Arquivo da categoria: Romance

Cheguei

tumblr_nk6vivBCLO1r6hgiko1_500

Desculpe, eu me atrasei.

Eu me atrasei na minha própria vida, perdida entre histórias sem pé nem cabeça. Perdida entre ruas sem saída e becos que não levavam a lugar nenhum dentro de mim mesma.

Desculpe, eu me atrasei.

Eu me atrasei olhando para dentro de mim mesma e não enxergando nada além de breu. Não vendo nada além de bifurcações que eu não sabia como desvendar.

Desculpe, eu me atrasei.

Eu me atrasei não olhando para os lados. Tendo medo da vida. Ficando presa em um mar de mentiras que contei para mim mesma durante tanto tempo sobre mim mesma que acreditei em todas elas.

Desculpe, eu me atrasei.

Eu me atrasei pensando ser o sinônimo de fracasso. Eu me atrasei deixando que os outros segurassem a caneta e escrevessem o roteiro da minha própria vida. De como meu corpo deveria ser; de como eu deveria agir; com quem eu deveria estar; para onde eu deveria ir.

Desculpe, eu me atrasei.

Eu me atrasei deixando a vida passar por mim. Fazendo as vontades gerais da nação. Deixando os outros felizes em troca de amargar um pouco de infelicidade por não ser a expressão real da minha vontade. Desculpe, eu me atrasei imersa em mim mesma sem saber como sair.

Desculpe, eu me atrasei.

Eu abri os olhos mas demorei a enxergar. Eu abri os braços mas demorei a abraçar. Eu abri o coração mas demorei a amar. Desculpe, eu me atrasei, mas eu cheguei.

Eu cheguei no fim da rua sem saída e percebi que conseguia escalar o muro das minhas inseguranças. Eu subi no muro e vi que do outro lado havia muito mais do que eu achava que era a vida.

Eu cheguei.

Eu cheguei onde as pessoas já não mais seguram a caneta que pinta as cores do meu destino. Eu cheguei onde as minhas vontades são as minhas razões suficientes para escolher o que escolho, estar onde estou, fazer o que eu faço, querer o que eu quero e querer quem eu quero.

Eu cheguei.

Eu cheguei no espelho que tanto fugi a vida toda por ter pavor do que nele refletia e percebi que hoje reflete a minha imagem e finalmente eu me reconheço. Eu reconheço a pessoa que um dia já deixou de gritar por medo e que hoje tem medo de deixar de gritar. Eu reconheço a pessoa que um dia se afogou nas palavras que não disse e que hoje só deixa o ar faltar quando ri demais.

Eu cheguei.

Eu cheguei no meio do caminho. Com os pés cansados. Os mesmos pés cansados que já andavam sem rumo, desnorteados, e acabaram tropeçando em um trevo de 4 folhas que era a felicidade vinda de um encontro fortuito da vida.

Desculpe, eu me atrasei para chegar na minha própria vida. Mas eu cheguei.

Desculpe, eu me atrasei para chegar na sua vida. Mas eu cheguei. E eu prometo que eu não vou deixar que nenhum outro atraso das palavras não ditas nos incomode de novo.

Me desculpe ter demorado tanto. Mas eu estou aqui. E talvez seja o momento certo, talvez não existam atrasos reais. Conceitos de tempo e espaço são muito relativos. A urgência é por ser feliz.

Me desculpe ter demorado tanto. Mas eu estou aqui. E estou esperando você na outra metade do caminho.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Contos, Desenvolturas, Divagações, Pessoal, Romance, Sem categoria

Vai

1428611047695.jpg

Vai, se olha no espelho. Se olha no espelho e se pergunta quantas vezes você se pegou dizendo “eu não preciso disso” ou se perguntando “você vai continuar insistindo nessa barca furada?”. Quantas vezes você concluiu que precisava parar e cinco minutos depois estava checando seu e-mail esperando aquela mensagem que nunca vem.

Se olha no espelho e se pergunta quantas vezes você já jurou que nunca mais faria o que acabou de fazer; que nunca mais falaria com quem acabou de falar; que nunca mais enganaria quem acabou de enganar – nem que essa pessoa enganada seja você mesmo, a pior de todas as enganações.

Vai, se olha no espelho. Se olha no espelho e se pergunta quantos do seus “nunca mais” foram realmente um “nunca mais”. Quantos dos seus “basta” foram realmente “basta”. Quantos dos seus “para sempre e sempre” duraram mais do que uma temporada da sua série preferida.

