Arquivo do autor:Michelle

Freud pergunta. Você explica.

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Muitas vezes as pessoas vivem desordens externas por conta das desordens internas que não têm coragem de enfrentar. É difícil olhar pra si mesmo e imaginar espelhos que refletem, lá dentro, tudo aquilo que não queríamos notar em nós, seja por medo, seja por preguiça de mudar o que não tá legal “porque é muito difícil”. Acredito que a nossa covardia nos faz perder muito mais do que ganhar, até mesmo porque muitas vezes para ganharmos algo temos que perder outros “algos” e por aí vai. A vida bagunça do lado de fora porque nossos atos desordenados do lado de dentro transcendem, querendo ou não, nos nossos dias. Nossas escolhas viram piloto automático, repetimos o que já sabemos pq nos é mais confortável, ou menos incômodo, não ter que ir contra nada e nem ninguém. Damos muita importância ao que os outros pensam quando ninguém vive a nossa vida por nós ou suporta os ônus das nossas escolhas, ou participa dos bônus. O fato de não querer se incomodar em travar algum tipo de batalha pra ter o que tá do outro lado do muro é o conforto da desordem. A desordem é confortável, afinal na maior parte do tempo é como passamos a maior parte da vida: reclamando dela. Sem ela, o que teríamos que fazer senão viver?! Além de viver, o que faríamos se tivéssemos que bater no peito e chamar a responsabilidade dos nossos “eu quero” “eu não quero”? Assumir o que queremos e limpar a bagunça ou reclamar todos os dias de chegar em casa e ver papéis espalhados pelo chão quando fomos nós mesmos que esquecemos a janela aberta ou não tomamos o cuidado de colocar um peso em cima. A vida é bem complicada quando as coisas não dependem só de nós. Mas piora sensivelmente quando nem o que depende só de nós nós conseguimos fazer. Ou sejamos honestos: o não conseguir fazer pode muito bem um não quer fazer. E aí todas as desculpas do mundo são convidativas à permanência do que já se conhece. Você sempre vai ter um motivo para continuar no mesmo lugar. A não ser que você queira ter pernas ao invés de raízes profundas… e aí sim, viver.

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Sem amanhã

E se você acordasse hoje sabendo que seria seu último dia na Terra? Se você acordasse hoje sabendo que seria seu último dia, teria vivido tudo o que pode viver, da melhor maneira possível? Pensaria mais em arrependimentos ou em orgulhos? Poderia cantar My Way, do Frank Sinatra, a plenos pulmões ou escolheria uma daquelas músicas que falam de dor de uma vida sempre deixada para depois e pensaria que “se eu tivesse só mais um dia.”.

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Nós vivemos no conforto do amanhã. Nós vivemos no conforto do “amanhã será melhor que o ontem” e mesmo que não seja, vamos de amanhã em amanhã, muitas vezes ignorando o que realmente fazemos no hoje, numa tentativa tresloucada de tentar entender como a vida que de tão preciosa passa a coadjuvante do medo. Vivemos a antítese do “amanhã melhor” e do hoje incompleto. Esperando situações ideais, esperando primeiros passos, esperando, esperando, esperando… e se a espera for interrompida abruptamente? E se o legado deixado for apenas a saudade de tudo que você ainda não viu?

Quando ficamos diante de uma grande perda, de desconhecidos que pareciam da nossa família, de amigos distantes mas presentes no dia a dia, mergulhamos dentro de nós em emoções turvas, em desencontros, em descompassos, em esperanças de que as situações se consertem e que você veja sua vida dando certo. Afortunados somos todos os dias por acordarmos sem exatamente sabermos quando teremos o nosso último amanhã. Afortunados somos por podermos mudar o que precisa ser mudado, enquanto há tempo. Tudo o que temos é o hoje. E nunca foi tão latente o clichê “o amanhã pode nem chegar”. E se ele não chegar, você teria dito que ama quem você ama? Você estaria ao lado de quem você realmente queria estar? Você teria perdoado quem precisa perdoar? Teria perdoado a você mesmo? Você teria feito POR VOCÊ algo que te deixaria orgulhoso se você soubesse que daqui 10 anos estaria aqui ainda?

