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Sem amanhã

E se você acordasse hoje sabendo que seria seu último dia na Terra? Se você acordasse hoje sabendo que seria seu último dia, teria vivido tudo o que pode viver, da melhor maneira possível? Pensaria mais em arrependimentos ou em orgulhos? Poderia cantar My Way, do Frank Sinatra, a plenos pulmões ou escolheria uma daquelas músicas que falam de dor de uma vida sempre deixada para depois e pensaria que “se eu tivesse só mais um dia.”.

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Nós vivemos no conforto do amanhã. Nós vivemos no conforto do “amanhã será melhor que o ontem” e mesmo que não seja, vamos de amanhã em amanhã, muitas vezes ignorando o que realmente fazemos no hoje, numa tentativa tresloucada de tentar entender como a vida que de tão preciosa passa a coadjuvante do medo. Vivemos a antítese do “amanhã melhor” e do hoje incompleto. Esperando situações ideais, esperando primeiros passos, esperando, esperando, esperando… e se a espera for interrompida abruptamente? E se o legado deixado for apenas a saudade de tudo que você ainda não viu?

Quando ficamos diante de uma grande perda, de desconhecidos que pareciam da nossa família, de amigos distantes mas presentes no dia a dia, mergulhamos dentro de nós em emoções turvas, em desencontros, em descompassos, em esperanças de que as situações se consertem e que você veja sua vida dando certo. Afortunados somos todos os dias por acordarmos sem exatamente sabermos quando teremos o nosso último amanhã. Afortunados somos por podermos mudar o que precisa ser mudado, enquanto há tempo. Tudo o que temos é o hoje. E nunca foi tão latente o clichê “o amanhã pode nem chegar”. E se ele não chegar, você teria dito que ama quem você ama? Você estaria ao lado de quem você realmente queria estar? Você teria perdoado quem precisa perdoar? Teria perdoado a você mesmo? Você teria feito POR VOCÊ algo que te deixaria orgulhoso se você soubesse que daqui 10 anos estaria aqui ainda?

De tanto medo da vida, deixamos de viver. De tanto medo da vida, deixamos que o amanhã carregue no ventre a felicidade que já deveria ter nascido hoje. Dá a impressão de que no dia 31 de dezembro, quando der 00h e percebemos que estamos vivos, só conseguiremos dizer OBRIGADO. Tem sido um ano extremamente difícil. Perdas enormes, catástrofes mundiais, dificuldades financeiras. Se sabe o valor da sua vida, agradece! Agradeça o fato de estar vivo. Agradeça poder dizer EU TE AMO, e diga, sempre, sempre que possível. Reconheça quem está sempre do teu lado. Não dependa só de uma tragédia para lembrar de ligar para os seus familiares e amigos. Não espere irem embora, para sempre ou para longe, para perceber que devia ter perdoado quem precisava de perdão ou ter deixado ir quem já não cabe mais no lugar em que ocupa. Ou se permitir ir quando o que você é não condiz com o que você quer ser, quando o que você tem não condiz com o que você quer ter.

Todos nós, independente da fé que professemos, se professarmos alguma, somos finitos. Honremos a nossa vida. Coragem, a gente precisa viver! Não existe hora certa para amar. Não existe hora certa para perdoar. Não existe hora certa para deixar saber que alguém é importante. Vamos de uma vez por todas enfiar na nossa cabeça que a vida é urgente e que o depois pode ser tarde demais. Não deixemos a vida para depois! Estejam com quem amam. Façam felizes essas pessoas. Respeitem a vida, ela é sagrada. E vivam, por favor, vivam. Não percam tempo com medo.

A vida é sobre ter memória curta e coração gigante. Amar o instante e respirar bem fundo para o amor também invadir o seu ser. É dar mais um passo mesmo sem saber o que te aguarda e é confiar que quando alguém te diz que vai conseguir, a pessoa vai, e você fica do lado para ver acontecer, para aplaudir ou para enxugar as lágrimas que rolarem pelo rosto. Mesmo que nada faça muito sentido, o importante é ir, com medo mesmo, atrás do que te completa. Atrás do que te faz feliz.