Se olha no espelho e se pergunta se valeu a pena deixar aquela pessoa esperando como plano B porque você nunca teve coragem de dar um bico no A que na verdade era o Z. Pergunta olhando nos olhos se valeu a pena se machucar e machucar todo mundo que está em sua volta com o seu egoísmo das escolhas não feitas. Ou de perceber que ao não escolher você na verdade escolheu sim e só não anunciou expressamente, deixou que a vida e os acontecimentos fizessem isso por você.

Se olha no espelho e se questiona se você é bom o suficiente. Sim, se questiona. Questiona sua moral, sua ética, sua integridade. Questiona se você fez o suficiente. Questiona se você foi honesto o suficiente com quem não esperava nada de você além do mínimo de honestidade e hombridade. Questiona a sua moral em deixar alguém na sombra da sua vida quando você diz que a lua seria dessa pessoa se você pudesse dar isso a ela. Questiona qual é o sentido de levar uma vida de mentirinha, uma relação de fachada. De empurrar um emprego que você detesta com a barriga mas não fazer nada para sair dele.

Vai, pelo amor de Deus, se olha no espelho e se vê. Se veja nu e cru. Se veja de peito aberto, coração rasgado, cabeça cheia. Se veja com a profundidade que você nunca deixou ninguém te olhar. Se analise, seja verdadeiro ao menos uma vez na vida e grite para fora o que você grita para dentro. Está tudo errado? Berre. Está tudo bem? Berre. Não é o que você quer mas é o que você tem? Berre. Grite mas faça alguma coisa além disso. Bebês gritam e choram porque não sabem expressar de outra forma mas alguém sempre entende por eles quais são as necessidades. Você já passou da fase, faz tempo, de querer que alguém faça isso por você. De querer que alguém decida por você só o que você pode decidir.

Faz alguma coisa. Nem que seja desistir. Desista da covardia de fugir da vida ou desista da ideia de correr atrás da sua vida. Mas desista. Desista de ser sempre o último a fazer o que precisa fazer e se contentar com as decisões que sobram porque alguém já foi embora e levou uma lembrancinha rosa da festa te deixando a roxa ou porque alguém pegou o ultimo brigadeiro da mesa te deixando o docinho de uva. Desista de ser o covarde da classe que nunca se pronuncia a favor de nada, nem de você mesmo, que nunca fala nada e sempre diz amém para os mandos e desmandos de quem não está nem aí se o que acontece é bom ou ruim para você.

Faz alguma coisa. Nem que seja assumir finalmente que você cansou porque esperar sentado também cansa. Nem que seja assumir finalmente que você colocou a sua vida para alugar porque não consegue fazer dela um lugar habitável por você mesmo então precisa de alguém para viver por você. Nem que seja assumir finalmente que você não precisa disso, não precisa dele ou dela te enrolando e te causando uma vida de labirintites indesejadas.

Tira uma selfie dessa cara de pau que nega ter algo errado, que sorri quando quer chorar, que fala quando quer calar e cala quando quer falar. Tira uma selfie dessa cara sem vergonha que mentiu tanto para esses olhos tristes que eles acreditaram nas mentiras a ponto de não brilharem mais e de deixarem partir quem conseguia resgatar tal brilho. Tira uma selfie dessa alma perdida em meio ao breu que você insiste em se colocar se acuando no canto escuro do quarto porque tem medo. Aproveita que está na frente do espelho e tira uma selfie que demonstre a sua falta de amor próprio ao se abandonar desse jeito.

Agora vai. Sai do banheiro. Sai da frente do espelho e vai viver. Vai ver o que te restou, vai ver quem ficou te esperando enquanto você ia tentar descobrir que rumo tomar na vida. Vai ver quem aguentou todas as barras porque acreditou que você estava realmente tentando encontrar as respostas para as prioridades da sua vida. E não culpe a alguém se quando abrir a porta não tiver mais ninguém em casa; você demorou mais do que a vida esperou. A vida passa você querendo ou não, e infelizmente as pessoas passam com ela.

Vai. Ou fica aí na frente do espelho ensaiando o discurso do Oscar para quando você acordar amanhã e viver mais um dia em ponto morto dessa sua vida em preto e branco.

Deixe um comentário

Arquivado em Contos, Divagações, Pessoal, Romance

Se

CdJWr1rUIAAWp0m

Se ele/ela quer ir embora, não seja a pessoa que suplica para que fique; seja a pessoa que abre e segura a porta e ainda diz “então vai”.

Se você quer ir embora, vá. Vá embora de uma vez mas não fique empacando o fluxo de pessoas que transitam por ali porque que você não sabe se passa para o lado de fora ou fica do lado de dentro.

Se ele/ela quer ir embora, não seja a pessoa que mendiga carinho e atenção, perguntando com quem você assistirá filmes numa madrugada insone; continue segurando a porta e dizendo “então vai”.