De tanto medo da vida, deixamos de viver. De tanto medo da vida, deixamos que o amanhã carregue no ventre a felicidade que já deveria ter nascido hoje. Dá a impressão de que no dia 31 de dezembro, quando der 00h e percebemos que estamos vivos, só conseguiremos dizer OBRIGADO. Tem sido um ano extremamente difícil. Perdas enormes, catástrofes mundiais, dificuldades financeiras. Se sabe o valor da sua vida, agradece! Agradeça o fato de estar vivo. Agradeça poder dizer EU TE AMO, e diga, sempre, sempre que possível. Reconheça quem está sempre do teu lado. Não dependa só de uma tragédia para lembrar de ligar para os seus familiares e amigos. Não espere irem embora, para sempre ou para longe, para perceber que devia ter perdoado quem precisava de perdão ou ter deixado ir quem já não cabe mais no lugar em que ocupa. Ou se permitir ir quando o que você é não condiz com o que você quer ser, quando o que você tem não condiz com o que você quer ter.

Todos nós, independente da fé que professemos, se professarmos alguma, somos finitos. Honremos a nossa vida. Coragem, a gente precisa viver! Não existe hora certa para amar. Não existe hora certa para perdoar. Não existe hora certa para deixar saber que alguém é importante. Vamos de uma vez por todas enfiar na nossa cabeça que a vida é urgente e que o depois pode ser tarde demais. Não deixemos a vida para depois! Estejam com quem amam. Façam felizes essas pessoas. Respeitem a vida, ela é sagrada. E vivam, por favor, vivam. Não percam tempo com medo.

A vida é sobre ter memória curta e coração gigante. Amar o instante e respirar bem fundo para o amor também invadir o seu ser. É dar mais um passo mesmo sem saber o que te aguarda e é confiar que quando alguém te diz que vai conseguir, a pessoa vai, e você fica do lado para ver acontecer, para aplaudir ou para enxugar as lágrimas que rolarem pelo rosto. Mesmo que nada faça muito sentido, o importante é ir, com medo mesmo, atrás do que te completa. Atrás do que te faz feliz.

Certa vez, já faz algum tempo, cruzei com um texto que dizia o seguinte em uma das suas partes:

“(…) olhe pelo para-brisas e não pelo espelho retrovisor. Mire o alvo, foque. Não se deixe ser levado em sua própria vida, faça você o seu caminho, encare. Ninguém nunca morreu de amor, nem de decepção, mas o que sempre se percebe é que há entusiasmo em quem fala “foi bom”, “errei mas aprendi”, “valeu a experiência”, “pelo menos vivi algo novo”, “apesar de não ter dado certo eu posso dizer que tentei”, mas quando se houve o outro lado é sempre um ar de desânimo, descontentamento com os “porque eu não fui? ”, “será que teria dado certo? ”, “por que demorei tanto? ”, “e se…? ”, sempre essa dúvida cruel. Você tem a opção de escolher tentar ou escolher lamentar. Você não tem dúvida, você tem medo, mas com o medo é que surge a oportunidade de colocar em ação a coragem. Talvez não para eliminar o medo, mas para ir com medo mesmo!

Não fique no cruzamento dessa estrada que é a vida, muito menos pare no acostamento. No máximo uma rápida parada em um posto de gasolina para reabastecer, pegar fôlego, respirar fundo, e voltar para a estrada com disposição, com ânimo e CORAGEM! ”

Se você acordasse hoje sabendo que não teria amanhã, você estaria na direção da sua vida ou ainda sentado no sofá desejando sentir o vento no seu rosto enquanto dirige na estrada que te leva a conquistar o que você mais quer? Não desista de você mesmo. Eu te garanto, vai valer a pena.

Você merece mais. Se permita mais. Se permita viver a vida que você sabe que merece ou que você descobriu no meio do caminho que merece. E se permita estar com alguém que reconheça em você boa parte do “se eu não tivesse amanhã, hoje eu estaria completo”.