Certa vez, já faz algum tempo, cruzei com um texto que dizia o seguinte em uma das suas partes:

“(…) olhe pelo para-brisas e não pelo espelho retrovisor. Mire o alvo, foque. Não se deixe ser levado em sua própria vida, faça você o seu caminho, encare. Ninguém nunca morreu de amor, nem de decepção, mas o que sempre se percebe é que há entusiasmo em quem fala “foi bom”, “errei mas aprendi”, “valeu a experiência”, “pelo menos vivi algo novo”, “apesar de não ter dado certo eu posso dizer que tentei”, mas quando se houve o outro lado é sempre um ar de desânimo, descontentamento com os “porque eu não fui? ”, “será que teria dado certo? ”, “por que demorei tanto? ”, “e se…? ”, sempre essa dúvida cruel. Você tem a opção de escolher tentar ou escolher lamentar. Você não tem dúvida, você tem medo, mas com o medo é que surge a oportunidade de colocar em ação a coragem. Talvez não para eliminar o medo, mas para ir com medo mesmo!

Não fique no cruzamento dessa estrada que é a vida, muito menos pare no acostamento. No máximo uma rápida parada em um posto de gasolina para reabastecer, pegar fôlego, respirar fundo, e voltar para a estrada com disposição, com ânimo e CORAGEM! ”

Se você acordasse hoje sabendo que não teria amanhã, você estaria na direção da sua vida ou ainda sentado no sofá desejando sentir o vento no seu rosto enquanto dirige na estrada que te leva a conquistar o que você mais quer? Não desista de você mesmo. Eu te garanto, vai valer a pena.

Você merece mais. Se permita mais. Se permita viver a vida que você sabe que merece ou que você descobriu no meio do caminho que merece. E se permita estar com alguém que reconheça em você boa parte do “se eu não tivesse amanhã, hoje eu estaria completo”.

Amanhã eu vou revelar
Depois eu penso em aprender
Daqui a uns dias eu vou dizer
O que me faz querer gritar

No mês que vem tudo vai melhorar
Só mais alguns anos e o mundo vai mudar
Ainda temos tempo até tudo explodir
Quem sabe quanto vai durar

Não deixe nada pra depois, não deixe o tempo passar
Não deixe nada pra semana que vem
Porque semana que vem pode nem chegar
Pra depois, o tempo passar
Não deixe nada pra semana que vem
Porque semana que vem pode nem chegar

A partir de amanhã eu vou discutir
Da próxima vez eu vou questionar
Na segunda eu começo a agir
Só mais duas horas pra eu decidir

Esse pode ser o último dia de nossas vidas
última chance de fazer tudo ter valido a pena
Diga sempre tudo que precisa dizer
Arrisque mais, pra não se arrepender
Nós não temos todo o tempo do mundo
E esse mundo já faz muito tempo
O futuro é o presente e o presente já passou
O futuro é o presente e o presente já passou

Nada pra depois, não deixe o tempo passar,
Não deixe nada pra semana que vem,
Porque semana que vem pode nem chegar
Pra depois o tempo passar,
Não deixe nada pra semana que vem,
Porque semana que vem pode nem chegar!

 

 

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Cheguei

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Desculpe, eu me atrasei.

Eu me atrasei na minha própria vida, perdida entre histórias sem pé nem cabeça. Perdida entre ruas sem saída e becos que não levavam a lugar nenhum dentro de mim mesma.

Desculpe, eu me atrasei.

Eu me atrasei olhando para dentro de mim mesma e não enxergando nada além de breu. Não vendo nada além de bifurcações que eu não sabia como desvendar.

Desculpe, eu me atrasei.

Eu me atrasei não olhando para os lados. Tendo medo da vida. Ficando presa em um mar de mentiras que contei para mim mesma durante tanto tempo sobre mim mesma que acreditei em todas elas.

Desculpe, eu me atrasei.

Eu me atrasei pensando ser o sinônimo de fracasso. Eu me atrasei deixando que os outros segurassem a caneta e escrevessem o roteiro da minha própria vida. De como meu corpo deveria ser; de como eu deveria agir; com quem eu deveria estar; para onde eu deveria ir.

Desculpe, eu me atrasei.

Eu me atrasei deixando a vida passar por mim. Fazendo as vontades gerais da nação. Deixando os outros felizes em troca de amargar um pouco de infelicidade por não ser a expressão real da minha vontade. Desculpe, eu me atrasei imersa em mim mesma sem saber como sair.

Desculpe, eu me atrasei.