Se você quer ir embora, vá. Queime a ponte de uma vez antes que você se veja cruzando o mesmo caminho novamente sendo que você o faz por pura questão de hábito. Ou assuma que cruzar esse caminho nessa ponte de madeira velha e oca é o que você quer. Mas não fique “criando raiz” atrapalhando o transito alheio e o próprio transito das suas ideias.

O pior daquela pessoa que vive pela metade e só acostumou ver o mundo como um cavalo no cabresto é que ela quer te convencer que assim que é bom e quer te fazer viver da mesma forma. E se você não souber exatamente o que quer, sucumbe, as vezes porque é só nesse limbo que você se sente próximo dessa pessoa e acha que pode fazer dessa metade um todo.

Mas não. Uma metade nessas condições jamais será um todo porque é preciso coragem para aceitar que a vida é mais que isso e que você não é uma metade esperando outra pra formar um todo fora do limbo da vida mal vivida; você é um todo completo e perfeito esperando outro inteiro que com você fará a intersecção e, no ponto de união, descobrirão o que faz um ao outro transbordar.

Quando se vive na sombra da vida, o vento gelado já não gela mais porque você acostuma com a temperatura por nunca sair dela. Uma vez que alguém te carrega para o sol e te mostra que o mundo é maior do que o caroço de azeitona que você conhece, você sente sua pele queimar e acha que vai morrer frito… Quando na verdade seu corpo te diz que está vivo e tem mais experiências a viver.

Os covardes não aproveitam a oportunidade para enveredarem pelas descobertas da vida nova; voltam para as sombras sentindo falta de coisas que nunca tiveram e nunca terão por pura falta de pulso. Os corajosos, por sua vez, buscam impulso. Pensam em si e no que realmente importa, se fecham para as pirraças e egoísmo de quem os quer na sombra e vão correndo ao encontro da vida. Vão correndo ao encontro do sol. Do mar. Da areia da praia.

O conforto da sombra da vida não espera de você nenhuma atitude. Mas é nele que você continua cultivando sua gastrite, tomando seus calmantes e perdendo suas noites de sono. É uma falsa sensação de conforto única e exclusivamente existente porque é o que já se conhece. É o campo minado da alma que acha que viver a faixa de Gaza todos os dias já virou o jeito certo de viver. Se o embate fosse só interior você ainda daria um jeito de viver fingindo que está tudo bem mas nunca é. Tem sempre mais alguém envolvido.

Enquanto você se preocupa com sentimentos de alguém que pouco se importa com os seus, você se flagela e se martiriza buscando respostas que você já tem mas que estão além do medo. Além da sombra. Além da área a ser desbravada. Enquanto você não se preocupa em consertar o seu mundo buscando respostas para mundos alheios, o seu mundo desmorona e pega o muro do mundo ao lado que não tem nada com isso a não ser acreditar que estar ali te escorando seria o suficiente.

Todos os dias que você diz que você não sabe para onde ir ou o que fazer, você vai para algum lugar e faz algo. Todos os dias que você se diz que não sabe como decidir se pinta a casa de azul ou de amarelo, a casa se mantém branca em essência mas a aparência encardida te faz pensar que você mora numa casa feia quando na verdade ela só está mal cuidada. E por você mesmo, único culpado por sua alegria ou tristeza no final das contas. E ainda que se que diga que pessoas nos afetam, as coisas têm a importância que damos a elas. E a partir do momento que você se nega a permitir que coisas que antes machucavam continuem machucando, você toma as rédeas da sua vida e se abre a um leque de novas oportunidades e o mais importante: você se permite a cura. E se permitindo a cura, você entende que priorizar o que sente e o que pensa não é egoísmo; é sobrevivência, é exercício de amor próprio.

Deixar ir é tão ato de amor quanto permanecer. Acontece que não deixamos ir ou permanecemos pelos motivos errados. Você reclama que o preço da escolha é caro mas te garanto que pagar caro em 1h de estacionamento na vida é muito menos doloroso do que pagar 365 dias nesse plano fidelidade que só te suga. Se você tem dois preços a escolher, se você tem dois pesos a dar, só você pode fazer isso mas não espere que quem combinou de te encontrar para a sessão de cinema das 19h esteja lá 365 dias depois porque você não teve coragem de ligar o carro e sair andando. Não é nem justo esperar isso de alguém.

