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Precipício

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Diante do precipício, a única forma de se avançar é dando um passo para trás. Às vezes, a gente precisa saber parar. E eu parei.

Ninguém gosta de se ver forçadamente trancado para fora da vida de alguém, quanto mais da própria vida. Ninguém gosta de ter que brigar o tempo todo colocando o pé entre a porta e a fechadura para que a porta não feche na nossa cara e a gente não fique sem saber quando ela abrirá de novo ou se ela abrirá.

Tem alguma hora que você cansa de ser sempre o pé nessa porta. Você cansa de viver olhando para o chão, vendo seu pé esmigalhar enquanto alguém, por seus motivos mais variados possíveis, quer fechar a porta. Ou precisa fechar a porta, que seja.

Não é nem que a gente deixe fechar, as vezes a gente não tem o que fazer a não ser aceitar a situação porque das duas, uma: ou vira um caos de vez ou você se resigna e vê a porta bater e acaba passando um bom tempo olhando essa vida do lado de fora. Como num filme, em que chove e faz sol e a pessoa fica ali, parada, inerte. Como se não houvesse mais vida. Mas há. E depois que você se dá conta que o que você pode fazer é viver, você não se sente culpada por virar as costas e andar na direção oposta daquela que um dia você pensou que era a certa para você.

Então você vai embora. Você se dá uma nova chance. Você chora, você sofre. Você cai. Mas no meio do caminho você descobre que enquanto você passou um tempo sem olhar para o lado, outras pessoas percebiam a sua existência e o seu humor meio infantil e mesmo que não dessem risada propriamente da piada que você fez, achavam uma graça o seu modo de se importar em fazer alguém rir – mesmo quando você estava em cacos por dentro porque quem precisa saber disso, não é mesmo?

Diante do precipício, a única forma de se avançar é dando um passo para trás. Às vezes, a gente precisa saber parar. E eu parei.

Eu parei de tentar imaginar todos os cenários possíveis e imagináveis de situações que eu não conheço ou que me contaram só um lado. Eu parei de tentar viver esperando algo que pode não vir porque com isso eu excluía tudo de bom que a vida tinha para me oferecer. Eu reconheci que aquela situação que eu não queria chamar de atraso de vida era um entrave sim. Eu aprendi que é melhor arrancar o curativo de uma vez só e doer de uma vez só do que ficar cultivando o curativo e tentando arrancar a colinha aos poucos… a vida dói, entende isso e segue em frente.

Ninguém merece nada pela metade. Ninguém, em hipótese alguma, deveria ter que se contentar com coisas que doem só porque tem alguém que “precisa ser poupado”. Se perguntou quantas vezes enquanto poupou pessoas engolindo as tuas vontades essas mesmas pessoas te pouparam e fizeram algo por você? Quantas vezes quando você precisou delas elas estavam lá por e para você? E quantas vezes quando essas pessoas precisaram de você, você esteve lá para elas?

É muito fácil achar que as pessoas estarão nos esperando enquanto resolvemos nossos dilemas. O difícil é jogar a responsabilidade desse tipo de decisão nos ombros de alguém e esperar que esse seja um ser humano abnegado pelos próximos… 70 anos? A vida não é um filme não, onde as pessoas vão cada um para um canto e mal precisam lidar com as consequências dos atos ou que na próxima cena, como num passe de mágica, tudo se resolve e todos vivem felizes para sempre. Se você não tem responsabilidade, você machuca sim todo mundo que está a sua volta e inclusive se machuca. E as vezes se machuca tanto que dificilmente prossegue no intento de mudar o que te incomoda. Porque se fosse fácil mudar, qualquer um mudaria. E não é assim.

Se você chegou a algum precipício na sua vida e parou antes do suicídio de uma atitude impulsiva ou impensada, parabéns. Se você foi forte o suficiente para perceber que era o caminho errado e que, ainda que por ora, você precisa desviar a rota e seguir um rumo diferente do que você tinha planejado, parabéns. E aproveita a jornada. Às vezes esses aplicativos de mapas quando erram o caminho, na verdade acertam. E pode ser que amanhã ou depois eles te façam voltar para esse mesmo caminho que um dia pareceu errado. Mas… Keep walking. É o único jeito de descobrir o que será.