Eu abri os olhos mas demorei a enxergar. Eu abri os braços mas demorei a abraçar. Eu abri o coração mas demorei a amar. Desculpe, eu me atrasei, mas eu cheguei.

Eu cheguei no fim da rua sem saída e percebi que conseguia escalar o muro das minhas inseguranças. Eu subi no muro e vi que do outro lado havia muito mais do que eu achava que era a vida.

Eu cheguei.

Eu cheguei onde as pessoas já não mais seguram a caneta que pinta as cores do meu destino. Eu cheguei onde as minhas vontades são as minhas razões suficientes para escolher o que escolho, estar onde estou, fazer o que eu faço, querer o que eu quero e querer quem eu quero.

Eu cheguei.

Eu cheguei no espelho que tanto fugi a vida toda por ter pavor do que nele refletia e percebi que hoje reflete a minha imagem e finalmente eu me reconheço. Eu reconheço a pessoa que um dia já deixou de gritar por medo e que hoje tem medo de deixar de gritar. Eu reconheço a pessoa que um dia se afogou nas palavras que não disse e que hoje só deixa o ar faltar quando ri demais.

Eu cheguei.

Eu cheguei no meio do caminho. Com os pés cansados. Os mesmos pés cansados que já andavam sem rumo, desnorteados, e acabaram tropeçando em um trevo de 4 folhas que era a felicidade vinda de um encontro fortuito da vida.

Desculpe, eu me atrasei para chegar na minha própria vida. Mas eu cheguei.

Desculpe, eu me atrasei para chegar na sua vida. Mas eu cheguei. E eu prometo que eu não vou deixar que nenhum outro atraso das palavras não ditas nos incomode de novo.

Me desculpe ter demorado tanto. Mas eu estou aqui. E talvez seja o momento certo, talvez não existam atrasos reais. Conceitos de tempo e espaço são muito relativos. A urgência é por ser feliz.

Me desculpe ter demorado tanto. Mas eu estou aqui. E estou esperando você na outra metade do caminho.

 

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O que você quer?

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Convenhamos: você gosta de sofrer.

O masoquismo sentimental, aquele que toda pessoa pratica, admitindo para si ou não, é a maior muleta universal para justificar escolhas e sentimentos.

É, eu sei, ninguém gosta realmente de sofrer, mas quando encontramos um motivo para isso parece que nos agarramos a ele e seguramos até não poder mais. Passamos dias, meses, anos amargurando uma mesma situação, e a situação se torna nossa velha conhecida e por isso, amiga íntima, fica por aí e se apossa até do controle da sua tv e tem acesso direto ao seu refrigerador.

Então você se afoga em situações tóxicas semelhantes a esta que justifica o seu comer demais por estar ansioso, o seu não querer sair da cama e ver gente. É, as escolhas que fazemos, consciente ou inconscientemente nos levam exatamente ao lugar que estamos em nossa vida. E as escolhas inconscientes são os padrões que repetimos incessantemente, cultivando, assim, o masoquismo sentimental.

Seu coração foi feito para bater, não para apanhar. Admitir certas verdades a nós mesmos na frente do espelho nem sempre é muito fácil, na maioria das vezes não é nada simples, mas é necessário se queremos sair de onde estamos e seguir um rumo diferente na vida. Ah, mas é fácil falar né, se fosse tão fácil fazer ninguém mais sofreria… e é fácil fazer sim, nós que complicamos demais as coisas.

Honestamente, suas muletas sentimentais são tão importantes assim?  Se são, você infelizmente se acostumou ao sofrimento de suas escolhas e vai continuar tendo a vida miserável que tanto reclama. Se não são, já diria Renato Russo que:

 Disciplina é liberdade.

Compaixão é fortaleza.

         Ter bondade é ter coragem.

 É tudo questão de hábito. Parece que nascemos programados a aceitar a tragédia e o desespero como algo merecido. Como algo natural. Parece que é mais fácil assimilar algo de ruim, processar a informação de que alguém não quer mais estar contigo porque a culpa é sua e não porque foi a pessoa que mudou ou que o seu emprego não te satisfaz, mas como você é bom no que faz você se sujeita a não pensar em como mudar isso sob pena de ser mal-agradecido ao universo de possibilidades.