Amanhã eu vou revelar
Depois eu penso em aprender
Daqui a uns dias eu vou dizer
O que me faz querer gritar

No mês que vem tudo vai melhorar
Só mais alguns anos e o mundo vai mudar
Ainda temos tempo até tudo explodir
Quem sabe quanto vai durar

Não deixe nada pra depois, não deixe o tempo passar
Não deixe nada pra semana que vem
Porque semana que vem pode nem chegar
Pra depois, o tempo passar
Não deixe nada pra semana que vem
Porque semana que vem pode nem chegar

A partir de amanhã eu vou discutir
Da próxima vez eu vou questionar
Na segunda eu começo a agir
Só mais duas horas pra eu decidir

Esse pode ser o último dia de nossas vidas
última chance de fazer tudo ter valido a pena
Diga sempre tudo que precisa dizer
Arrisque mais, pra não se arrepender
Nós não temos todo o tempo do mundo
E esse mundo já faz muito tempo
O futuro é o presente e o presente já passou
O futuro é o presente e o presente já passou

Nada pra depois, não deixe o tempo passar,
Não deixe nada pra semana que vem,
Porque semana que vem pode nem chegar
Pra depois o tempo passar,
Não deixe nada pra semana que vem,
Porque semana que vem pode nem chegar!

 

 

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Cheguei

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Desculpe, eu me atrasei.

Eu me atrasei na minha própria vida, perdida entre histórias sem pé nem cabeça. Perdida entre ruas sem saída e becos que não levavam a lugar nenhum dentro de mim mesma.

Desculpe, eu me atrasei.

Eu me atrasei olhando para dentro de mim mesma e não enxergando nada além de breu. Não vendo nada além de bifurcações que eu não sabia como desvendar.

Desculpe, eu me atrasei.

Eu me atrasei não olhando para os lados. Tendo medo da vida. Ficando presa em um mar de mentiras que contei para mim mesma durante tanto tempo sobre mim mesma que acreditei em todas elas.

Desculpe, eu me atrasei.

Eu me atrasei pensando ser o sinônimo de fracasso. Eu me atrasei deixando que os outros segurassem a caneta e escrevessem o roteiro da minha própria vida. De como meu corpo deveria ser; de como eu deveria agir; com quem eu deveria estar; para onde eu deveria ir.

Desculpe, eu me atrasei.

Eu me atrasei deixando a vida passar por mim. Fazendo as vontades gerais da nação. Deixando os outros felizes em troca de amargar um pouco de infelicidade por não ser a expressão real da minha vontade. Desculpe, eu me atrasei imersa em mim mesma sem saber como sair.

Desculpe, eu me atrasei.

Eu abri os olhos mas demorei a enxergar. Eu abri os braços mas demorei a abraçar. Eu abri o coração mas demorei a amar. Desculpe, eu me atrasei, mas eu cheguei.

Eu cheguei no fim da rua sem saída e percebi que conseguia escalar o muro das minhas inseguranças. Eu subi no muro e vi que do outro lado havia muito mais do que eu achava que era a vida.

Eu cheguei.

Eu cheguei onde as pessoas já não mais seguram a caneta que pinta as cores do meu destino. Eu cheguei onde as minhas vontades são as minhas razões suficientes para escolher o que escolho, estar onde estou, fazer o que eu faço, querer o que eu quero e querer quem eu quero.

Eu cheguei.

Eu cheguei no espelho que tanto fugi a vida toda por ter pavor do que nele refletia e percebi que hoje reflete a minha imagem e finalmente eu me reconheço. Eu reconheço a pessoa que um dia já deixou de gritar por medo e que hoje tem medo de deixar de gritar. Eu reconheço a pessoa que um dia se afogou nas palavras que não disse e que hoje só deixa o ar faltar quando ri demais.

Eu cheguei.

Eu cheguei no meio do caminho. Com os pés cansados. Os mesmos pés cansados que já andavam sem rumo, desnorteados, e acabaram tropeçando em um trevo de 4 folhas que era a felicidade vinda de um encontro fortuito da vida.

Desculpe, eu me atrasei para chegar na minha própria vida. Mas eu cheguei.

Desculpe, eu me atrasei para chegar na sua vida. Mas eu cheguei. E eu prometo que eu não vou deixar que nenhum outro atraso das palavras não ditas nos incomode de novo.

Me desculpe ter demorado tanto. Mas eu estou aqui. E talvez seja o momento certo, talvez não existam atrasos reais. Conceitos de tempo e espaço são muito relativos. A urgência é por ser feliz.