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Lar

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Everybody wants something, just a little more
We’re makin’ a living and what we’re livin for?
A rich man or a poor man, a pawn or a king
You can live on the street, you can rule the whole world
But you don’t mean one damn thing

É, eu sei. Eu sei que por vezes esperar é um saco. Eu sei que por vezes o “melhor que nada” se assemelha ao placebo que se toma e engana o organismo esperando surtir o efeito de é “suficiente” quando na verdade o “melhor que nada” é sentido como nada mesmo.

É, eu sei. Eu sei que por vezes desistir de algo parece a melhor opção, a mais certa, a mais covardemente fácil – sendo que provavelmente nada a respeito do assunto seja tão fácil assim – e você até tenta desistir, mas acaba percebendo que mais difícil do que ir embora é conviver com a ideia de potencialmente abrir mão daquilo que você sempre quis na vida porque você preferiu acreditar naqueles 50% de chance de tudo dar errado esquecendo que do outro lado da corda bamba estão os 50% de chance de tudo acabar maravilhosamente bem.

Eu entendo que as pessoas entram e saem da nossa vida deixando marcas e que algumas delas, pelo menos uma, ocupa o lugar mais confortável do seu coração. Essa pessoa pode ser a mesma que deixa uma sensação de “e se”, um pulsar de assunto inacabado ou não propriamente começado e só de ouvir falar dessa pessoa é como se um gatilho disparasse em você um milhão de sensações e pensamentos, te fazendo ir em várias direções dentro de si mesmo e quando você tenta descrever você não consegue, palavras são inúteis. A vastidão de palavras não dá conta de descrever o que se passa dentro de você. E quer saber? Isso é estar vivo.

What do you got, if you ain’t got love
Whatever you got, it just ain’t enough
You’re walkin’ the road, but you’re goin’ nowhere
You’re tryin’ to find your way home, but there’s no one there
Who do you hold in the dark of night?
You wanna give up, but it’s worth the fight
You have all the things, that you’ve been dreamin’ of

A sensação de “e se” pode virar “foi assim” se você der tempo ao tempo. O assunto inacabado pode acabar, de um jeito ou de outro, se você der tempo ao tempo. Quanto tempo? Ninguém sabe, mas com certeza se você desistir agora você jamais descobrirá o que tem atrás dessa porta. Tudo o que você mais quer na vida pode estar a um dia, a um mês, a um ano de você. A escolha de permanecer se achar que vale a pena é sua. Esperar pode ser bom e você pode entender isso até como um “conhece-te a ti mesmo”, descobrir suas reais vontades, quem realmente importa, com o que você realmente se importa e o que é grande em seu coração e o que já não faz mais tanto sentido assim.

Eu sei, eu sei… Eu sei por vezes parece que você tem pernas curtas demais para saltar de um lado a outro deixando seu coração e sua cabeça no mesmo compasso. Mas sabe, se você tiver que dar três, quatro, cinco passos para trás para tentar pular, dê. Retroceder não significa parar de todo, significa avaliar melhor a situação para decidir seguir em frente ou não. O medo aqui só pode ser um: o de não seguir a sua maior vontade, não o de não tentar. Nenhuma perna é curta demais se no meio do caminho você descobre uma vara que te torne um saltador em altura habilidoso ou se você descobre uma outra forma, mais segura, de atravessar tudo isso. E eu tenho certeza que olhando tudo de longe alguma coisa em você vai mudar.

Se for para correr e tentar passar para o outro lado, a saudade vai doer, a necessidade da presença vai gritar, a necessidade de encarar um novo desafio, seja pessoal, seja profissional, vai falar mais alto do que o comodismo da situação já conhecida ou que a conformidade vivenciada dia após dia. Se for para dar meia volta, a necessidade de restabelecer o status quo, de fazer o que você já vive dar certo, de se empenhar mais no que você estiver fazendo vai falar mais alto do que aquela vozinha que te diz para tentar algo novo. No final das contas, você saberá como agir.

