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Sem amanhã

E se você acordasse hoje sabendo que seria seu último dia na Terra? Se você acordasse hoje sabendo que seria seu último dia, teria vivido tudo o que pode viver, da melhor maneira possível? Pensaria mais em arrependimentos ou em orgulhos? Poderia cantar My Way, do Frank Sinatra, a plenos pulmões ou escolheria uma daquelas músicas que falam de dor de uma vida sempre deixada para depois e pensaria que “se eu tivesse só mais um dia.”.

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Nós vivemos no conforto do amanhã. Nós vivemos no conforto do “amanhã será melhor que o ontem” e mesmo que não seja, vamos de amanhã em amanhã, muitas vezes ignorando o que realmente fazemos no hoje, numa tentativa tresloucada de tentar entender como a vida que de tão preciosa passa a coadjuvante do medo. Vivemos a antítese do “amanhã melhor” e do hoje incompleto. Esperando situações ideais, esperando primeiros passos, esperando, esperando, esperando… e se a espera for interrompida abruptamente? E se o legado deixado for apenas a saudade de tudo que você ainda não viu?

Quando ficamos diante de uma grande perda, de desconhecidos que pareciam da nossa família, de amigos distantes mas presentes no dia a dia, mergulhamos dentro de nós em emoções turvas, em desencontros, em descompassos, em esperanças de que as situações se consertem e que você veja sua vida dando certo. Afortunados somos todos os dias por acordarmos sem exatamente sabermos quando teremos o nosso último amanhã. Afortunados somos por podermos mudar o que precisa ser mudado, enquanto há tempo. Tudo o que temos é o hoje. E nunca foi tão latente o clichê “o amanhã pode nem chegar”. E se ele não chegar, você teria dito que ama quem você ama? Você estaria ao lado de quem você realmente queria estar? Você teria perdoado quem precisa perdoar? Teria perdoado a você mesmo? Você teria feito POR VOCÊ algo que te deixaria orgulhoso se você soubesse que daqui 10 anos estaria aqui ainda?

De tanto medo da vida, deixamos de viver. De tanto medo da vida, deixamos que o amanhã carregue no ventre a felicidade que já deveria ter nascido hoje. Dá a impressão de que no dia 31 de dezembro, quando der 00h e percebemos que estamos vivos, só conseguiremos dizer OBRIGADO. Tem sido um ano extremamente difícil. Perdas enormes, catástrofes mundiais, dificuldades financeiras. Se sabe o valor da sua vida, agradece! Agradeça o fato de estar vivo. Agradeça poder dizer EU TE AMO, e diga, sempre, sempre que possível. Reconheça quem está sempre do teu lado. Não dependa só de uma tragédia para lembrar de ligar para os seus familiares e amigos. Não espere irem embora, para sempre ou para longe, para perceber que devia ter perdoado quem precisava de perdão ou ter deixado ir quem já não cabe mais no lugar em que ocupa. Ou se permitir ir quando o que você é não condiz com o que você quer ser, quando o que você tem não condiz com o que você quer ter.

Todos nós, independente da fé que professemos, se professarmos alguma, somos finitos. Honremos a nossa vida. Coragem, a gente precisa viver! Não existe hora certa para amar. Não existe hora certa para perdoar. Não existe hora certa para deixar saber que alguém é importante. Vamos de uma vez por todas enfiar na nossa cabeça que a vida é urgente e que o depois pode ser tarde demais. Não deixemos a vida para depois! Estejam com quem amam. Façam felizes essas pessoas. Respeitem a vida, ela é sagrada. E vivam, por favor, vivam. Não percam tempo com medo.

A vida é sobre ter memória curta e coração gigante. Amar o instante e respirar bem fundo para o amor também invadir o seu ser. É dar mais um passo mesmo sem saber o que te aguarda e é confiar que quando alguém te diz que vai conseguir, a pessoa vai, e você fica do lado para ver acontecer, para aplaudir ou para enxugar as lágrimas que rolarem pelo rosto. Mesmo que nada faça muito sentido, o importante é ir, com medo mesmo, atrás do que te completa. Atrás do que te faz feliz.