Se ele/ela quer ir embora, segure a porta e diga vá. É nessa hora que você separa “os homens dos meninos”. Ou se ele/ela não vai embora, vá você. Mas não ouse não viver. Se a sorte escolheu você e você cego nem nota, alguém vai notar. E quando isso acontecer, aprenda a lição e continue o jogo da vida. Você pode ter perdido o jogo, mas se você está num campeonato todo mundo perde alguma hora. No final, só um leva o troféu para a casa e se não for você, outro vai. Por isso ficar empacado só vai te fazer tomar W.O. da vida.

Deixe um comentário

Arquivado em Divagações, Inspirações, Pessoal, Romance

Amar é…

We-Heart-It

“People think a soul mate is your perfect fit, and that’s what everyone wants. But a true soul mate is a mirror, the person who shows you everything that is holding you back, the person who brings you to your own attention so you can change your life. A true soul mate is probably the most important person you’ll ever meet, because they tear down your walls and smack you awake. But to live with a soul mate forever? Nah. Too painful. Soul mates, they come into your life just to reveal another layer of yourself to you, and then leave. A soul mates purpose is to shake you up, tear apart your ego a little bit, show you your obstacles and addictions, break your heart open so new light can get in, make you so desperate and out of control that you have to transform your life, then introduce you to your spiritual master…”

― Elizabeth Gilbert, Eat, Pray, Love

Não é fácil falar sobre o amor. Não é fácil viver o amor. O amor que você nem sabe que é amor de verdade até que ele se vá; amor que não era amor, era solidão, medo de ficar sozinho e acabou fazendo com que você se apegasse a primeira oportunidade de “para todo sempre, amém” que apareceu. Amor que era mais que amor, como diria Poe, daqueles que atravessam oceanos a nado, – cuidado aqui pois o seu amor por alguém pode atravessar o Atlântico a nado mas o destinatário dos seus sentimentos pode não pular nem uma poça d’água por você.

Amor, facilmente confundível com a atenção dispensada a alguém que supre a inevitável solidão que todos vivemos em algum momento da vida. Carência. Sentimento que se esvai quando se descobre que atenção dispensada de forma livre e espontânea acaba virando demanda, acaba virando obrigação e você já não sabe mais se um dia amou de verdade ou se era carência ou medo de um futuro a um. Com certeza algum “eu te amo” dito aqui valeu a pena… Mas provavelmente não era amor.

Mesmo que não seja conhecida por todos aquela lenda oriental do fio vermelho amarrado ou no dedo ou no tornozelo daqueles que estão destinados a se encontrar pelos caminhos da vida, aconteça o que acontecer, a verdade é que encontros e desencontros fazem parte da nossa existência. Pessoas entram e saem das nossas vidas a todo momento, o que muda é a razão. E você se pergunta, muitas vezes “por que essa pessoa apareceu no meu caminho?” ou “por que eu fui obrigado a ir embora quando tudo o que eu mais queria era ficar?”.

E no fundo, no fundo, a resposta para a primeira pergunta está no fio vermelho dos orientais, no destino, nas leis divinas ou no acaso e a resposta para a segunda pergunta está no fundo do armário, amassada no meio de uns papeis que você jogou ali “para arrumar depois” e fica se enrolando para não fazer o que precisa fazer porque é cansativo, é chato, dá trabalho.

Nem todo mundo tem o sonho de casar com toda aquela pompa e circunstância ou mesmo de casar mas garanto que todo mundo tem vontade de ser feliz a dois. Ser feliz a um é parte fundamental da felicidade em dupla, mas, para isso, precisamos entender que nem tudo está sob nosso controle… A bem da verdade, a maioria das coisas que realmente importam não estão. O amor não está.

É claro que temos escolhas na vida. É claro que abrimos e fechamos portas conforme nossa vontade ou conveniência. Mas às vezes, num desses dias normais que vivemos, corremos e colocamos o braço na porta do elevador, sem outro propósito além de aproveitar que ele está ali no andar e você não tem que esperar ele subir ou descer de novo – fora o fato de ter sempre um inconveniente que fica com a porta aberta mais tempo do que o necessário atrasando a sua vida.

E você entra nesse elevador e vê que nele tem um espelho. E você fica abismado porque nunca viu um espelho que te mostrasse como você é de verdade tão bem quanto esse espelho desse elevador. E você passa a notar coisas que nem imaginava que tinha ou era. E nota também que não importa para onde você olhe, o espelho nunca desiste de te mostrar o seu melhor eu; não tem um lado dele que te engorde mais, te emagreça mais, te deixe maior ou menor. Ele é fiel ao que reflete. Sempre fiel.

O elevador que você correu e enfiou o braço para a porta não fechar, entrou e se maravilhou com o espelho também é um elevador que correu, enfiou o braço para a porta não fechar, entrou e se maravilhou com o espelho; é a sua alma gêmea. É a pessoa para a qual você olha e se enxerga, é quem faz com que você se veja com os olhos de bondade, ternura e amor que você provavelmente nunca se olhou numa exigência absurda de justificar seu eu com os seus defeitos e não reconhecer seus acertos.