É um tanto quanto frustrante perceber que nos permitimos errar da mesma forma, sempre, por falta de coragem. Ou por não sabermos exatamente o que queremos. Acho que nunca saberemos realmente o que queremos, mas quando descobrimos algo que seja uma luz, se não seguirmos achando que é sempre o farol do trem e não a saída, morreremos em vida toda vez.

Disciplina. Ao que tudo indica, vivemos sob a égide de um regime militar mental onde os infortúnios da vida são recebidos com certa serenidade e com certo conformismo já que é mais fácil percebermos em nós os nossos erros e que cada erro mata os 200 acertos que temos. Essa disciplina militar para o que é ruim pode muito bem dar a volta na esquina e nos permitir pensarmos que somos merecedores de algo melhor do que temos e que danos colaterais sempre ocorrerão, mas não podemos esperar que a vida nos premie com louros da glória se não fazemos por onde.

A disciplina se transforma em liberdade quando percebemos que o mesmo empenho que temos para sofrer – sim, o sofrimento é uma erva daninha que cultivamos como se fosse uma orquídea azul rara – pode e deve ser usado para ajudarmos a nós mesmos a sairmos da roda viva do masoquismo sentimental. É tudo questão de hábito e, de certa forma, de física quântica: atraímos o que transmitimos. A famosa Lei de Murphy funciona para os dois lados, se a fila do lado anda mais rápido que a sua saiba que você provavelmente já deixou passar alguma coisa muito boa porque a ruim sempre chama mais atenção.

Se a disciplina nos dá liberdade, a compaixão nos transforma em fortalezas. Porque os olhos de bondade que temos com os outros nunca se voltam a nós mesmos? Porque somos nossos piores carrascos quando para com os outros somos a compaixão em forma de gente? Quando nós nos perdoamos, no nosso íntimo, por coisas que só nós sabemos; quando nós nos aceitamos como somos desde que a mudança não seja realmente algo imperioso e não aconteça porque você não acha necessário, ainda que outros te julguem por você ser assim ou assado, a compaixão nos torna humanos, porém fortes. Eu aceito os erros. Eu aceito as más escolhas. Eu não aceito errar de novo. Eu não aceito as consequências eternas de uma escolha malfeita.

Se a compaixão nos transforma em fortalezas, a bondade nos torna corajosos. A hostilidade muitas vezes é puro medo. Medo de se mostrar vulnerável, medo de pedir colo. O “eu não preciso de ninguém” é na verdade um grito de socorro e sim, eu garanto, alguém vai saber chegar até você. Alguém vai conseguir, com um jeito que só essa pessoa vai ter, domar o seu “gênio ruim” ou o seu medo de deixar alguém se aproximar. A coragem que a bondade nos dá nos permite o carinho da alma. Nos permite sermos o melhor de nós, para nós mesmos, independentemente do que aconteça. E talvez com alguém do lado. Esse alguém pode ser um amigo/anjo da guarda, pode ser sua mãe, seu pai, seu amor. Não importa. O que importa é que aprendamos a ter compaixão e bondade para conosco da mesma forma que somos compreensivos com os outros.

Convenhamos. Nós não gostamos de sofrer. Nós nos acostumamos a isso. Mas ninguém disse que isso precisa ser assim sempre. Ninguém disse que temos que viver de forma a parecer que estamos lutando para termos espaço na agenda do dia de alguém e sempre acabamos entendendo as ausências. Sempre acabamos entendendo que algo importante passou na frente e sofrendo calados porque “se nós falarmos algo a outra pessoa vai se aborrecer”.

Faz isso aí mesmo. Abafa esse sofrimento aí e morre engasgado nas palavras que não disse e faz da sua vida aquele beco sem saída porque depois de acostumar a outra pessoa com essa sua falsa noção de compreensão, você não vai conseguir voltar sem fazer um estrago maior ainda. É como se no salto ornamental você pudesse, ao não se acostumar com o que te faz mal, mergulhar dentro de um copinho de café e acabar dando uma barrigada na água porque demorou demais a acordar e a ter disciplina, compaixão e bondade.

Convenhamos, seus sofrimentos escondem quem você é. Mas você sabe andar sem essas muletas. Basta querer. E não, não é fácil. Mas é necessário, a não ser que continuar do jeito que está seja muito melhor do que viver a vida de um jeito não Charlie Browniano de ser.