Certa vez, já faz algum tempo, cruzei com um texto que dizia o seguinte em uma das suas partes:

“(…) olhe pelo para-brisas e não pelo espelho retrovisor. Mire o alvo, foque. Não se deixe ser levado em sua própria vida, faça você o seu caminho, encare. Ninguém nunca morreu de amor, nem de decepção, mas o que sempre se percebe é que há entusiasmo em quem fala “foi bom”, “errei mas aprendi”, “valeu a experiência”, “pelo menos vivi algo novo”, “apesar de não ter dado certo eu posso dizer que tentei”, mas quando se houve o outro lado é sempre um ar de desânimo, descontentamento com os “porque eu não fui? ”, “será que teria dado certo? ”, “por que demorei tanto? ”, “e se…? ”, sempre essa dúvida cruel. Você tem a opção de escolher tentar ou escolher lamentar. Você não tem dúvida, você tem medo, mas com o medo é que surge a oportunidade de colocar em ação a coragem. Talvez não para eliminar o medo, mas para ir com medo mesmo!

Não fique no cruzamento dessa estrada que é a vida, muito menos pare no acostamento. No máximo uma rápida parada em um posto de gasolina para reabastecer, pegar fôlego, respirar fundo, e voltar para a estrada com disposição, com ânimo e CORAGEM! ”

Se você acordasse hoje sabendo que não teria amanhã, você estaria na direção da sua vida ou ainda sentado no sofá desejando sentir o vento no seu rosto enquanto dirige na estrada que te leva a conquistar o que você mais quer? Não desista de você mesmo. Eu te garanto, vai valer a pena.

Você merece mais. Se permita mais. Se permita viver a vida que você sabe que merece ou que você descobriu no meio do caminho que merece. E se permita estar com alguém que reconheça em você boa parte do “se eu não tivesse amanhã, hoje eu estaria completo”.

Amanhã eu vou revelar
Depois eu penso em aprender
Daqui a uns dias eu vou dizer
O que me faz querer gritar

No mês que vem tudo vai melhorar
Só mais alguns anos e o mundo vai mudar
Ainda temos tempo até tudo explodir
Quem sabe quanto vai durar

Não deixe nada pra depois, não deixe o tempo passar
Não deixe nada pra semana que vem
Porque semana que vem pode nem chegar
Pra depois, o tempo passar
Não deixe nada pra semana que vem
Porque semana que vem pode nem chegar

A partir de amanhã eu vou discutir
Da próxima vez eu vou questionar
Na segunda eu começo a agir
Só mais duas horas pra eu decidir

Esse pode ser o último dia de nossas vidas
última chance de fazer tudo ter valido a pena
Diga sempre tudo que precisa dizer
Arrisque mais, pra não se arrepender
Nós não temos todo o tempo do mundo
E esse mundo já faz muito tempo
O futuro é o presente e o presente já passou
O futuro é o presente e o presente já passou

Nada pra depois, não deixe o tempo passar,
Não deixe nada pra semana que vem,
Porque semana que vem pode nem chegar
Pra depois o tempo passar,
Não deixe nada pra semana que vem,
Porque semana que vem pode nem chegar!

 

 

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Fardos

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Fardos. A vida é feita de fardos. De pesos que acumulamos durante nossa jornada. De escolhas que fazemos cujas consequências suportamos invariavelmente, queiramos ou não. Alguns fardos são como uma joia rara, pesada, que você faz questão de carregar porque embora pesos, são bênçãos e toda bênção tem seu quê de pesar até que se revele algo perfeito. Paramos para pensar que dizer que algo é um fardo não é necessariamente ruim? “O que é pesado ou custa a suportar; que exige cuidados ou responsabilidades”.

Amor é um fardo. Deixando de lado a leveza de um amor que se parece mais com uma tarde preguiçosa na rede de um domingo e não com uma noite agitada de sábado na balada mais movimentada da cidade, o amor, assim como qualquer outro sentimento exige cuidados e responsabilidades, em primeiro lugar para com você mesmo que o sente; em segundo lugar, atrás por um fiozinho de cabelo, para com aquele a quem se destina ou se destinou algum dia. Respeito mútuo ao que ainda existe ou já acabou, um fardo que chegou num embrulho bonito e com um laço vermelho e dourado e com o tempo passou a ser roto e a não fazer mais sentido. Acontece quando se vive a vida em sua plenitude, algumas coisas se perdem no tempo e no espaço, crescem separadamente sem que se perceba. O que é pesado ou custa a suportar já não vale mais a pena, mas é algo que você carrega consigo há tempo e por isso é difícil depositá-lo em outro lugar que não nos seus ombros.