If you ain’t got someone, you’re afraid to lose
Everybody needs just one, someone… to tell them the truth
Maybe I’m a dreamer, but I still believe
I believe in hope, I believe the change can get us off of our knees

Lugares favoritos não são muitas vezes feitos de paredes; são muitas vezes feitos daquela sensação de proteção que temos ao estarmos com quem nos inspira confiança. Lugares favoritos muitas vezes não são como a Torre Eiffel ou a Estátua da Liberdade; são como estar no meio de um certo abraço, de uma certa pessoa ou estar no local que você sente ser “o seu lugar”. Se pergunte se você tem esse lugar. Se você está feliz com todos os aspectos da sua vida. Se quem você abraça é quem você quer realmente abraçar, se quem você beija é quem você realmente quer beijar, se o seu trabalho é realmente o que te realiza… Se não for, se pergunte o que você ganha fazendo tudo isso sem amor. Se obtiver uma resposta, apenas se assegure de que ela não seja aquele placebo…

If you ain’t got love, it’s all just keeping score
If you ain’t got love, what the hell we doin’ it for?*

Eu sei. Eu sei que é difícil enfrentar os problemas e as situações de frente mas se você ainda perdesse calorias fugindo delas isso valeria de algo. Mas você não perde calorias, você só perde tempo porque tudo isso sempre te alcança. Também sei que se a gente prestar atenção, a gente sabe sempre o que fazer. Tudo na vida tem uma consequência, algumas mais fáceis de lidar do que outras. Mas se você não faz o que faz com amor, por que raios você faz?

Esteja onde estiver

Esteja com quem estiver

Esteja com quem ou o que te faz ter a sensação de estar em casa.

Porque é como dizem, não há nada como o nosso lar.

*Bon Jovi – What Do You Got?

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Conforto

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Palavras faltam quando queremos dizer muito a quem significa muito a nós justamente porque ficamos procurando as palavras que perfeitamente traduzam o que sentimos. Buscamos, então, em músicas, citações de filmes, de livros. Frases marcantes entre duas pessoas que para sempre serão lembradas em um contexto que só interessa a quem disse.

Palavras são insuficientes quando mesmo na ausência da pessoa você não para de pensar nela e de lembrar todos os momentos que passaram juntos. Palavras que permearam longas conversas ao telefone, bate papos nos mais variados meios de comunicação, pouco fazem por nós quando queremos fazer com que o outro entenda o quão importante é por fazer nosso coração transbordar.

Eu sei que as coisas não acontecem exatamente como queremos e nem quando queremos. Eu sei que as vezes as coisas que pretendemos jamais são alcançadas, que a espera cansa mais do que uma maratona mas que o desfecho pode ser tão delicioso e feliz quanto cruzar a linha de chegada. Você corre uma maratona por dia com as voltas que seu pensamento dá e percebe que eles começam e terminam exatamente no mesmo lugar. Exatamente na mesma pessoa.

Percebe que a sua vida muda sem você perceber, que tomam de assalto os seus sonhos, os seus segundos, que agora você tem – e você pode ser – a pessoa lembrada no meio de uma reunião importantíssima ou de um dia atribulado, e não só na calada da noite quando bate a solidão e a vontade de não dormir sozinho. Percebe que já não lembra mais como era a vida antes disso. E que não quer lembrar de como era porque provavelmente era um filme de cinema mudo em preto e branco.

Não que filmes de cinema mudo em preto e branco não tenham a sua beleza, mas… Insuperável o som da risada, a delicadeza da palavra na hora certa, os olhares que se entendem e os pensamentos que se cruzam. Insuperável ter quem venha com as tintas vivas pintar as telas em branco do nosso coração e que venham nos permitir sermos protagonistas de um filme cujo roteiro é escrito e reescrito a cada segundo, nunca por uma pessoa só.

Quando você se dá conta de que esperar dói mas que não esperar dói mais ainda, você decide abrir mão da dor da desistência para deixar que a vontade do seu coração fale mais alto. Se um dia você já se sentiu tolo por não seguir sua razão, definitivamente já não se sente mais assim uma vez que seu começo, meio e fim já não são só mais seus. Independente do que digam, uma hora você se prioriza e deixa que sua voz fale mais alto do que qualquer outra voz por aí.

Apanhando da vida você dá valor a quem vem para te afagar. Você reconhece a bondade e a doçura gratuita que de supetão te pegaram pela mão e trilham com você todos os caminhos que você decidir ir. Não tendo uma vida muito fácil, muitas vezes escondendo sua essência, você aprende que seu lugar é onde você se sente livre. É com quem te dá segurança e paz de espírito mesmo que o resto do mundo esteja em guerra. É quem faz da tempestade lá fora e da falta de luz aqui dentro o cenário perfeito para se estar junto.

