. Ninguém gosta de ter que brigar o tempo todo colocando o pé entre a porta e a fechadura para que a porta não feche na nossa cara e a gente não fique sem saber quando ela abrirá de novo ou se ela abrirá.

Tem alguma hora que você cansa de ser sempre o pé nessa porta. Você cansa de viver olhando para o chão, vendo seu pé esmigalhar enquanto alguém, por seus motivos mais variados possíveis, quer fechar a porta. Ou precisa fechar a porta, que seja.

Não é nem que a gente deixe fechar, as vezes a gente não tem o que fazer a não ser aceitar a situação porque das duas, uma: ou vira um caos de vez ou você se resigna e vê a porta bater e acaba passando um bom tempo olhando essa vida do lado de fora. Como num filme, em que chove e faz sol e a pessoa fica ali, parada, inerte. Como se não houvesse mais vida. Mas há. E depois que você se dá conta que o que você pode fazer é viver, você não se sente culpada por virar as costas e andar na direção oposta daquela que um dia você pensou que era a certa para você.

Então você vai embora. Você se dá uma nova chance. Você chora, você sofre. Você cai. Mas no meio do caminho você descobre que enquanto você passou um tempo sem olhar para o lado, outras pessoas percebiam a sua existência e o seu humor meio infantil e mesmo que não dessem risada propriamente da piada que você fez, achavam uma graça o seu modo de se importar em fazer alguém rir – mesmo quando você estava em cacos por dentro porque quem precisa saber disso, não é mesmo?

Diante do precipício, a única forma de se avançar é dando um passo para trás. Às vezes, a gente precisa saber parar. E eu parei.

Eu parei de tentar imaginar todos os cenários possíveis e imagináveis de situações que eu não conheço ou que me contaram só um lado. Eu parei de tentar viver esperando algo que pode não vir porque com isso eu excluía tudo de bom que a vida tinha para me oferecer. Eu reconheci que aquela situação que eu não queria chamar de atraso de vida era um entrave sim. Eu aprendi que é melhor arrancar o curativo de uma vez só e doer de uma vez só do que ficar cultivando o curativo e tentando arrancar a colinha aos poucos… a vida dói, entende isso e segue em frente.

Ninguém merece nada pela metade. Ninguém, em hipótese alguma, deveria ter que se contentar com coisas que doem só porque tem alguém que “precisa ser poupado”. Se perguntou quantas vezes enquanto poupou pessoas engolindo as tuas vontades essas mesmas pessoas te pouparam e fizeram algo por você? Quantas vezes quando você precisou delas elas estavam lá por e para você? E quantas vezes quando essas pessoas precisaram de você, você esteve lá para elas?

É muito fácil achar que as pessoas estarão nos esperando enquanto resolvemos nossos dilemas. O difícil é jogar a responsabilidade desse tipo de decisão nos ombros de alguém e esperar que esse seja um ser humano abnegado pelos próximos… 70 anos? A vida não é um filme não, onde as pessoas vão cada um para um canto e mal precisam lidar com as consequências dos atos ou que na próxima cena, como num passe de mágica, tudo se resolve e todos vivem felizes para sempre. Se você não tem responsabilidade, você machuca sim todo mundo que está a sua volta e inclusive se machuca. E as vezes se machuca tanto que dificilmente prossegue no intento de mudar o que te incomoda. Porque se fosse fácil mudar, qualquer um mudaria. E não é assim.

Se você chegou a algum precipício na sua vida e parou antes do suicídio de uma atitude impulsiva ou impensada, parabéns. Se você foi forte o suficiente para perceber que era o caminho errado e que, ainda que por ora, você precisa desviar a rota e seguir um rumo diferente do que você tinha planejado, parabéns. E aproveita a jornada. Às vezes esses aplicativos de mapas quando erram o caminho, na verdade acertam. E pode ser que amanhã ou depois eles te façam voltar para esse mesmo caminho que um dia pareceu errado. Mas… Keep walking. É o único jeito de descobrir o que será.

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