Seus ombros foram feitos para aguentar o lado agridoce dos sentimentos que te preenchem ou te transbordam. Foram feitos para que ao caminhar, memórias novas sejam criadas e memórias antigas passem para o fundo da mochila, que conforme o tempo passa vira aquelas de alpinista já que precisa ser grande para comportar tanto. Decidir o que fazer com o que se sente quando no meio do caminho se acha o que você não sabia, ao menos acreditava não saber, que procurava, mas percebe que era tudo o que sempre quis, ou que a amizade que parecia ser boa em via de mão dupla na verdade era mão única e você se viu na contramão é algo difícil e por isso a responsabilidade e o cuidado sempre precisam ser o seu ponto de chegada, mas também o de partida. Precisam ser seu começo, seu meio e seu fim. Mesmo que você não tenha noção de onde a linha de chegada está.

Sentimentos nem sempre são correspondidos. Há algo errado quando se acredita que ao não corresponder mais ou nunca ter correspondido um sentimento o errado é você, o incompreensível é você. “Se você não disser que me ama eu vou me matar!” – metaforicamente ao permanecer em algo falido – quantas e quantas vezes não vemos esse tipo de situação? E você morre afogado numa mentira quando coaduna com isso e diz que ama quando não ama ou pior: quando diz que entende que o errado é você por não corresponder e se sente culpado por não dar a alguém aquilo que alguém esperava ou queria de você.

Ninguém tem obrigação de corresponder o que sentimos. E nem de servir de muro de lamentações por causa disso. É chato. É inconveniente. A bem da verdade as vezes você não tem a menor culpa do que cativou. Então “O Pequeno Príncipe” que diz que somos e seremos eternamente responsáveis pelo o que cativamos é uma das maiores balelas da literatura mundial. Isso é te fazer crer que você é responsável por sentimentos e pessoas que você atraiu só por ser como é. Não é desprezo pelo sentimento alheio, é só não tomar para si um fardo que não precisa e nem deve estar sobre seus ombros. Eu não sou eternamente responsável por nada além do que me faz feliz e de quem me faz feliz. Eternamente responsável pelo o que eu escolhi. Por quem eu escolhi.

Sou eternamente responsável por zelar pelo sentimento, meu e pelo mútuo. Pelo coração entregue para alguém cuidar, eternamente enquanto dure, até que a vida ou a morte os separe. Ou a morte em vida, a pior de todas. Eternamente responsável pela verdade e sinceridade do que se sente. Eternamente responsável por se olhar no espelho e reconhecer o reflexo de quem todo dia muda um pouco, morre um pouco, renasce um pouco, espera muito, faz muito, quer muito, tem muito. Ou de quem nada faz e vê a banda da vida passar jogando confete nas cabeças alheias e na sua cara também.

Fardos acumulados são como rugas e linhas de expressão que demoraram a aparecer, mas que aparecem e contam a historia de quem você é. Contam seus caminhos, contam seus atalhos, contam como você chegou onde está. Fardos te ajudam a escolher para onde ir e o que levar enquanto vai. Pesos e responsabilidades existem e sempre existirão. O que temos que perceber claramente é que alguns não são nossos e que alguns que são já não precisam ser mais. Que muitas vezes vivemos em noites agitadas de sábado por medo de deixarmos o dia seguinte chegar e nos deitarmos na rede quieta de um domingo preguiçoso.

Que seja uma quimera. Que seja um devaneio acreditar que as pessoas algum dia dirão não quando quiserem dizer não, dirão sim quando quiserem dizer sim e não deixarão o grito preso na garganta por se importar demais com o que não deveriam e se importar de menos com o que deveriam – se importar com o que vão pensar ao invés de prestar atenção ao que cada batida do coração quer dizer.