Se você hoje se sente segunda opção, as vezes de você mesmo já que não se prioriza para diplomaticamente acatar tudo em função e para o bem de todos, menos de você mesmo, se pergunte se isso te fará ser o plano A algum dia. Se não é inútil ser step da sua própria vida. Se não é melhor sair da rota, arriscar uma jogada… Se ser feliz não conta mais do que estar sempre seguindo as regras do jogo e viver sem surpresas, sem novos encantos, sem grandes amores ou belas lembranças.

Você não precisa saber todas as respostas agora. Você não precisa saber como conseguirá, se conseguirá, ninguém consegue prever o futuro mediato, quanto mais o imediato. Você só precisa continuar andando, continuar pensando, continuar tentando. Perseverar no que você acredita, fechar os ouvidos ao que não interessa e ser forte para sustentar aquilo que te faz completo e feliz.

Se o ano é novo, seja novo também. Nada mais justo do que nascer de novo com o ano que acabou de nascer e a cada dia fazer da chance dada pelo dom da vida algo que vale a pena. Não se permita cair nas velhas armadilhas que sempre te faziam desistir de algo porque era muito difícil. Não seja aquela pessoa que com o passar do tempo se pergunta como foi que deixou tantos anos escoarem por entre os dedos sem perceber. Não seja a pessoa que passa uma vida inteira na zona de conforto, olha para trás e se arrepende de não ter escolhido este ou aquele caminho porque teria um pouco mais de trabalho mas seria muito mais feliz. E também não seja aquela pessoa que se arrepende da escolha que faz se a escolha de permanecer naquilo que já conhece for feita com o coração.

Se algum dia você se perguntar “eu fiz o que pude?”, viva de forma a poder responder sinceramente que sim. Não existe presente maior do que viver sabendo que você deu o melhor de si, o tempo todo. Seja o que for, seja verdadeiro. O tempo passa diferente no compasso de cada vida. Mas, algumas vezes, os segundos dos sorrisos que se abrem na presença um do outro são os mesmos. E você descobre que não pode mais viver sem eles.

…You make me feel
Like I am home again…

 

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Pare. Pense. Siga.

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…Closing time,

Every new beginning

Comes from some other beginning’s end.

Mesmo que você não consiga ver o que além do horizonte, algo está lá, esperando por você. Você só descobrirá se continuar caminhando mesmo quando a sua vontade é sentar no meio-fio e chorar. Mesmo quando tudo parece turvo, quando a infinita highway asfaltada vira uma rua de terra cheia de pedras e buracos, tudo o que você pode fazer é esperar a poeira assentar e continuar andando em frente até descobrir que todo recomeço, esperado, premeditado, forçado ou inesperado vem de um outro começo que já terminou…

Ou que nunca vai terminar, mas sempre se renovará ante a insistência de um coração que biologicamente nasceu para bater e que hoje acaba o dia apanhando do timing imperfeito e imprudente dos caminhos que se cruzam sem ao menos pedir licença e passam a seguir entrelaçados mesmo quando há uma bifurcação que os separa por um tempo, bate forte sempre que sente aquela presença perto, ainda que há quilômetros de distância.

Leva tempo até perceber que sonhar apesar de doer, vale a pena. Leva tempo até entender que a vida por mais dura que seja, nos ajuda a levantar sempre com uma gentileza de um estranho que estende a mão ou de um amigo que vem em nosso socorro. Demora a aceitar que você não pode ter tudo o que quer ter e que esse querer se mistura com uma necessidade tão vital quanto o oxigênio.

E você se pergunta se entendeu tudo errado. Se passou a vida pedindo errado e recebendo errado até se deparar com algo que pareceu mais certo do que tudo o que já passou no seu caminho. Hora errada? Jeito errado? Tamanho errado? Lugar errado? Medo? Indecisão? Todo passo que você dá pode ser o seu maior erro, pode envergar ou quebrar de vez mas é o risco que você corre ao decidir viver. É o preço que você paga por tomar decisões e assumir desejos, vontades… É a esquina errada que você vira na vida e descobre um café charmozinho no final da rua sem saída e entra para ali ficar e descansar um tempo enquanto a chuva cai lá fora. É a montanha russa que vira seu estômago do avesso e te mostra as borboletas escondidas que você achava que não tinha mais ou que você nunca tinha imaginado ter.

