Ciclos

1350402461653506

Despedidas nunca são fáceis. Seja a despedida de um parente querido que vai fazer intercâmbio na Europa por um tempo, seja a despedida de uma pessoa importante que se vai “daqui para uma melhor”, seja de um relacionamento, seja de um ciclo.

Rompimentos de ciclos e relacionamentos exigem maturidade porque esses na verdade nós temos mais controle que os demais e implicam em ter uma vida de outra pessoa diretamente relacionada a nossa decisão. Relacionamentos e ciclos exigem responsabilidade. Rompimentos, idem. Demandam saber que do outro lado alguém pode ser pego de supetão pela sua decisão e não estar no mesmo compasso que você. E se dói em você que decide romper, vai doer muito mais em quem vai ouvir que acabou.

Quando não existe responsabilidade para com essa decisão, você deixa de dizer a quem julgava ser importante para você uma série de coisas que facilitariam demais entender o porquê tudo ficou como ficou no final. E não havendo explicação, vendo a vida levar cada pessoa para um lado e você forçando o ficar quando o partir era a única opção que não era contramão esse tempo todo, você se machuca.

Quando você se machuca pelo descaso alheio pelo o que você sente ou pelo aparente desinteresse pelo o que você teria a dizer, ou pela crença de que você que sempre compreendeu tudo compreenderia mais isso, você começa a olhar para o ciclo que viveu com olhos críticos. E começa a perceber que você mais perdeu do que ganhou. Você mais doou do que recebeu. Você teve mais perguntas do que respostas. Poucas vezes a via foi de mão-dupla. Mas em nome de algo maior, talvez de uma esperança besta de que as coisas mudassem, você esperou e fez sua parte.

Você, do lado que segurou a corda e continuou aguentando a barra durante muito tempo, ainda que a corda queimasse a sua mão a cada dia que passasse e o peso a fizesse correr para baixo como se houvesse uma âncora nela amarrada. Você que esperou porque você quis esperar, não impute essa culpa a quem com desídia tratou o final do ciclo. A escolha de ficar era tão sua quanto a de partir. Essa parte da culpa pelo tempo do ciclo cumprido é sua. A César o que é de César.

Conceitos de justo ou injusto jamais serão únicos. Conceitos de tempo e espaço também não. Se para um a conta era “é menos um dia nessa situação”, “menos um dia longe”, para o outro poderia ser “mais um dia nessa”, “mais um dia sem que nada mudasse”. E ninguém tem bola de cristal para saber quem está em qual das situações. E quando você não verbaliza o que quer, você vive uma ilusão. Você acredita no que quer acreditar e não no que deveria acreditar.

Quando você tem coragem para encarar o que de fato está na sua frente, você percebe que decisões erradas podem ter doído e podem ainda doer, mas te ensinaram coisas que um mar calmo não ensinaria a um bom marinheiro. Você entende que sim, quando você se machuca, você sente que tudo quebra “aí dentro”, mas também percebe que é nesse momento que a luz entra e forma as minhas lindas imagens refletidas no lugar mais importante: a sua alma.

Todos os vitrais coloridos pela luz do sol que preenchem seu coração e sua alma são parte do que você é. O que você fez é o que você é. O que você diz é o que você é. O que você quer é o que você é. Você precisa ter coragem para perceber seus erros, aprender com eles e seguir em frente. Ninguém gosta de perder, mas algumas pessoas parecem fazer questão de não gostarem de ganhar. Paciência, certamente alguém vai ganhar e ser feliz com o que você não teve coragem de assumir ou bem no fundo nunca quis de verdade e só não sabia ou tinha coragem de verbalizar.

“Os sonhos vêm e os sonhos vão. E o resto é imperfeito”. O que ontem era seu mundo, hoje pode não ser mais. O que ontem era perfeito, hoje tem mais defeitos do que você pode suportar. Os sonhos mudam quando obrigados a enfrentar a realidade. E a realidade por mais dura que seja sempre ensina alguma coisa: que pontos finais são necessários ainda que as reticências do futuro façam sentido no presente.

Quando um ciclo termina em cacos, a beleza da vida acontece na alma. E quando você para de olhar para o chão e tira a cabeça que você enterrou nos ombros e olha para frente, você vê que os caquinhos estão ali sim, mas que é tudo tão remediável quanto impermanente. E que a impermanência da vida faz o que há de melhor: você querer recomeçar.

Despedidas são difíceis. Mas ficar as vezes é mais difícil ainda. E ainda que algumas despedidas não aconteçam de fato, de ciclos ou de pessoas, faça uma prece, agradeça pelo o que passou, agradeça as lições e o que houve de bom, agradeça o que houve de ruim e hoje te faz não querer aceitar nada do que te fez mal de novo. E mande embora tudo o que dói.

Respeite o tempo do recomeço, mas não ouse não recomeçar. Porque eu sei, eu tenho certeza, que o que você merece aparece da forma mais repentina possível. E te fará tão feliz que o abraço juntará o que está quebrado e você finalmente entenderá o porquê de cada ciclo vivido.

Honestidade nunca perdeu no jogo da vida. Mas a covardia… essa perdeu e sempre perderá.  A impermanência é uma dádiva. Abrace e ame a oportunidade de se fazer novo. Nem que seja de novo. E quantas vezes forem necessárias.

large

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Contos, Divagações, Pessoal, Saúde e bem-estar

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s