Que seja uma quimera. Mas é por causa de quimeras que sonhadores tornaram seus sonhos realidade e fizerem o impossível acontecer. Seja sonho ou realidade, mas seja de verdade.  

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Peneira

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Entre passos e descompassos da vida, o tempo passa. E o tempo não passa igual para todo mundo. Provavelmente os planos que fizemos enquanto éramos crianças mudaram um pouco e você não se tornou um astronauta ou uma modelo de capa das Vogues da vida. Às vezes as coisas acontecem prematuramente, às vezes demoram mais do que você esperava e você acaba achando que o timing da sua vida veio com defeito. E onde você reclama do mau funcionamento do tempo? Para quem você diz que as coisas não andaram ou andam como você planejou? Particularmente nunca fiz planos de viver uma vida de dona de casa, meus sonhos sempre envolveram me formar, fazer pós-graduação, encarar mestrado e doutorado… Ou seja, acabei colocando o que eu faço na frente do que eu sou. Quando te perguntam “quem é você” o seu primeiro impulso é responder a sua idade e o que você faz da vida, não é? Você responde tudo, menos a pergunta que fizeram. Já reparou que é difícil tentarmos resumir quem somos e o que fazemos é algo mais palpável?

Os meus sonhos se resumiam a trabalho e a vida acadêmica porque eu sempre fui aquela pessoa que não acreditava que seria contemplada pela vida com um grande amor. Eu mesma nunca acreditei que encontraria alguém por quem eu largasse tudo, alguém por quem eu teria coragem de deixar tudo o que eu conheço dar as mãos e seguir uma nova estrada. Piegas mas verdade. O que a gente não conta é que logo depois da curva a vida pode nos surpreender e que nós que passamos a vida toda achando que a luz no fim do túnel era o farol do trem e não a saída vemos nossos sonhos mudarem bem diante dos nossos olhos. O quem eu sou passa a vir antes do que eu faço, pois depois de uma certa idade e do amadurecimento, seja em função da idade mesmo, seja em função das coisas que passamos na vida, nós aprendemos que correr riscos faz parte da vida e que não tem nada de mais em cair. Do chão nós não passamos!

Não faz muito tempo, li um termo que me intrigou bastante e me fez refletir sobre ele: a peneira da vida. Tal qual no futebol que as crianças passam por testes, as peneiras, para serem separadas em “você tem potencial para ser craque e você fica para a próxima”, a vida nos oferece a peneira todos os dias. Todos os dias somos convidados a não usar a peneira para tentar tapar o sol e fazer dela um subterfugio dos nossos dias atribulados mas sim utiliza-la para que só fiquem na superfície aquilo que realmente importa. É muito difícil que ao peneirar com atenção restem coisas tóxicas próximas a você. O que realmente importa, o que realmente te faz querer viver cada dia em sua potencialidade máxima sempre fica. O que cai no chão são as coisas que já não nos servem mais, são os momentos que precisamos desapegar, os sentimentos rotos que precisam dar espaço aos novos, o que teve seu prazo de validade expirado, a relação de fachada, a vida pela metade.

Com o tempo percebemos que não é fácil peneirar. Tem dias que a peneira fica tão cheia e tão pesada que tudo o que você mais quer é largar a tarefa para lá. Ok, você pode fazer isso, é uma escolha. Só não reclame depois se viver uma vida inteira chamando o joio de trigo. Se você opta por tentar separar o que te faz bem e o que não faz, a tal primeira peneirada já elimina um bom peso. Isso não é tornar fatos e pessoas descartáveis; é tornar sua vida mais leve, tendo coragem para dizer “sim, eu quero isso”, “não, isso não me serve mais”, “preciso analisar esse aqui com mais calma” ou “eu não sei mais o que isso ainda está fazendo aqui”. É fantástico o que podemos fazer com um pouco de coragem!