Almas gêmeas se reconhecem e não, isso não é balela. Você sabe quando encontra a sua porque não importa se estão juntos há 1 minuto ou há 10 anos, parece que o tempo para vocês não passa igual como passa para as outras pessoas. 5 semanas parecem 5 meses. 5 meses parecem 5 anos. Cada dia parece uma eternidade. Você vive a plenitude da vida sem a menor cerimônia, você não liga de sentar no chão mesmo que ele esteja meio sujo; já que sentou, faz um pic-nic. Você não liga de resolver parar na praia depois de ter ido jantar e andar na areia de sapato; você aproveita e senta na areia e olha o mar, escuta as ondas e sente que a sua companhia vem logo em seguida jogando um casaco nas suas costas, trazendo os braços que te envolvem para que fiquem ali, sentindo a benção da vida em cheiro de maresia.

O amor é muito mais do que ter afinidade com alguém, é muito mais do que “eu te amo” que depois de um tempo fica mecânico; amor é cumplicidade. Amor é se sentir eternamente chegando em casa, se jogando num daqueles puffs gigantescos e aconchegantes e contando como foi eu dia e o que te aflige para o seu melhor amigo, pessoa realmente interessada em te ouvir, aconselhar, ajudar, não a te julgar ou ver defeito em tudo o que você faz. Nem sempre os dias serão fáceis, mas com certeza em todos os que houverem dificuldades você não dorme sem antes resolver a história porque dormir “bunda com bunda” é para quem não está mais nem aí para o que anda acontecendo.

O amor não dá espaço para o orgulho idiota que te impede de pedir desculpas e dizer que errou ou que te impede de aceitar desculpas ao ouvir que o outro errou. O amor não dá espaço para o desprezo pelo o que o outro gosta mesmo quando não é muito do seu estilo porque o amor sabe que é importante para o outro então que se faz o outro feliz, faz você feliz também. O amor não dá espaço para o medo que te faz medir palavras antes de falar sobre algo ou que faz guardar para si coisas porque o outro não entenderia ou porque você acha que seria julgado ao invés de ser compreendido.

O amor que é mais que amor faz com que você se enxergue pelos olhos daquele que te ama. Faz com que o melhor em você resplandeça e que o que precisa ser organizado, seja. Te dá coragem. Te faz olhar o horizonte sabendo que tem algo lá no final que faz com que a jornada valha a pena. O amor mais que amor é o que uma alma gêmea sente pela outra depois de 60 anos de casados vivendo como se estivessem nos primeiros dias da lua de mel.

Por que da citação no começo do texto? Porque muito embora eu concorde com a parte do que é a alma gêmea e do que ela faz por você, eu não consigo acreditar que seja doloroso viver com ela para sempre. O amor da sua vida é geralmente uma escolha; a sua alma gêmea, não. O que não significa que ambos não possam estar na mesma pessoa e essa pessoa não possa estar do seu lado agora. A maior bênção da vida é ter alguém nela que faça com que você entenda porque antes as coisas não deram certo e porque foi tão importante você passar por tudo o que passou até chegar no mesmo balcão que ela numa cafeteria qualquer e os dois pedirem um café preto, forte, ao mesmo tempo, para o mesmo atendente, que fica com cara de espantado olhando os dois enquanto os dois se entreolham e sorriem, despertando o coração um do outro do coma em que estavam, induzidos a isso ou não.

Acontece de almas gêmeas se acharem na vida e não ficarem juntas por uma infinidade de razões que por vezes não têm solução. Acontece de amores só darem certo 50 anos depois do primeiro oi e de toda noite de lua cheia ambos tamparem a lua com o dedão porque lembraram da promessa de que a lua seria sempre a mesma independentemente de onde estivessem e de quando fosse. Acontece de “para sempre, amém” não ser um para sempre; ser, na verdade, uma etapa antes do “para sempre e sempre, amém” se você permitir que assim seja. Amor é tão sublime que te faz pensar que viver sem amar e ser amado é das piores heresias que se pode cometer. E é das piores maldades que se pode fazer a si mesmo.

O amor é uma conquista, é uma luta diária e você participa ativamente dos rumos que cada minuto toma. O amor é o sorriso que você sabe que é só seu, é aquele olhar bobo enquanto você fala com alguém… É a certeza de que quem você abraça é o seu lar. É o seu começo, meio e final feliz. Amar mais que o amor. Poucos sabem o que é isso, o que é sentir que “eu te amo” fica pequeno para tanto sentimento. Se você sabe o que é isso, você sabe que encontrou a sua alma gêmea. E assusta, mesmo. Mas é sinal de que é algo tão precioso que você encontrou o pote de ouro no final do arco-íris.

