Precipício

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Diante do precipício, a única forma de se avançar é dando um passo para trás. Às vezes, a gente precisa saber parar. E eu parei.

Ninguém gosta de se ver forçadamente trancado para fora da vida de alguém, quanto mais da própria vida. Ninguém gosta de ter que brigar o tempo todo colocando o pé entre a porta e a fechadura para que a porta não feche na nossa cara e a gente não fique sem saber quando ela abrirá de novo ou se ela abrirá.

Tem alguma hora que você cansa de ser sempre o pé nessa porta. Você cansa de viver olhando para o chão, vendo seu pé esmigalhar enquanto alguém, por seus motivos mais variados possíveis, quer fechar a porta. Ou precisa fechar a porta, que seja.

Não é nem que a gente deixe fechar, as vezes a gente não tem o que fazer a não ser aceitar a situação porque das duas, uma: ou vira um caos de vez ou você se resigna e vê a porta bater e acaba passando um bom tempo olhando essa vida do lado de fora. Como num filme, em que chove e faz sol e a pessoa fica ali, parada, inerte. Como se não houvesse mais vida. Mas há. E depois que você se dá conta que o que você pode fazer é viver, você não se sente culpada por virar as costas e andar na direção oposta daquela que um dia você pensou que era a certa para você.

Então você vai embora. Você se dá uma nova chance. Você chora, você sofre. Você cai. Mas no meio do caminho você descobre que enquanto você passou um tempo sem olhar para o lado, outras pessoas percebiam a sua existência e o seu humor meio infantil e mesmo que não dessem risada propriamente da piada que você fez, achavam uma graça o seu modo de se importar em fazer alguém rir – mesmo quando você estava em cacos por dentro porque quem precisa saber disso, não é mesmo?

Diante do precipício, a única forma de se avançar é dando um passo para trás. Às vezes, a gente precisa saber parar. E eu parei.

Eu parei de tentar imaginar todos os cenários possíveis e imagináveis de situações que eu não conheço ou que me contaram só um lado. Eu parei de tentar viver esperando algo que pode não vir porque com isso eu excluía tudo de bom que a vida tinha para me oferecer. Eu reconheci que aquela situação que eu não queria chamar de atraso de vida era um entrave sim. Eu aprendi que é melhor arrancar o curativo de uma vez só e doer de uma vez só do que ficar cultivando o curativo e tentando arrancar a colinha aos poucos… a vida dói, entende isso e segue em frente.

Ninguém merece nada pela metade. Ninguém, em hipótese alguma, deveria ter que se contentar com coisas que doem só porque tem alguém que “precisa ser poupado”. Se perguntou quantas vezes enquanto poupou pessoas engolindo as tuas vontades essas mesmas pessoas te pouparam e fizeram algo por você? Quantas vezes quando você precisou delas elas estavam lá por e para você? E quantas vezes quando essas pessoas precisaram de você, você esteve lá para elas?

É muito fácil achar que as pessoas estarão nos esperando enquanto resolvemos nossos dilemas. O difícil é jogar a responsabilidade desse tipo de decisão nos ombros de alguém e esperar que esse seja um ser humano abnegado pelos próximos… 70 anos? A vida não é um filme não, onde as pessoas vão cada um para um canto e mal precisam lidar com as consequências dos atos ou que na próxima cena, como num passe de mágica, tudo se resolve e todos vivem felizes para sempre. Se você não tem responsabilidade, você machuca sim todo mundo que está a sua volta e inclusive se machuca. E as vezes se machuca tanto que dificilmente prossegue no intento de mudar o que te incomoda. Porque se fosse fácil mudar, qualquer um mudaria. E não é assim.

Se você chegou a algum precipício na sua vida e parou antes do suicídio de uma atitude impulsiva ou impensada, parabéns. Se você foi forte o suficiente para perceber que era o caminho errado e que, ainda que por ora, você precisa desviar a rota e seguir um rumo diferente do que você tinha planejado, parabéns. E aproveita a jornada. Às vezes esses aplicativos de mapas quando erram o caminho, na verdade acertam. E pode ser que amanhã ou depois eles te façam voltar para esse mesmo caminho que um dia pareceu errado. Mas… Keep walking. É o único jeito de descobrir o que será.

travels

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2 Comentários

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2 Respostas para “Precipício

  1. Adorei o texto. A gente se identifica muito com essas fases da vida. 😉

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