 …And if we’ve only got this life

You’ll get me through alive

And if we’ve only got this life

Then this adventure, oh than I

Wanna share it with you…

Você não nasce com um manual de instruções. Você não passa a vida conforme o livro manda, as coisas não acontecem conforme você planeja, as pessoas não são quem você pensa que elas são e as vezes isso é a melhor coisa que poderia acontecer. Você sofre tanto com a maldade alheia que quando encontra alguém que faz o bem sem pedir nada em troca até se pergunta “é comigo mesmo?”. Sim, é com você mesmo. É com você que passou uma vida sem saber o seu valor, que viveu uma vida inteira sem te dizerem o quão importante você é que você faz sim a diferença no mundo, ao menos no mundo de alguém. Você pode não ver o que tem no horizonte, mas sabe, sente, confia que não descobrirá sozinho, mesmo quando tudo indica que você perdeu uma queda de braço com a vida por aí.

Dá medo.

Assusta.

Faz o coração acelerar.

Mas é assim que você sabe que está vivo. É a adrenalina da escolha. É a dor da decisão tomada. E o conforto da voz que acalma. É a alma que não se separa, das mentes que não se desligam, dos olhos que não se desencontram. É a insistência em resgatar quem já se deixou levar por um mar de sentimentos e tormentas. É o querer que pretere o próprio bem estar, não o anulando, mas sim dando prioridade ao bem estar do outro. É a virada de mesa quando você pensa que o jogo acabou, a última cartada quando você não quer desistir ainda. Mas é também abrir a mão e deixar ir quem apesar de querer, não pode ficar e conviver com o peso da escolha feita. E vai doer. Vai faltar ar. Mas por vezes é só assim que você consegue devolver a paz de alguém, perdendo a sua por um tempo – 1 dia, 1 mês, 1 ano, a eternidade.

Não ache que é fácil decidir seguir em frente quando tudo o que você quer é ficar onde está. É preciso coragem para dar um passo quando os pés querem seguir seu coração e não a sua cabeça. É preciso força. E sim, moça (o), “é preciso força pra sonhar e perceber que a estrada vai além do que se vê”. Força, os mesmos passos que te deixam mais longe dos desejos do seu coração obedecendo a sua cabeça hoje podem te aproximar deles amanhã. Afinal de contas, ninguém sabe onde é o final da estrada. Tudo o que sei é que o jeito é continuar nadando, Dori.

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Sim

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Eu, uma vida sendo tão reticente, tão em cima do muro, tão da turma do talvez, quem sabe, vamos ver, me joguei de cabeça no sim.

Eu disse sim ao mundo que eu desconhecia até então por medo de sair da concha, de pisar fora da minha zona de conforto. Eu disse sim para o mundo do novo que assusta, do novo que alarma, que faz o coração acelerar em um misto de desespero com o desconhecido e alegria pelo o que se pode descobrir com o simples sim dado ao mundo.

Eu disse sim aos sonhos que até então eu tinha e abafava com a falsa noção de realidade que sempre me dava um tapinha nas costas dizendo “sonhos são sonhos por alguma razão, mas por mais que você queira, você não vai realiza-los”. Há uma dose de covardia aqui, covardia essa que nos mantém presos no fundo do mar com uma bola de ferro amarrada em nosso tornozelo. Covardia talvez proveniente do medo, ou da necessidade, ou da falta de confiança para assumir suas próprias vontades. Quantos sonhos foram abafados enquanto você sonhava acordado? Quantos sonhos foram solenemente esquecidos quando você acordou e pensou ser absurdo um sonho literal daquilo que era seu sonho metaforicamente falando?

Como canta Billy Joel em Vienna “dream on, but don’t imagine they’ll all come true”, ou “sonhe mas não imagine que todos se tornarão realidade”. Seria ingenuidade achar que todos os nossos sonhos se realizarão. Mas sonhar faz a vida muito mais colorida; sonho a um, sonho a dois, sonho de um que passa a ser sonho de dois. Os maiores sonhadores são as pessoas mais felizes pois da sua idealização pode sair sua grande realização, com o simples sim dado aos sonhos.