Que você seja o pote de ouro de alguém.

Que alguém seja o seu pote de ouro.

E que vocês sejam, um do outro, para todo o sempre.

Amém.

2 Comentários

Arquivado em Citações, Contos, Divagações, Romance

Medo

rain-room-large1

E se num dia de chuva ao invés de você olhar, da sua janela, cada pingo cair, cada gota entranhar na terra ou correr pelo chão, você sair de casa e for sentar no chão, lá fora, deixando a chuva cair sobre você? E se você brincar de pular em poças sem se importar com quem estiver vendo? E se pelo menos uma vez na vida você só fizer isso, sem pensar demais, sem pensar se vai pegar um resfriado ou se vai molhar a casa inteira até chegar no chuveiro? E se você simplesmente fizer o que quer sem medir cada passo milimetricamente tentando saber o que você nunca saberá, a sorte e o revés a cada passo?

Temos medo. O medo é intrínseco ao ser humano. Medo do escuro do quarto ou do escuro do quartinho que a sua mente se enfiou e não quer sair. Medo de chorar por achar que é fraqueza ou de abaixar a guarda prevendo uma decepção que pode não acontecer. O medo de perder alguém, algo. Uma chance. Uma vida inteira vivendo como antagonista da sua própria história. Vivendo como sombra da sua própria sombra. O medo pode nos catapultar para o outro lado com a coragem de um salto mas também pode nos fazer recuar tanto a ponto de voltarmos ao começo do jogo. O medo que nem sempre é sinônimo de covardia, sempre é sinônimo de que algo importa.

Se tudo o que você faz é pensar o dia inteiro sobre algo, você certamente não estará mais vendo as coisas como são pois sua cabeça terá dado tantas voltas que você não sabe mais o que você criou e o que já estava ali antes de você. Mas você tem medo de não pensar demais e acabar deixando algo passar batido, como se você tivesse o poder de saber o que cada curva da vida pode trazer. Deveríamos aceitar o fato de que não temos controle de nada e que por mais vontade tenhamos, algumas coisas não saem tão bem na prática quanto estão no papel.

Eu sei, eu sei que dói. Eu sei que quem viveu sempre com a guarda erguida prevendo um murro na boca do estômago caso abaixasse – e sempre levou esse murro quando abaixou a guarda – não espera que isso aconteça de novo. Diz que foi “pela última vez” mas essa última vez sempre tem replay. E você cansado de sofrer, passa a desacreditar que sua vida precisa de mais alguém além de você. Você aprende a não ter medo da solidão e passa a ter medo da companhia porque quem está do seu lado pode ir embora de uma hora para a outra sem que você possa fazer algo a respeito. Você não tem medo de ficar sozinho; você tem medo deixar que se aproximem.

E não é que você deixe alguém se aproximar e te mostrar que esse medo é tão irracional quanto qualquer outro; simplesmente um tanque de guerra bate nesse muro e derruba como se fosse uma navalha cortando facilmente um papel. E você se vê despido de qualquer receio anterior porque é sempre diferente… você sempre sente que é o certo, que não tem problema. Que quem derrubou seus muros como se os muros fossem um nadinha é também sua rede de segurança. Seu porto seguro. Por um tempo ou pela eternidade, não se sabe; tudo o que você pode fazer é viver cada segundo disso como se fosse o último e ter com você que por mais que as vezes isso acabe, por ora ou para sempre, você soube o que é ter alguém na vida que te fizesse se sentir caminhando nas nuvens mas, ao mesmo tempo, em segurança. Você conheceu o que é o amor de verdade em algum momento da sua vida. Você que sempre teve medo de amar, se permitiu amar e permitiu que te amassem, sem perceber.

É assim mesmo, de supetão, que a vida te tira um medo mas te dá outro. E a gente cansa, achando que tem que decidir tudo o tempo inteiro; a gente cansa pensando que se nos dermos um tempinho para curtirmos a chuva gelada caindo lá fora sem nos importarmos com algo além de curtirmos a chuva, estaremos sendo levianos. Em nome de responsabilidades que nem precisaríamos ter a todo o momento, nós nos levamos a sério demais. E desaprendemos a viver com a ingenuidade e a doçura de quem sabe que…

 Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa
Tudo sempre passará

A vida vem em ondas
Como um mar
Num indo e vindo infinito

Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente
Viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo
No mundo