A tal da vida nos cobra todos os dias que tomemos decisões que nem sempre são fáceis mas precisam ser tomadas. Tropeçamos nas palavras, andamos em círculos na nossa mente e tudo isso porque precisamos decidir. Precisamos olhar para trás e tentar responder com a maior dignidade possível quem somos. Quando conseguimos olhar no espelho e reconhecer algo além das características físicas e profissionais, nós chegamos num patamar da vida onde ninguém mais consegue nos tirar do prumo. Quando sabemos quem somos, as opiniões e julgamentos que antes magoavam passam a entrar por um ouvido e sair pelo outro. Somos fortes o suficiente para sustentarmos nossas convicções, nossas vontades e desejos. Quando respondemos quem somos automaticamente sabemos quem queremos ter por perto e quem não queremos porque entra meio que naquela do “ou soma ou some”.

Quando os sonhos de criança já não são os sonhos do adulto que precisou tomar rumos na vida ou que só foi levado por ela até onde está no momento, entendemos que crescemos. Entendemos que a maturidade chegou e que com ela a sabedoria veio junto. Que a sabedoria também pode ser a sua intuição, o seu instinto. Aprendemos que sonhar sozinho é bom mas ter com quem sonhar junto, talvez não as mesmas coisas mas coisas que se complementam, é bem melhor. Mas que também se for para sonhar sozinho, que sonhemos com toda a força que tivermos pois é possível ser feliz dos dois jeitos, basta querermos. Felicidade é pura consequência das nossas escolhas. “Escolhi errado na vida” e por isso preciso percorrer a vida toda numa caminho de migalhas e infelicidade? Quem disse que não podemos mudar? É inacreditavelmente doloroso viver pela metade!

Viver com medo de colocar o pé fora da zona de conforto porque você não sabe o que te espera equivale a não viver. Isso te faz acostumar com metade quando você poderia ter o todo e ser o todo de alguém, por que não?! Assim como se acomodar no que já conhece e mentir para si mesmo dizendo que está bom assim é uma escolha. Passar a vida reclamando do que escolheu sem fazer nada a respeito é um baita contrassenso. Ou se acomoda e aceita ou cria coragem pra pular do barco. O que a gente não pode é andar em círculos na própria vida para sempre.

Com a peneira da vida você tira de si pesos que não são mais seus. Você faz por você mesmo aquilo que ninguém faria. Você se dá uma nova chance de começar a viver mais leve, com mais escolhas, com menos medo. Você sonha de novo. A um, a dois, muda os sonhos, muda o dois, muda até o um. Mas entende de uma vez por todas que jamais se pode duvidar da força do que nos faz rir e nos dá paz porque no final das contas, por mais nebuloso que possa ser, ali estará seu porto seguro.

Demore o tempo que demorar. Apenas se certifique que os passos ao menos não são afobados ou lentos demais. Se permita viver. Se permita curar suas feridas naquele em quem você encontrou sua rima, a risada escandalosa que vira risada em mute e depois volta a ser escandalosa, a conversa de horas ao telefone e a saudade da ausência de 1 hora.

Peneire. Sonhe. Viva.

A vida não espera ninguém. Se você não tirar um tempo do seu dia para analisar o que está sobre a superfície da sua vida, poderá perder, no meio da bagunça, algum tesouro precioso que poderia ser eterno.

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Esvazie-se

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Por que vemos nossos vazios interiores como se fossem uma coisa ruim ou algo que precisa de correção imediata? Por que damos atenção em demasia ao que nos falta e deixamos de lado a atenção ao excedente, que muitas vezes não passa de entulho emocional?

Carregamos várias coisas conosco durante bons pedaços de nossas vidas. Lembranças que podem ser penduradas em um varal de fotos alegres e tão coloridas quanto um quadro ou que podem ficar no fundinho de uma caixa trancada a chave, dentro de outra caixa porque dessas nós não queremos lembrar nem por decreto. Queremos mais é lembrar de esquecer quando tentam sair ou viver em constante negação, esquecendo de lembrar.

Fugir. Correr. Esconder parte do que somos pelo bem de quem? Esconder parte da nossa essência por medo de julgamentos de pessoas que já nos julgam de qualquer forma, sermos metade do que somos porque “é melhor assim”… E aí mais um entulho emocional se forma. Lembramos do que nos faz falta e no mesmo segundo abafamos tudo aquilo que queríamos ser porque esperam de nós uma conduta diferente. Quando foi que deixamos que mandassem no nosso livre arbítrio? Quando foi que deixamos que pessoas mandassem na nossa terra sagrada que é o nosso bem estar? A partir do momento que percebemos que a vida é curta demais e que não vivê-la em sua plenitude é até pecado, passamos a fechar os olhos e os ouvidos às inconveniências de opiniões não solicitadas e de ponderações distantes da realidade, próximas da forma de pensar de quem as diz.