Eu disse sim para a falta de controle. Eu disse sim para o desconhecido. Eu abracei o desvio repentino de rota que minha vida deu. Eu reconheci a necessidade da mudança ou percebi que eu não sabia que precisava mudar até de fato, mudar. Eu disse sim para tudo o que eu não previa, para tudo o que eu temia não conseguir controlar. Eu disse sim para a surpresa, para a felicidade do momento seguinte espontâneo. Pensar demais cansa, tira a graça da vida. Medir milimetricamente cada passo, cada espaço, cada decisão pesa demais na mala que carregamos conosco. Responsabilidades que acumulamos na vida e nossos valores internos jamais nos deixariam tomar uma decisão que não fosse a que acreditamos ser a melhor para nós. Com o simples sim dado ao descontrole, eu me senti livre.

Eu disse sim para o inexplicável. Eu disse sim para o que a razão não passa perto de conseguir explicar. Eu disse sim ao que era até bem pouco tempo atrás, imponderável. Eu aceitei que coisas acontecem por razões que talvez nunca entendamos ao certo mas que delas surgem verdadeiros milagres, sorrisos sinceros, votos eternos, além da eternidade. O inexplicável porém aceitável. O inexplicável porém compreensível. O inexplicável para o consciente mas plenamente justificável para o subconsciente. Para a vontade mais íntima. Eu disse sim ao inexplicável e passei a entender muito mais da vida do que se tivesse pensado em mil possibilidades sem nunca ter certeza de alguma delas.

Eu disse sim pra tudo o que eu podia e descobri que eu podia muito mais do que eu sabia. Descobri que com o sim ao que eu podia, eu tive coragem de querer o que eu pensava não poder. O não poder, a bem da verdade, quase sempre não é um não poder genuíno: ou é um não querer ou é um querer amedrontado que se disfarça de não poder. A vida é infinitamente possível. Arcar com as consequências do sim que damos ao que podemos e ao que queremos faz parte da responsabilidade de nossas escolhas. Faz parte do uso do livre arbítrio. Com o sim que eu dei para tudo o que eu podia, eu pude muito mais do que um dia imaginei poder.

Eu disse sim a vida não retilínea. Eu disse sim às curvas acentuadas que me fazem colocar o pé no freio e às retas que seguem estas curvas que me permitem avançar com mais rapidez. Eu disse sim às linhas tortas da vida, pois se não fossem por elas, nossos caminhos não se cruzariam. E as tais linhas tortas que eu disse sim representam a minha verdade e a minha verdade parece muito mais minha quando é nossa.

Mas eu também disse não. Eu disse não a não querer preencher com ausências os espaços preenchidos por presenças, ainda que conturbadas. Eu disse não ao adeus que não quis dar, não que eu não pude. Eu disse não ao que me fazia chorar para dizer sim ao que me faz rir. Eu disse não ao incompleto e assumi a imperfeita completude. Eu disse não para o pior de mim. E talvez eu tenha dito sim a minha melhor versão, que é melhor quando imperfeitamente completa.

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Seu pavilhão de espelhos

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Uma foto. Uma imagem. Um outdoor na cabeça. Outro no coração. Um pavilhão de espelhos onde nos vemos multiplicados em mil e, conosco, tudo aquilo que trazemos em nossa cabeça e coração. Cada reflexo é uma batida do coração não dita. Cada reflexo é uma lembrança de algo que já foi, de algo que não foi… Cada reflexo é uma saudade sentida, às vezes de coisas que nunca vivemos de fato, mas que queríamos viver com todas as forças do nosso ser.

Cada espelho nos mostra uma faceta. Umas mais delgadas, de uma época sem tantas emoções, uma época de quimera onde o mar estava tranquilo para navegar mas muito porque não procuramos alguma emoção fora da nossa concha; outras, mais largas, que representam a fartura de lembranças, os risos soltos, as emoções sentidas e vividas em sua plenitude.