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Ciclos

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Despedidas nunca são fáceis. Seja a despedida de um parente querido que vai fazer intercâmbio na Europa por um tempo, seja a despedida de uma pessoa importante que se vai “daqui para uma melhor”, seja de um relacionamento, seja de um ciclo.

Rompimentos de ciclos e relacionamentos exigem maturidade porque esses na verdade nós temos mais controle que os demais e implicam em ter uma vida de outra pessoa diretamente relacionada a nossa decisão. Relacionamentos e ciclos exigem responsabilidade. Rompimentos, idem. Demandam saber que do outro lado alguém pode ser pego de supetão pela sua decisão e não estar no mesmo compasso que você. E se dói em você que decide romper, vai doer muito mais em quem vai ouvir que acabou.

Quando não existe responsabilidade para com essa decisão, você deixa de dizer a quem julgava ser importante para você uma série de coisas que facilitariam demais entender o porquê tudo ficou como ficou no final. E não havendo explicação, vendo a vida levar cada pessoa para um lado e você forçando o ficar quando o partir era a única opção que não era contramão esse tempo todo, você se machuca.

Quando você se machuca pelo descaso alheio pelo o que você sente ou pelo aparente desinteresse pelo o que você teria a dizer, ou pela crença de que você que sempre compreendeu tudo compreenderia mais isso, você começa a olhar para o ciclo que viveu com olhos críticos. E começa a perceber que você mais perdeu do que ganhou. Você mais doou do que recebeu. Você teve mais perguntas do que respostas. Poucas vezes a via foi de mão-dupla. Mas em nome de algo maior, talvez de uma esperança besta de que as coisas mudassem, você esperou e fez sua parte.

Você, do lado que segurou a corda e continuou aguentando a barra durante muito tempo, ainda que a corda queimasse a sua mão a cada dia que passasse e o peso a fizesse correr para baixo como se houvesse uma âncora nela amarrada. Você que esperou porque você quis esperar, não impute essa culpa a quem com desídia tratou o final do ciclo. A escolha de ficar era tão sua quanto a de partir. Essa parte da culpa pelo tempo do ciclo cumprido é sua. A César o que é de César.

Conceitos de justo ou injusto jamais serão únicos. Conceitos de tempo e espaço também não. Se para um a conta era “é menos um dia nessa situação”, “menos um dia longe”, para o outro poderia ser “mais um dia nessa”, “mais um dia sem que nada mudasse”. E ninguém tem bola de cristal para saber quem está em qual das situações. E quando você não verbaliza o que quer, você vive uma ilusão. Você acredita no que quer acreditar e não no que deveria acreditar.

Quando você tem coragem para encarar o que de fato está na sua frente, você percebe que decisões erradas podem ter doído e podem ainda doer, mas te ensinaram coisas que um mar calmo não ensinaria a um bom marinheiro. Você entende que sim, quando você se machuca, você sente que tudo quebra “aí dentro”, mas também percebe que é nesse momento que a luz entra e forma as minhas lindas imagens refletidas no lugar mais importante: a sua alma.

Todos os vitrais coloridos pela luz do sol que preenchem seu coração e sua alma são parte do que você é. O que você fez é o que você é. O que você diz é o que você é. O que você quer é o que você é. Você precisa ter coragem para perceber seus erros, aprender com eles e seguir em frente. Ninguém gosta de perder, mas algumas pessoas parecem fazer questão de não gostarem de ganhar. Paciência, certamente alguém vai ganhar e ser feliz com o que você não teve coragem de assumir ou bem no fundo nunca quis de verdade e só não sabia ou tinha coragem de verbalizar.

“Os sonhos vêm e os sonhos vão. E o resto é imperfeito”. O que ontem era seu mundo, hoje pode não ser mais. O que ontem era perfeito, hoje tem mais defeitos do que você pode suportar. Os sonhos mudam quando obrigados a enfrentar a realidade. E a realidade por mais dura que seja sempre ensina alguma coisa: que pontos finais são necessários ainda que as reticências do futuro façam sentido no presente.

Quando um ciclo termina em cacos, a beleza da vida acontece na alma. E quando você para de olhar para o chão e tira a cabeça que você enterrou nos ombros e olha para frente, você vê que os caquinhos estão ali sim, mas que é tudo tão remediável quanto impermanente. E que a impermanência da vida faz o que há de melhor: você querer recomeçar.