Me desculpe ter demorado tanto. Mas eu estou aqui. E estou esperando você na outra metade do caminho.

 

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O que você quer?

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Convenhamos: você gosta de sofrer.

O masoquismo sentimental, aquele que toda pessoa pratica, admitindo para si ou não, é a maior muleta universal para justificar escolhas e sentimentos.

É, eu sei, ninguém gosta realmente de sofrer, mas quando encontramos um motivo para isso parece que nos agarramos a ele e seguramos até não poder mais. Passamos dias, meses, anos amargurando uma mesma situação, e a situação se torna nossa velha conhecida e por isso, amiga íntima, fica por aí e se apossa até do controle da sua tv e tem acesso direto ao seu refrigerador.

Então você se afoga em situações tóxicas semelhantes a esta que justifica o seu comer demais por estar ansioso, o seu não querer sair da cama e ver gente. É, as escolhas que fazemos, consciente ou inconscientemente nos levam exatamente ao lugar que estamos em nossa vida. E as escolhas inconscientes são os padrões que repetimos incessantemente, cultivando, assim, o masoquismo sentimental.

Seu coração foi feito para bater, não para apanhar. Admitir certas verdades a nós mesmos na frente do espelho nem sempre é muito fácil, na maioria das vezes não é nada simples, mas é necessário se queremos sair de onde estamos e seguir um rumo diferente na vida. Ah, mas é fácil falar né, se fosse tão fácil fazer ninguém mais sofreria… e é fácil fazer sim, nós que complicamos demais as coisas.

Honestamente, suas muletas sentimentais são tão importantes assim?  Se são, você infelizmente se acostumou ao sofrimento de suas escolhas e vai continuar tendo a vida miserável que tanto reclama. Se não são, já diria Renato Russo que:

 Disciplina é liberdade.

Compaixão é fortaleza.

         Ter bondade é ter coragem.

 É tudo questão de hábito. Parece que nascemos programados a aceitar a tragédia e o desespero como algo merecido. Como algo natural. Parece que é mais fácil assimilar algo de ruim, processar a informação de que alguém não quer mais estar contigo porque a culpa é sua e não porque foi a pessoa que mudou ou que o seu emprego não te satisfaz, mas como você é bom no que faz você se sujeita a não pensar em como mudar isso sob pena de ser mal-agradecido ao universo de possibilidades.

É um tanto quanto frustrante perceber que nos permitimos errar da mesma forma, sempre, por falta de coragem. Ou por não sabermos exatamente o que queremos. Acho que nunca saberemos realmente o que queremos, mas quando descobrimos algo que seja uma luz, se não seguirmos achando que é sempre o farol do trem e não a saída, morreremos em vida toda vez.

Disciplina. Ao que tudo indica, vivemos sob a égide de um regime militar mental onde os infortúnios da vida são recebidos com certa serenidade e com certo conformismo já que é mais fácil percebermos em nós os nossos erros e que cada erro mata os 200 acertos que temos. Essa disciplina militar para o que é ruim pode muito bem dar a volta na esquina e nos permitir pensarmos que somos merecedores de algo melhor do que temos e que danos colaterais sempre ocorrerão, mas não podemos esperar que a vida nos premie com louros da glória se não fazemos por onde.

A disciplina se transforma em liberdade quando percebemos que o mesmo empenho que temos para sofrer – sim, o sofrimento é uma erva daninha que cultivamos como se fosse uma orquídea azul rara – pode e deve ser usado para ajudarmos a nós mesmos a sairmos da roda viva do masoquismo sentimental. É tudo questão de hábito e, de certa forma, de física quântica: atraímos o que transmitimos. A famosa Lei de Murphy funciona para os dois lados, se a fila do lado anda mais rápido que a sua saiba que você provavelmente já deixou passar alguma coisa muito boa porque a ruim sempre chama mais atenção.