Às vezes, os reflexos são pela metade. Metade de um coração pulsante em silêncio que só espera outro chegar para completar o quebra-cabeça da vida, que só espera o estetoscópio que são os olhos de quem completará o quadro e que sentirá as pulsadas baterem sincronizadas. Às vezes, os reflexos estão sobrepostos e você não sabe exatamente o porquê até se afastar um pouco e perceber que estava tentando completar seu quebra-cabeça com uma peça de corte arredondado quando a sua pede um quadrado. E cada vez que você insiste, você trinca o reflexo, você alarga algo que não tem elasticidade, você rasga algo que foi feito para ser delicado. São peças certas para outros quebra-cabeças que estão por aí, em espelhos errados.

O pavilhão de espelhos da alma reflete a sua verdade mesmo que você esconda a você mesmo delas. Mesmo que você abafe o sussurro da verdade com o grito histérico da brincadeira querendo mostrar que está completo quando está quebrado. Você já mencionou alguma vez ao espelho que por vezes não reconhece o que está refletido nele? Que por vezes vê a pessoa que esperam que você seja e não a que você realmente é, com suas vestes, penteado e cara lavada?

Em um mundo que só grita e quebra espelhos bradando meias verdades, que só tira foto em frente ao espelho que emagrece a coragem e infla a vaidade da mentira de uma vida infeliz, tudo o que você precisa é ouvir o sussurro que vem do fundo do coração. O seu norte. A sua razão.

Chorar e ver sua imagem assim refletida faz lembrar do quão humano você é e de como as coisas doem. Chore. Chore como criança ou como uma manteiga derretida no final de “A Vida É Bela”. Se emocione, a vida não é para aqueles que se escondem sisudos em máscaras de ferro e constroem em si fortalezas que ninguém consegue derrubar. Tem sempre alguém que consegue penetrar o impenetrável e trazer à tona o seu melhor que podia estar escondido há anos no fundo de um lugar ermo, escuro, frio, tapado para que não visse a luz do sol.

Sorrir e ver sua imagem refletida, em contornos que lembram covinhas ou um largo sorriso faz lembrar do quão doce a vida pode ser quando nos permitimos tentar coisas novas, caminhar de mãos dadas, conhecer novos horizontes, rir de piadas contadas um monte de vezes como se fosse a primeira vez só porque você ama ver quem conta empolgado contando tudo de novo. Faz lembrar de todas as vezes que você amou e foi amado, encantou e foi encantado, desejou e foi desejado.

É claro que por vezes a gente passa uma época de aversão a reflexos. A imagem distorcida nos impede de ver com clareza o que está bem diante de nós e nos irritamos com a nossa própria ignorância. Se posso dar um conselho, em horas assim, vende seus olhos e peça que outra pessoa te diga o que vê. Se imagine atrás dos olhos desse outro alguém. E se você sabe quem esse outro alguém seria e que a visão seria mais terna e amorosa do que a sua com relação a você mesmo/mesma, tire a venda e olhe pelo espelho para essa pessoa: ela te vê melhor do que você. Os olhos da bondade e da ternura enxergam suas qualidades e seus defeitos, exaltam os primeiros e deixam claros os segundos de uma forma confortável. Os olhos do amor não julgam, são benevolentes, são abnegados. Mas nunca mentirosos. O amor de verdade não mente, não passa a mão na cabeça; ajuda a crescer, aponta os erros e espera que, de mãos dadas, desenhem no espelho com batom um recadinho por dia: amar vale a pena.

Não ache que a vida não requer coragem, assim como fazer um 360 em frente ao espelho e perceber suas imperfeitas perfeições. Mas quem tem 20 segundos de coragem maluca, cega, absurda, faz muito mais do que quem tem 20 minutos de paciência mas não dá um passo.

Não trate os seus espelhos como partes de você que não precisam de manutenção. Seus reflexos dizem muito de você. Como você se vê hoje? Delgado? Largo? Sobreposto? Incompleto? Está feliz? De verdade, está feliz? Satisfeito com sua vista atual?
Sua vida depende dessa resposta. Tudo o que se seguir a isso, é mágica. Apenas como aquele olhar ou aquele sorriso são.

Não seja pela metade. Procure o inteiro, você não merece nada menos do que isso.

Não esteja sobreposto. O peso excessivo te deixa torto, o não encaixe tem contraindicações que podem ser danosas pela vida. Uma vida de sobrepeso mata a espinha dorsal da felicidade.