O excedente, todas as caixas empilhadas no sótão do nosso coração, todas as prateleiras empoeiradas e cheias de teias, tudo isso precisa ser esvaziado. Precisamos abrir as cortinas, deixar o sol entrar, e talvez tenhamos uma grandiosa surpresa ao perceber que não estamos sozinhos para limpar a bagunça da alma, basta deixarmos que uma pessoa se aproxime. Medo? Eu sei, existe. Mas sempre temos em quem confiar, aquele que não solta a nossa mão faça chuva ou faça sol. A bagunça da alma é intrínseca ao ser humano. Muitos vivem em negação, acostumados com a confusão e com o barulho externo que deixa a mente quieta, não porque é o melhor, mas sim porque é tanto barulho que não temos tempo de ficarmos a sós conosco.

É o excesso que aperta o peito, não o vazio. É o excesso de responsabilidade pelo o que não é seu problema e você acha que é, é o excesso de culpa por algo que nada tem a ver com você, é o monte de sentimentos que você acumula porque permite que a inveja e o desamor de outros ajam em você. É a incerteza sobre quem você é incutida por pessoas que supostamente te querem bem. É a vida a dois que acaba em conveniência tamanho o descompasso e a falta de cumplicidade. É a amizade que procura quando precisa e decidimos que o conceito de utilidade se aplica a nós, seres humanos, e não a coisas somente.

Encaremos os vazios interiores como um espaço para o novo. Uma página em branco para novos versos. Como um coração com mais espaço, uma cabeça mais aberta, arejada. Ter vazios significa desapego do ruim, do prejudicial! Significa coragem de dizer não quando se quer dizer não, de dizer sim quando se quer dizer sim! O vazio é a esperança que pode se materializar em algo lindo se assim desejarmos e fizermos por onde. O vazio é a parte que nos permite ouvir os sons que ressonam da alma, os ecos da intuição. As vontades legítimas, as certezas que teimamos em abafar quando os excessos nos diziam que a dúvida era o certo. Que sermos pela metade era melhor do que sermos por inteiro.

O vazio nos mostra os seres imperfeitos e inacabados que somos. Nos mostra a chance de explorar o desconhecido e abandonar o conhecido que já não nos satisfaz mais. É sermos livres o suficiente para experimentarmos o abraço mais acolhedor, o afeto mais completo, o amor mais genuíno despido de medos e preconceitos. É um convite ao novo sentimento mais intenso que te fará mais leve.

Não é questão de oito ou oitenta. O excesso do que nos faz mal não dá passagem ao vazio que pode nos fazer bem. O excesso é o fim; o vazio, o começo. O excesso é uma pá de cal em cada sonho que temos e guardamos porque ou não podemos mais sonhar sozinhos ou duvidamos da nossa capacidade de realizá-los; o vazio é a possibilidade de criarmos novos sonhos ou sonharmos a dois com alguém que caminhe lado a lado, não puxando o nosso volante na direção contrária da que queremos ir, custe o que custar. É a liberdade da mudança, é a coragem para o salto, é o fim do comodismo e da autocomiseração.

Esvazie-se.

Apaixone-se pela vida. Abra as cortinas da alma. Deixe que alguém te ajude. Ou, se preferir fazer isso sozinho, faça. Só não deixe de fazer.

Coragem.

A vida passa num instante. Ame quem te ama, esqueça quem te fez mal. Se complete de amor e carinho para que possa completar outros.

Viva.

Esqueça o que esperam de você, você é o seu maior algoz, mas também é o seu maior protetor. Ame-se e ame seus vazios a serem preenchidos. Viva a plenitude dos dias no presente. O passado é só mais uma caixa no sótão da alma. O futuro faz parte do vazio que você ainda desconhece, mas que está sendo moldado no seu hoje.

Esvazie-se. Esvazie-se. Esvazie-se. E encontre a felicidade que só esperava um cantinho para ocupar.

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