Se a disciplina nos dá liberdade, a compaixão nos transforma em fortalezas. Porque os olhos de bondade que temos com os outros nunca se voltam a nós mesmos? Porque somos nossos piores carrascos quando para com os outros somos a compaixão em forma de gente? Quando nós nos perdoamos, no nosso íntimo, por coisas que só nós sabemos; quando nós nos aceitamos como somos desde que a mudança não seja realmente algo imperioso e não aconteça porque você não acha necessário, ainda que outros te julguem por você ser assim ou assado, a compaixão nos torna humanos, porém fortes. Eu aceito os erros. Eu aceito as más escolhas. Eu não aceito errar de novo. Eu não aceito as consequências eternas de uma escolha malfeita.

Se a compaixão nos transforma em fortalezas, a bondade nos torna corajosos. A hostilidade muitas vezes é puro medo. Medo de se mostrar vulnerável, medo de pedir colo. O “eu não preciso de ninguém” é na verdade um grito de socorro e sim, eu garanto, alguém vai saber chegar até você. Alguém vai conseguir, com um jeito que só essa pessoa vai ter, domar o seu “gênio ruim” ou o seu medo de deixar alguém se aproximar. A coragem que a bondade nos dá nos permite o carinho da alma. Nos permite sermos o melhor de nós, para nós mesmos, independentemente do que aconteça. E talvez com alguém do lado. Esse alguém pode ser um amigo/anjo da guarda, pode ser sua mãe, seu pai, seu amor. Não importa. O que importa é que aprendamos a ter compaixão e bondade para conosco da mesma forma que somos compreensivos com os outros.

Convenhamos. Nós não gostamos de sofrer. Nós nos acostumamos a isso. Mas ninguém disse que isso precisa ser assim sempre. Ninguém disse que temos que viver de forma a parecer que estamos lutando para termos espaço na agenda do dia de alguém e sempre acabamos entendendo as ausências. Sempre acabamos entendendo que algo importante passou na frente e sofrendo calados porque “se nós falarmos algo a outra pessoa vai se aborrecer”.

Faz isso aí mesmo. Abafa esse sofrimento aí e morre engasgado nas palavras que não disse e faz da sua vida aquele beco sem saída porque depois de acostumar a outra pessoa com essa sua falsa noção de compreensão, você não vai conseguir voltar sem fazer um estrago maior ainda. É como se no salto ornamental você pudesse, ao não se acostumar com o que te faz mal, mergulhar dentro de um copinho de café e acabar dando uma barrigada na água porque demorou demais a acordar e a ter disciplina, compaixão e bondade.

Convenhamos, seus sofrimentos escondem quem você é. Mas você sabe andar sem essas muletas. Basta querer. E não, não é fácil. Mas é necessário, a não ser que continuar do jeito que está seja muito melhor do que viver a vida de um jeito não Charlie Browniano de ser.

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Ciclos

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Despedidas nunca são fáceis. Seja a despedida de um parente querido que vai fazer intercâmbio na Europa por um tempo, seja a despedida de uma pessoa importante que se vai “daqui para uma melhor”, seja de um relacionamento, seja de um ciclo.

Rompimentos de ciclos e relacionamentos exigem maturidade porque esses na verdade nós temos mais controle que os demais e implicam em ter uma vida de outra pessoa diretamente relacionada a nossa decisão. Relacionamentos e ciclos exigem responsabilidade. Rompimentos, idem. Demandam saber que do outro lado alguém pode ser pego de supetão pela sua decisão e não estar no mesmo compasso que você. E se dói em você que decide romper, vai doer muito mais em quem vai ouvir que acabou.

Quando não existe responsabilidade para com essa decisão, você deixa de dizer a quem julgava ser importante para você uma série de coisas que facilitariam demais entender o porquê tudo ficou como ficou no final. E não havendo explicação, vendo a vida levar cada pessoa para um lado e você forçando o ficar quando o partir era a única opção que não era contramão esse tempo todo, você se machuca.

Quando você se machuca pelo descaso alheio pelo o que você sente ou pelo aparente desinteresse pelo o que você teria a dizer, ou pela crença de que você que sempre compreendeu tudo compreenderia mais isso, você começa a olhar para o ciclo que viveu com olhos críticos. E começa a perceber que você mais perdeu do que ganhou. Você mais doou do que recebeu. Você teve mais perguntas do que respostas. Poucas vezes a via foi de mão-dupla. Mas em nome de algo maior, talvez de uma esperança besta de que as coisas mudassem, você esperou e fez sua parte.