Não prefira a delgadeza do lago sempre; as emoções dependem de um pouco mais de espaço, de um mar maior para navegarem sem afundar. E deixe que as ondas quebrem nas pedras, tomar banho de água salgada espanta o azar. E o banho de chuva espanta a monotonia e manda para o espaço o estado depressivo dos dias cinza. Porque se houver 1 instante de dança na chuva, você entende que começou a viver. E não vai querer parar mais.

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A sua rima

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Quantas e quantas vezes você se viu numa daquelas ruelas estreitas da vida que parecem não levar a lugar algum? Em quantas dessas vezes você parou e deu meia volta, indo de encontro ao ponto de partida já velho conhecido seu? Em quantas dessas vezes você se atreveu a continuar e acabou dando de cara com o inesperado, bom ou ruim?

Quando você para, você pode sim evitar um tombo. Pode sim evitar uma decepção, um caminho tortuoso, íngreme, daqueles que se caminha na beiradinha do penhasco. Mas a vida é 50% de chance para cada lado e então você precisa lembrar que a cada parada você também pode perder a chance de encontrar seu pote de ouro no final do caminho ou não apreciar a paisagem que pode ser surpreendente se você for cuidadoso o suficiente para perceber os milagres e sutilezas da vida que te acompanham pelo caminho.

Eu sei. Por vezes falta iluminação nas ruelas… Você não enxerga um palmo na frente do nariz e fica hesitante em seguir o caminho que você um dia julgou ser o melhor para você. O GPS da intuição falha, você erra, cai no chão, rala os joelhos, acha que não vai aguentar e a vida passa e você continua exatamente do jeito que era: os joelhos ralados saram e você suporta. Aquela hora do “não aguento mais” passa. E aí você decide se retorna ao ponto de partida e recomeça (ou não, de repente você se acomoda ali mesmo com as situações que você tentou fugir ou mudar) ou se tenta daí mesmo de onde está descobrir o que fazer com o caminho que segue em frente mesmo sem você.

Com um pouquinho de coragem a viagem segue. A paisagem muda, você acostuma com o peso de certos fardos, se livra de outros, emagrece as preocupações e engorda a satisfação de ter optado por ver o que tinha além do horizonte. Ah… O horizonte, aquele lugar que parece interminável de tão vasto pode trazer surpresas que você nem imagina, pessoas, situações… Seguindo em frente, você pode se enroscar numa lembrança doce de algo que ficará impregnado e pode, de repente, ganhar companhia pelo caminho. Pode ser que algum andarilho tenha pensado como você, que foi de passo em passo, dor em dor, lágrima em lágrima, construindo seus sorrisos e olhos brilhantes ao longo do caminho.

Um bom ouvinte. Um bom amigo. Uma boa alma passando por ali que não necessariamente ficará com você no resto da viagem, mas ficará tempo suficiente para te ensinar coisas que ninguém consegue aprender sozinho. E a gratidão por essa pessoa será eterna, assim como todas as lições de quem um dia foi seu companheiro de viagem.

Todos nós temos uma bagagem para carregar. Todos nós passamos por situações indescritivelmente pesarosas e dolorosas durante os anos vividos. Tudo isso nos faz sermos quem somos, toma espaço na nossa mala, mas não impede que permitamos que alguém nos mostre que já não dói mais tanto assim. Que as coisas hoje são melhores do que eram antes. Que te faça se olhar com olhos de amor que você não tinha, com os olhos dele que surgiu para te dar borboletas no estômago e sorrisos bobos. Que te ensine o que é mágica.

… I don’t know how these cuts heal
But in you I found a rhyme…

Se você decidiu continuar pelo caminho que um dia te machucou e hoje te faz feliz, se você no meio das tempestades e dias de sol forte achou a sua rima, agradeça, pois você tem algo raro. Nem que a sua rima seja você mesmo e seu amor e compaixão por aquela pessoa que um dia foi o pior algoz – você. Seja lá quem for a sua rima, o dia tem 1440 minutos. É o tempo que tem para se lembrar do quão sortudo és.

Boa viagem!

Bom retorno!

O que te fizer feliz. Só não desista do que te faz sorrir. Principalmente de quem…

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