Não adianta fugir
Nem mentir
Pra si mesmo agora
Há tanta vida lá fora
Aqui dentro sempre
Como uma onda no mar

A mesma onda que banha seus pés enquanto você caminha na beira da areia com seus sapatos na mão vendo seu amor dando estrelinha na areia enquanto você diz que a sua maior frustração de infância é justamente não saber dar estrelinha é aquela que destrói o que vê pela frente a depender de sua altura e intensidade. A mesma situação que te traz paz pode ser a que te traz dissabores. Mas assim como a maré que é inconstante, a vida também é. O que hoje dói amanhã pode não doer mais; o que hoje é choro amanhã pode ser riso; o que hoje é saudade amanhã pode ser uma aparição surpresa na porta da sua casa ou na sua sala do escritório.

Você não sabe o que será de você no próximo segundo, quem dirá no próximo dia. A única coisa que você precisa fazer por você mesmo é seguir em frente, mesmo com medo. É retroceder dois passos, mesmo que magoe quem você não queria magoar, para que depois, ao andar 500 milhas, você possa mostrar que fez o que precisava fazer e que nada foi em vão.

Você não sabe quem estará na sua vida amanhã ou depois. Só se certifique que quem está hoje é quem você quer que esteja. É que você respeita, é quem te respeita. É quem você consegue ter uma conversa franca sem medo de ser julgado ou de se sentir sob o crivo da hostilidade. Sem olhar e não reconhecer mais quem está ali. Viva a vida com a certeza de que você não está deixando as coisas irem para só perceber que elas foram quando já não tiver mais placa de retorno nessa estrada.

Prometa a si mesmo que seja num pic nic em um domingo ensolarado, seja num dilúvio que você resolveu aproveitar para brincar de Gene Kelly, você saberá quando parar de pensar para começar a sentir. Ao menos tente. E depois se ficar queimado do sol ou resfriado da chuva, a farmácia está cheia de remédio. Mas vazia de momentos que poderiam ter sido mas não foram porque você não teve a coragem de fazer isso por você.

2 Comentários

Arquivado em Contos, Divagações, Pessoal, Romance

Não deixa ela escapar

mandy-moore-13866

*Espero que vocês gostem do texto abaixo gentilmente cedido pela Mayara Godoy, publicado em 05 de novembro de 2015 no blog Uma Segunda Qualquer . Segue nossa linha editorial e é realmente muito bom!

“Amigo, ouve o meu conselho: não deixa essa mulher escapar.

Se você olhar pra ela e, por um segundo, parecer que teu mundo parou, não deixa ela escapar.

Se você tiver vontade não só de acordar do lado dela, mas de tomar café da manhã, almoço e jantar com ela, não deixa ela escapar.

Se ela tiver aquela gargalhada maravilhosa que te faz querer fazer as piadas mais bobas só para vê-la (e ouvi-la) rir, não deixa ela ir embora por nada nesse mundo.

Se você sentir aquele frio na espinha toda vez que o nome dela aparece nas notificações do Whatsapp… Meu amigo, a coisa é séria. Você não pode deixá-la escapar.

Se todo e qualquer tempo livre que você tem só fizer sentido se você estiver com ela… Não perde ela, não.

Se aquelas músicas românticas de repente passaram a fazer sentido, tenho uma notícia pra você: você não pode – nem deve – deixar ela fugir.

Não importa o quanto você tenha afirmado e repetido que você é um solteirão convicto, que pra você sábado é dia de bar e domingo, de futebol… Se você perceber que prefere passar os sábados com ela no sofá, e os domingos, com ela na cama… Corre lá agora e diz pra ela que você não vai deixar ela escapar.

Mas faz isso rápido. Porque, pode até ser que ela também não queira escapar, mas, se ela for embora, é muito provável que nunca mais volte.”

Deixe um comentário

Arquivado em Citações, Romance

Fardos

inspiracao-em-tudo

Fardos. A vida é feita de fardos. De pesos que acumulamos durante nossa jornada. De escolhas que fazemos cujas consequências suportamos invariavelmente, queiramos ou não. Alguns fardos são como uma joia rara, pesada, que você faz questão de carregar porque embora pesos, são bênçãos e toda bênção tem seu quê de pesar até que se revele algo perfeito. Paramos para pensar que dizer que algo é um fardo não é necessariamente ruim? “O que é pesado ou custa a suportar; que exige cuidados ou responsabilidades”.