Despedidas são difíceis. Mas ficar as vezes é mais difícil ainda. E ainda que algumas despedidas não aconteçam de fato, de ciclos ou de pessoas, faça uma prece, agradeça pelo o que passou, agradeça as lições e o que houve de bom, agradeça o que houve de ruim e hoje te faz não querer aceitar nada do que te fez mal de novo. E mande embora tudo o que dói.

Respeite o tempo do recomeço, mas não ouse não recomeçar. Porque eu sei, eu tenho certeza, que o que você merece aparece da forma mais repentina possível. E te fará tão feliz que o abraço juntará o que está quebrado e você finalmente entenderá o porquê de cada ciclo vivido.

Honestidade nunca perdeu no jogo da vida. Mas a covardia… essa perdeu e sempre perderá.  A impermanência é uma dádiva. Abrace e ame a oportunidade de se fazer novo. Nem que seja de novo. E quantas vezes forem necessárias.

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Ir embora

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Às vezes você tem que ir embora. Mesmo sem querer ir. Mesmo que você ainda tenha forças para aguentar mais um tempinho a ficar ali. Às vezes você tem que ir embora porque os motivos que te faziam ficar na verdade não existiam, eram uma verdade fabricada ou eram apenas uma parte da história. Às vezes você tem que ir embora a tempo de salvar-se a si mesmo de sentimentos tóxicos que no final anulem todos os bons que você tinha.

Às vezes você tem que ir embora. Ir embora do momento em que se encontra, da areia movediça em que se colocou. Tem que sair do estado de inércia da espera porque o que te faz esperar está acorrentado e mesmo vendo as chaves que o libertam dos grilhões não tem a capacidade de usá-las.

Ir embora exige coragem assim como abrir as portas do mundo e colocar os pés para fora das zonas de conforto. Eu sei, a sensação que dá é que sentamos no parapeito de um prédio alto e os pés ficam balançando no ar, sem chão a menos de uns cinco mil metros dos pés. E você se sente sem paraquedas e por isso não pula porque embora saiba que a sua vida inteira depende do salto muitas vezes, sua covardia e seu medo te fazem recolher os pés e voltar para o que você detestava mas já conhecia. As tais zonas de conforto que você sempre reclamou mas nada fez a respeito.

Em algum ponto da sua vida você percebe que ou você mata, ou você morre. E tem que escolher se será para sempre presa fácil do seu próprio destino ou se vai passar a matar seu comodismo e ir atrás do que quer. Nem que para isso você tenha que ir embora. Ir embora também significa chegar. Você não vai só embora. Você sempre chega em algum lugar depois que começa a caminhar.

Se a imutabilidade das situações fosse aplicável a nós indistintamente, teríamos nascido com raízes feito as árvores. Mas não. Nos resignamos com cada situação na vida na base do “tem que ser assim” só porque é mais cômodo. Porque dá medo fazer algo a respeito. Só tem que ser assim se a gente quiser que seja. Não tem milagre e nem adianta chorar depois. Nada paga ter um “eu tentei” estampado na testa.

Esquecemos ou fingimos que esquecemos que escolhas são passíveis de mudança. Que tudo tem sim suas perdas e seus ganhos. Mas o livre arbítrio nos permite mudar e no final do dia, mesmo que você não queira, ou você matou, ou você morreu. Ou você matou e morreu. No dia seguinte, tudo de novo. Mas do jeito que você determina.

Se você vive com a cabeça enfiada no casco você acha que o mundo é aquilo ali. E toma um susto quando vê que não é e que tem bem mais a explorar. Aí você se equilibra na corda bamba das decisões a tomar. Quebra a cara, cai, aprende a levantar. Quando vê, está craque nisso. Isso é viver.

Ir atrás do que se quer com a coragem de quem sabe que está fazendo o possível é a melhor coisa. O medo não pode nos impedir de tentar. E o medo não pode nos impedir de ir embora também. Porque talvez ir embora seja a única coisa que nos salve de morrer em vida.

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Vai

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Vai, se olha no espelho. Se olha no espelho e se pergunta quantas vezes você se pegou dizendo “eu não preciso disso” ou se perguntando “você vai continuar insistindo nessa barca furada?”. Quantas vezes você concluiu que precisava parar e cinco minutos depois estava checando seu e-mail esperando aquela mensagem que nunca vem.