Você, do lado que segurou a corda e continuou aguentando a barra durante muito tempo, ainda que a corda queimasse a sua mão a cada dia que passasse e o peso a fizesse correr para baixo como se houvesse uma âncora nela amarrada. Você que esperou porque você quis esperar, não impute essa culpa a quem com desídia tratou o final do ciclo. A escolha de ficar era tão sua quanto a de partir. Essa parte da culpa pelo tempo do ciclo cumprido é sua. A César o que é de César.

Conceitos de justo ou injusto jamais serão únicos. Conceitos de tempo e espaço também não. Se para um a conta era “é menos um dia nessa situação”, “menos um dia longe”, para o outro poderia ser “mais um dia nessa”, “mais um dia sem que nada mudasse”. E ninguém tem bola de cristal para saber quem está em qual das situações. E quando você não verbaliza o que quer, você vive uma ilusão. Você acredita no que quer acreditar e não no que deveria acreditar.

Quando você tem coragem para encarar o que de fato está na sua frente, você percebe que decisões erradas podem ter doído e podem ainda doer, mas te ensinaram coisas que um mar calmo não ensinaria a um bom marinheiro. Você entende que sim, quando você se machuca, você sente que tudo quebra “aí dentro”, mas também percebe que é nesse momento que a luz entra e forma as minhas lindas imagens refletidas no lugar mais importante: a sua alma.

Todos os vitrais coloridos pela luz do sol que preenchem seu coração e sua alma são parte do que você é. O que você fez é o que você é. O que você diz é o que você é. O que você quer é o que você é. Você precisa ter coragem para perceber seus erros, aprender com eles e seguir em frente. Ninguém gosta de perder, mas algumas pessoas parecem fazer questão de não gostarem de ganhar. Paciência, certamente alguém vai ganhar e ser feliz com o que você não teve coragem de assumir ou bem no fundo nunca quis de verdade e só não sabia ou tinha coragem de verbalizar.

“Os sonhos vêm e os sonhos vão. E o resto é imperfeito”. O que ontem era seu mundo, hoje pode não ser mais. O que ontem era perfeito, hoje tem mais defeitos do que você pode suportar. Os sonhos mudam quando obrigados a enfrentar a realidade. E a realidade por mais dura que seja sempre ensina alguma coisa: que pontos finais são necessários ainda que as reticências do futuro façam sentido no presente.

Quando um ciclo termina em cacos, a beleza da vida acontece na alma. E quando você para de olhar para o chão e tira a cabeça que você enterrou nos ombros e olha para frente, você vê que os caquinhos estão ali sim, mas que é tudo tão remediável quanto impermanente. E que a impermanência da vida faz o que há de melhor: você querer recomeçar.

Despedidas são difíceis. Mas ficar as vezes é mais difícil ainda. E ainda que algumas despedidas não aconteçam de fato, de ciclos ou de pessoas, faça uma prece, agradeça pelo o que passou, agradeça as lições e o que houve de bom, agradeça o que houve de ruim e hoje te faz não querer aceitar nada do que te fez mal de novo. E mande embora tudo o que dói.

Respeite o tempo do recomeço, mas não ouse não recomeçar. Porque eu sei, eu tenho certeza, que o que você merece aparece da forma mais repentina possível. E te fará tão feliz que o abraço juntará o que está quebrado e você finalmente entenderá o porquê de cada ciclo vivido.

Honestidade nunca perdeu no jogo da vida. Mas a covardia… essa perdeu e sempre perderá.  A impermanência é uma dádiva. Abrace e ame a oportunidade de se fazer novo. Nem que seja de novo. E quantas vezes forem necessárias.

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Precipício

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Diante do precipício, a única forma de se avançar é dando um passo para trás. Às vezes, a gente precisa saber parar. E eu parei.

Ninguém gosta de se ver forçadamente trancado para fora da vida de alguém, quanto mais da própria vida. Ninguém gosta de ter que brigar o tempo todo colocando o pé entre a porta e a fechadura para que a porta não feche na nossa cara e a gente não fique sem saber quando ela abrirá de novo ou se ela abrirá.