Amor é um fardo. Deixando de lado a leveza de um amor que se parece mais com uma tarde preguiçosa na rede de um domingo e não com uma noite agitada de sábado na balada mais movimentada da cidade, o amor, assim como qualquer outro sentimento exige cuidados e responsabilidades, em primeiro lugar para com você mesmo que o sente; em segundo lugar, atrás por um fiozinho de cabelo, para com aquele a quem se destina ou se destinou algum dia. Respeito mútuo ao que ainda existe ou já acabou, um fardo que chegou num embrulho bonito e com um laço vermelho e dourado e com o tempo passou a ser roto e a não fazer mais sentido. Acontece quando se vive a vida em sua plenitude, algumas coisas se perdem no tempo e no espaço, crescem separadamente sem que se perceba. O que é pesado ou custa a suportar já não vale mais a pena, mas é algo que você carrega consigo há tempo e por isso é difícil depositá-lo em outro lugar que não nos seus ombros.

Seus ombros foram feitos para aguentar o lado agridoce dos sentimentos que te preenchem ou te transbordam. Foram feitos para que ao caminhar, memórias novas sejam criadas e memórias antigas passem para o fundo da mochila, que conforme o tempo passa vira aquelas de alpinista já que precisa ser grande para comportar tanto. Decidir o que fazer com o que se sente quando no meio do caminho se acha o que você não sabia, ao menos acreditava não saber, que procurava, mas percebe que era tudo o que sempre quis, ou que a amizade que parecia ser boa em via de mão dupla na verdade era mão única e você se viu na contramão é algo difícil e por isso a responsabilidade e o cuidado sempre precisam ser o seu ponto de chegada, mas também o de partida. Precisam ser seu começo, seu meio e seu fim. Mesmo que você não tenha noção de onde a linha de chegada está.

Sentimentos nem sempre são correspondidos. Há algo errado quando se acredita que ao não corresponder mais ou nunca ter correspondido um sentimento o errado é você, o incompreensível é você. “Se você não disser que me ama eu vou me matar!” – metaforicamente ao permanecer em algo falido – quantas e quantas vezes não vemos esse tipo de situação? E você morre afogado numa mentira quando coaduna com isso e diz que ama quando não ama ou pior: quando diz que entende que o errado é você por não corresponder e se sente culpado por não dar a alguém aquilo que alguém esperava ou queria de você.

Ninguém tem obrigação de corresponder o que sentimos. E nem de servir de muro de lamentações por causa disso. É chato. É inconveniente. A bem da verdade as vezes você não tem a menor culpa do que cativou. Então “O Pequeno Príncipe” que diz que somos e seremos eternamente responsáveis pelo o que cativamos é uma das maiores balelas da literatura mundial. Isso é te fazer crer que você é responsável por sentimentos e pessoas que você atraiu só por ser como é. Não é desprezo pelo sentimento alheio, é só não tomar para si um fardo que não precisa e nem deve estar sobre seus ombros. Eu não sou eternamente responsável por nada além do que me faz feliz e de quem me faz feliz. Eternamente responsável pelo o que eu escolhi. Por quem eu escolhi.

Sou eternamente responsável por zelar pelo sentimento, meu e pelo mútuo. Pelo coração entregue para alguém cuidar, eternamente enquanto dure, até que a vida ou a morte os separe. Ou a morte em vida, a pior de todas. Eternamente responsável pela verdade e sinceridade do que se sente. Eternamente responsável por se olhar no espelho e reconhecer o reflexo de quem todo dia muda um pouco, morre um pouco, renasce um pouco, espera muito, faz muito, quer muito, tem muito. Ou de quem nada faz e vê a banda da vida passar jogando confete nas cabeças alheias e na sua cara também.

Fardos acumulados são como rugas e linhas de expressão que demoraram a aparecer, mas que aparecem e contam a historia de quem você é. Contam seus caminhos, contam seus atalhos, contam como você chegou onde está. Fardos te ajudam a escolher para onde ir e o que levar enquanto vai. Pesos e responsabilidades existem e sempre existirão. O que temos que perceber claramente é que alguns não são nossos e que alguns que são já não precisam ser mais. Que muitas vezes vivemos em noites agitadas de sábado por medo de deixarmos o dia seguinte chegar e nos deitarmos na rede quieta de um domingo preguiçoso.

Que seja uma quimera. Que seja um devaneio acreditar que as pessoas algum dia dirão não quando quiserem dizer não, dirão sim quando quiserem dizer sim e não deixarão o grito preso na garganta por se importar demais com o que não deveriam e se importar de menos com o que deveriam – se importar com o que vão pensar ao invés de prestar atenção ao que cada batida do coração quer dizer.

Que seja uma quimera. Mas é por causa de quimeras que sonhadores tornaram seus sonhos realidade e fizerem o impossível acontecer. Seja sonho ou realidade, mas seja de verdade.  

2 Comentários

Arquivado em Contos, Divagações, Romance