Se olha no espelho e se pergunta quantas vezes você já jurou que nunca mais faria o que acabou de fazer; que nunca mais falaria com quem acabou de falar; que nunca mais enganaria quem acabou de enganar – nem que essa pessoa enganada seja você mesmo, a pior de todas as enganações.

Vai, se olha no espelho. Se olha no espelho e se pergunta quantos do seus “nunca mais” foram realmente um “nunca mais”. Quantos dos seus “basta” foram realmente “basta”. Quantos dos seus “para sempre e sempre” duraram mais do que uma temporada da sua série preferida.

Se olha no espelho e se pergunta se valeu a pena deixar aquela pessoa esperando como plano B porque você nunca teve coragem de dar um bico no A que na verdade era o Z. Pergunta olhando nos olhos se valeu a pena se machucar e machucar todo mundo que está em sua volta com o seu egoísmo das escolhas não feitas. Ou de perceber que ao não escolher você na verdade escolheu sim e só não anunciou expressamente, deixou que a vida e os acontecimentos fizessem isso por você.

Se olha no espelho e se questiona se você é bom o suficiente. Sim, se questiona. Questiona sua moral, sua ética, sua integridade. Questiona se você fez o suficiente. Questiona se você foi honesto o suficiente com quem não esperava nada de você além do mínimo de honestidade e hombridade. Questiona a sua moral em deixar alguém na sombra da sua vida quando você diz que a lua seria dessa pessoa se você pudesse dar isso a ela. Questiona qual é o sentido de levar uma vida de mentirinha, uma relação de fachada. De empurrar um emprego que você detesta com a barriga mas não fazer nada para sair dele.

Vai, pelo amor de Deus, se olha no espelho e se vê. Se veja nu e cru. Se veja de peito aberto, coração rasgado, cabeça cheia. Se veja com a profundidade que você nunca deixou ninguém te olhar. Se analise, seja verdadeiro ao menos uma vez na vida e grite para fora o que você grita para dentro. Está tudo errado? Berre. Está tudo bem? Berre. Não é o que você quer mas é o que você tem? Berre. Grite mas faça alguma coisa além disso. Bebês gritam e choram porque não sabem expressar de outra forma mas alguém sempre entende por eles quais são as necessidades. Você já passou da fase, faz tempo, de querer que alguém faça isso por você. De querer que alguém decida por você só o que você pode decidir.

Faz alguma coisa. Nem que seja desistir. Desista da covardia de fugir da vida ou desista da ideia de correr atrás da sua vida. Mas desista. Desista de ser sempre o último a fazer o que precisa fazer e se contentar com as decisões que sobram porque alguém já foi embora e levou uma lembrancinha rosa da festa te deixando a roxa ou porque alguém pegou o ultimo brigadeiro da mesa te deixando o docinho de uva. Desista de ser o covarde da classe que nunca se pronuncia a favor de nada, nem de você mesmo, que nunca fala nada e sempre diz amém para os mandos e desmandos de quem não está nem aí se o que acontece é bom ou ruim para você.

Faz alguma coisa. Nem que seja assumir finalmente que você cansou porque esperar sentado também cansa. Nem que seja assumir finalmente que você colocou a sua vida para alugar porque não consegue fazer dela um lugar habitável por você mesmo então precisa de alguém para viver por você. Nem que seja assumir finalmente que você não precisa disso, não precisa dele ou dela te enrolando e te causando uma vida de labirintites indesejadas.

Tira uma selfie dessa cara de pau que nega ter algo errado, que sorri quando quer chorar, que fala quando quer calar e cala quando quer falar. Tira uma selfie dessa cara sem vergonha que mentiu tanto para esses olhos tristes que eles acreditaram nas mentiras a ponto de não brilharem mais e de deixarem partir quem conseguia resgatar tal brilho. Tira uma selfie dessa alma perdida em meio ao breu que você insiste em se colocar se acuando no canto escuro do quarto porque tem medo. Aproveita que está na frente do espelho e tira uma selfie que demonstre a sua falta de amor próprio ao se abandonar desse jeito.