Tem alguma hora que você cansa de ser sempre o pé nessa porta. Você cansa de viver olhando para o chão, vendo seu pé esmigalhar enquanto alguém, por seus motivos mais variados possíveis, quer fechar a porta. Ou precisa fechar a porta, que seja.

Não é nem que a gente deixe fechar, as vezes a gente não tem o que fazer a não ser aceitar a situação porque das duas, uma: ou vira um caos de vez ou você se resigna e vê a porta bater e acaba passando um bom tempo olhando essa vida do lado de fora. Como num filme, em que chove e faz sol e a pessoa fica ali, parada, inerte. Como se não houvesse mais vida. Mas há. E depois que você se dá conta que o que você pode fazer é viver, você não se sente culpada por virar as costas e andar na direção oposta daquela que um dia você pensou que era a certa para você.

Então você vai embora. Você se dá uma nova chance. Você chora, você sofre. Você cai. Mas no meio do caminho você descobre que enquanto você passou um tempo sem olhar para o lado, outras pessoas percebiam a sua existência e o seu humor meio infantil e mesmo que não dessem risada propriamente da piada que você fez, achavam uma graça o seu modo de se importar em fazer alguém rir – mesmo quando você estava em cacos por dentro porque quem precisa saber disso, não é mesmo?

Diante do precipício, a única forma de se avançar é dando um passo para trás. Às vezes, a gente precisa saber parar. E eu parei.

Eu parei de tentar imaginar todos os cenários possíveis e imagináveis de situações que eu não conheço ou que me contaram só um lado. Eu parei de tentar viver esperando algo que pode não vir porque com isso eu excluía tudo de bom que a vida tinha para me oferecer. Eu reconheci que aquela situação que eu não queria chamar de atraso de vida era um entrave sim. Eu aprendi que é melhor arrancar o curativo de uma vez só e doer de uma vez só do que ficar cultivando o curativo e tentando arrancar a colinha aos poucos… a vida dói, entende isso e segue em frente.

Ninguém merece nada pela metade. Ninguém, em hipótese alguma, deveria ter que se contentar com coisas que doem só porque tem alguém que “precisa ser poupado”. Se perguntou quantas vezes enquanto poupou pessoas engolindo as tuas vontades essas mesmas pessoas te pouparam e fizeram algo por você? Quantas vezes quando você precisou delas elas estavam lá por e para você? E quantas vezes quando essas pessoas precisaram de você, você esteve lá para elas?

É muito fácil achar que as pessoas estarão nos esperando enquanto resolvemos nossos dilemas. O difícil é jogar a responsabilidade desse tipo de decisão nos ombros de alguém e esperar que esse seja um ser humano abnegado pelos próximos… 70 anos? A vida não é um filme não, onde as pessoas vão cada um para um canto e mal precisam lidar com as consequências dos atos ou que na próxima cena, como num passe de mágica, tudo se resolve e todos vivem felizes para sempre. Se você não tem responsabilidade, você machuca sim todo mundo que está a sua volta e inclusive se machuca. E as vezes se machuca tanto que dificilmente prossegue no intento de mudar o que te incomoda. Porque se fosse fácil mudar, qualquer um mudaria. E não é assim.

Se você chegou a algum precipício na sua vida e parou antes do suicídio de uma atitude impulsiva ou impensada, parabéns. Se você foi forte o suficiente para perceber que era o caminho errado e que, ainda que por ora, você precisa desviar a rota e seguir um rumo diferente do que você tinha planejado, parabéns. E aproveita a jornada. Às vezes esses aplicativos de mapas quando erram o caminho, na verdade acertam. E pode ser que amanhã ou depois eles te façam voltar para esse mesmo caminho que um dia pareceu errado. Mas… Keep walking. É o único jeito de descobrir o que será.

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Você vive. Você aprende

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Apanhamos. Da vida, das situações, de nós mesmos. Apanhamos das nossas escolhas, do nosso livre arbítrio. Apanhamos e escolhemos não sucumbir à dor dos duros golpes porque julgamos que as surras valem a pena por aquilo que se pretende ter e conseguir.

