Arquivo do mês: agosto 2016

O que você quer?

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Convenhamos: você gosta de sofrer.

O masoquismo sentimental, aquele que toda pessoa pratica, admitindo para si ou não, é a maior muleta universal para justificar escolhas e sentimentos.

É, eu sei, ninguém gosta realmente de sofrer, mas quando encontramos um motivo para isso parece que nos agarramos a ele e seguramos até não poder mais. Passamos dias, meses, anos amargurando uma mesma situação, e a situação se torna nossa velha conhecida e por isso, amiga íntima, fica por aí e se apossa até do controle da sua tv e tem acesso direto ao seu refrigerador.

Então você se afoga em situações tóxicas semelhantes a esta que justifica o seu comer demais por estar ansioso, o seu não querer sair da cama e ver gente. É, as escolhas que fazemos, consciente ou inconscientemente nos levam exatamente ao lugar que estamos em nossa vida. E as escolhas inconscientes são os padrões que repetimos incessantemente, cultivando, assim, o masoquismo sentimental.

Seu coração foi feito para bater, não para apanhar. Admitir certas verdades a nós mesmos na frente do espelho nem sempre é muito fácil, na maioria das vezes não é nada simples, mas é necessário se queremos sair de onde estamos e seguir um rumo diferente na vida. Ah, mas é fácil falar né, se fosse tão fácil fazer ninguém mais sofreria… e é fácil fazer sim, nós que complicamos demais as coisas.

Honestamente, suas muletas sentimentais são tão importantes assim?  Se são, você infelizmente se acostumou ao sofrimento de suas escolhas e vai continuar tendo a vida miserável que tanto reclama. Se não são, já diria Renato Russo que:

 Disciplina é liberdade.

Compaixão é fortaleza.

         Ter bondade é ter coragem.

 É tudo questão de hábito. Parece que nascemos programados a aceitar a tragédia e o desespero como algo merecido. Como algo natural. Parece que é mais fácil assimilar algo de ruim, processar a informação de que alguém não quer mais estar contigo porque a culpa é sua e não porque foi a pessoa que mudou ou que o seu emprego não te satisfaz, mas como você é bom no que faz você se sujeita a não pensar em como mudar isso sob pena de ser mal-agradecido ao universo de possibilidades.

É um tanto quanto frustrante perceber que nos permitimos errar da mesma forma, sempre, por falta de coragem. Ou por não sabermos exatamente o que queremos. Acho que nunca saberemos realmente o que queremos, mas quando descobrimos algo que seja uma luz, se não seguirmos achando que é sempre o farol do trem e não a saída, morreremos em vida toda vez.

Disciplina. Ao que tudo indica, vivemos sob a égide de um regime militar mental onde os infortúnios da vida são recebidos com certa serenidade e com certo conformismo já que é mais fácil percebermos em nós os nossos erros e que cada erro mata os 200 acertos que temos. Essa disciplina militar para o que é ruim pode muito bem dar a volta na esquina e nos permitir pensarmos que somos merecedores de algo melhor do que temos e que danos colaterais sempre ocorrerão, mas não podemos esperar que a vida nos premie com louros da glória se não fazemos por onde.

A disciplina se transforma em liberdade quando percebemos que o mesmo empenho que temos para sofrer – sim, o sofrimento é uma erva daninha que cultivamos como se fosse uma orquídea azul rara – pode e deve ser usado para ajudarmos a nós mesmos a sairmos da roda viva do masoquismo sentimental. É tudo questão de hábito e, de certa forma, de física quântica: atraímos o que transmitimos. A famosa Lei de Murphy funciona para os dois lados, se a fila do lado anda mais rápido que a sua saiba que você provavelmente já deixou passar alguma coisa muito boa porque a ruim sempre chama mais atenção.

Se a disciplina nos dá liberdade, a compaixão nos transforma em fortalezas. Porque os olhos de bondade que temos com os outros nunca se voltam a nós mesmos? Porque somos nossos piores carrascos quando para com os outros somos a compaixão em forma de gente? Quando nós nos perdoamos, no nosso íntimo, por coisas que só nós sabemos; quando nós nos aceitamos como somos desde que a mudança não seja realmente algo imperioso e não aconteça porque você não acha necessário, ainda que outros te julguem por você ser assim ou assado, a compaixão nos torna humanos, porém fortes. Eu aceito os erros. Eu aceito as más escolhas. Eu não aceito errar de novo. Eu não aceito as consequências eternas de uma escolha malfeita.

Se a compaixão nos transforma em fortalezas, a bondade nos torna corajosos. A hostilidade muitas vezes é puro medo. Medo de se mostrar vulnerável, medo de pedir colo. O “eu não preciso de ninguém” é na verdade um grito de socorro e sim, eu garanto, alguém vai saber chegar até você. Alguém vai conseguir, com um jeito que só essa pessoa vai ter, domar o seu “gênio ruim” ou o seu medo de deixar alguém se aproximar. A coragem que a bondade nos dá nos permite o carinho da alma. Nos permite sermos o melhor de nós, para nós mesmos, independentemente do que aconteça. E talvez com alguém do lado. Esse alguém pode ser um amigo/anjo da guarda, pode ser sua mãe, seu pai, seu amor. Não importa. O que importa é que aprendamos a ter compaixão e bondade para conosco da mesma forma que somos compreensivos com os outros.

Convenhamos. Nós não gostamos de sofrer. Nós nos acostumamos a isso. Mas ninguém disse que isso precisa ser assim sempre. Ninguém disse que temos que viver de forma a parecer que estamos lutando para termos espaço na agenda do dia de alguém e sempre acabamos entendendo as ausências. Sempre acabamos entendendo que algo importante passou na frente e sofrendo calados porque “se nós falarmos algo a outra pessoa vai se aborrecer”.

Faz isso aí mesmo. Abafa esse sofrimento aí e morre engasgado nas palavras que não disse e faz da sua vida aquele beco sem saída porque depois de acostumar a outra pessoa com essa sua falsa noção de compreensão, você não vai conseguir voltar sem fazer um estrago maior ainda. É como se no salto ornamental você pudesse, ao não se acostumar com o que te faz mal, mergulhar dentro de um copinho de café e acabar dando uma barrigada na água porque demorou demais a acordar e a ter disciplina, compaixão e bondade.

Convenhamos, seus sofrimentos escondem quem você é. Mas você sabe andar sem essas muletas. Basta querer. E não, não é fácil. Mas é necessário, a não ser que continuar do jeito que está seja muito melhor do que viver a vida de um jeito não Charlie Browniano de ser.

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