Obstinados demais ou idiotas demais, não desistimos quando o mundo todo nos diz que devemos desistir e seguir em frente. Desistir de algo que lutamos tanto e passamos tanto tempo segurando firme a corda que queimou nossas mãos e machucou tanto que sequer dói mais; acostumamos com a dor das situações que nos colocamos e ali vivemos, fazemos morada no comodismo e na dormência.

Percebemos que vale a pena lutar, seja pelo o que for, quando pensar na possibilidade de uma vida sem aquilo que queremos equivale e tirar qualquer sentido do que conhecemos. Equivale a perder o chão, viver com balão de oxigênio porque respirar sozinho já não parece mais opção. E é por isso que aceitamos as surras da vida; me valendo da licença poética, nós aceitamos as surras que pensamos merecer por aquilo que pretendemos ter.

Verdade nua e crua, nem sempre apanhar da vida e do nosso livre arbítrio vale a pena. Por vezes queremos acreditar que a solução vai aparecer na próxima curva e você se obriga a continuar andando até lá para descobrir que nada aconteceu de novo. E você insiste naquilo que te faz chorar com a esperança de que um dia seja o que te faça sorrir. Não vale a pena mas que mal tem nisso? Nenhum, se você está disposto a pagar o preço do calvário da espera. Se você está disposto a se transformar de galho seco em bambu.

Somos galhos secos que se moldam pela vida e através da vida naquilo que quisermos, inclusive em bambu. O bambu enfrenta tempestades e não se curva diante das intempéries, segue imponente na sua função, criando raízes profundas que se estendem pela terra tornando difícil a vida daquele que quer arrancá-lo sem cortá-lo ao meio. Talvez seja a sina da vida do ser humano que sofre por opção; acabar virando bambu se prestar atenção naquilo a que está se prestando.

Todos temos nossos dias de galho seco. Todos nós alguma hora, em alguma situação, por mais que desejemos tal coisa mais do que tudo do mundo, podemos quebrar. Por mais firme que seja o pensamento e fixa seja a ideia de obstinação, existe aquele dia que nos sentimos idiotas por querer demais algo que parece longe demais. Como num exemplo um tanto esdrúxulo, uma grávida espera que sua bolsa se rompa para que possa ter seu filho por parto natural e a bolsa não se rompe. Ou ela espera, correndo todos os riscos da espera que mesmo calculada pode trazer surpresas – agradáveis ou não, ou ela opta pela intervenção cirúrgica, antecipando seus planos mesmo contra a sua vontade.

Temos que parar por vezes de prestar atenção no que queremos e começar a prestar atenção naquilo que merecemos. Quando as duas coisas não se coadunam, por mais fé em Deus e na vida que você tenha, você precisa mudar. Você não muda ninguém, o único poder que você tem é de mudar a si mesmo e as suas atitudes. Rever seus conceitos, suas prioridades. O que dói e merece continuar na sua vida da mesma forma como que faz rir pode ser descartável por nada agregar. São múltiplas possibilidades que você consegue vislumbrar e colocar em ordem com um simples passo para trás.

Um passo para trás é sobrevivência. É sanidade. É emocional no lugar dele, racional no lugar dele e o início do desembolar do novelo de lã que se formou na sua vida de cosplay de Rocky Balboa. Porque não importa o quanto a vida te bata e nem o quão forte seja o soco na boca do seu estômago; o que importa é se você tem a força para seguir em frente. Saber seguir em frente mesmo depois de tudo é sinal de maturidade, assim como saber a hora de dar esse passo para trás e ver se o caminho é esse mesmo.

Ninguém consegue viver no masoquismo sentimental das lutas inglórias por muito tempo sem desabar ao menos um pouco vez ou outra. Como diz a música “Dom Quixote” dos Engenheiros do Hawaii:

“Por amor às causas perdidas

Tudo bem, até pode ser

Que os dragões sejam moinhos de vento

Muito prazer, ao seu dispor

Se for por amor às causas perdidas

Por amor às causas perdidas”

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A virtude do obstinado é o defeito do idiota e ambos podem estar na mesma pessoa: não acham que existam causas perdidas. Mas mesmo estes cansam. E tudo o que querem, no final do dia, é parar de apanhar um pouco para que os olhos inchados consigam se abrir e ver que o sol nasce e dorme todos os dias, e nossas chances de fazer melhor seguem o mesmo caminho.

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