Agora vai. Sai do banheiro. Sai da frente do espelho e vai viver. Vai ver o que te restou, vai ver quem ficou te esperando enquanto você ia tentar descobrir que rumo tomar na vida. Vai ver quem aguentou todas as barras porque acreditou que você estava realmente tentando encontrar as respostas para as prioridades da sua vida. E não culpe a alguém se quando abrir a porta não tiver mais ninguém em casa; você demorou mais do que a vida esperou. A vida passa você querendo ou não, e infelizmente as pessoas passam com ela.

Vai. Ou fica aí na frente do espelho ensaiando o discurso do Oscar para quando você acordar amanhã e viver mais um dia em ponto morto dessa sua vida em preto e branco.

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Se ele/ela quer ir embora, não seja a pessoa que suplica para que fique; seja a pessoa que abre e segura a porta e ainda diz “então vai”.

Se você quer ir embora, vá. Vá embora de uma vez mas não fique empacando o fluxo de pessoas que transitam por ali porque que você não sabe se passa para o lado de fora ou fica do lado de dentro.

Se ele/ela quer ir embora, não seja a pessoa que mendiga carinho e atenção, perguntando com quem você assistirá filmes numa madrugada insone; continue segurando a porta e dizendo “então vai”.

Se você quer ir embora, vá. Queime a ponte de uma vez antes que você se veja cruzando o mesmo caminho novamente sendo que você o faz por pura questão de hábito. Ou assuma que cruzar esse caminho nessa ponte de madeira velha e oca é o que você quer. Mas não fique “criando raiz” atrapalhando o transito alheio e o próprio transito das suas ideias.

O pior daquela pessoa que vive pela metade e só acostumou ver o mundo como um cavalo no cabresto é que ela quer te convencer que assim que é bom e quer te fazer viver da mesma forma. E se você não souber exatamente o que quer, sucumbe, as vezes porque é só nesse limbo que você se sente próximo dessa pessoa e acha que pode fazer dessa metade um todo.

Mas não. Uma metade nessas condições jamais será um todo porque é preciso coragem para aceitar que a vida é mais que isso e que você não é uma metade esperando outra pra formar um todo fora do limbo da vida mal vivida; você é um todo completo e perfeito esperando outro inteiro que com você fará a intersecção e, no ponto de união, descobrirão o que faz um ao outro transbordar.

Quando se vive na sombra da vida, o vento gelado já não gela mais porque você acostuma com a temperatura por nunca sair dela. Uma vez que alguém te carrega para o sol e te mostra que o mundo é maior do que o caroço de azeitona que você conhece, você sente sua pele queimar e acha que vai morrer frito… Quando na verdade seu corpo te diz que está vivo e tem mais experiências a viver.

Os covardes não aproveitam a oportunidade para enveredarem pelas descobertas da vida nova; voltam para as sombras sentindo falta de coisas que nunca tiveram e nunca terão por pura falta de pulso. Os corajosos, por sua vez, buscam impulso. Pensam em si e no que realmente importa, se fecham para as pirraças e egoísmo de quem os quer na sombra e vão correndo ao encontro da vida. Vão correndo ao encontro do sol. Do mar. Da areia da praia.

O conforto da sombra da vida não espera de você nenhuma atitude. Mas é nele que você continua cultivando sua gastrite, tomando seus calmantes e perdendo suas noites de sono. É uma falsa sensação de conforto única e exclusivamente existente porque é o que já se conhece. É o campo minado da alma que acha que viver a faixa de Gaza todos os dias já virou o jeito certo de viver. Se o embate fosse só interior você ainda daria um jeito de viver fingindo que está tudo bem mas nunca é. Tem sempre mais alguém envolvido.

Enquanto você se preocupa com sentimentos de alguém que pouco se importa com os seus, você se flagela e se martiriza buscando respostas que você já tem mas que estão além do medo. Além da sombra. Além da área a ser desbravada. Enquanto você não se preocupa em consertar o seu mundo buscando respostas para mundos alheios, o seu mundo desmorona e pega o muro do mundo ao lado que não tem nada com isso a não ser acreditar que estar ali te escorando seria o suficiente.

Todos os dias que você diz que você não sabe para onde ir ou o que fazer, você vai para algum lugar e faz algo. Todos os dias que você se diz que não sabe como decidir se pinta a casa de azul ou de amarelo, a casa se mantém branca em essência mas a aparência encardida te faz pensar que você mora numa casa feia quando na verdade ela só está mal cuidada. E por você mesmo, único culpado por sua alegria ou tristeza no final das contas. E ainda que se que diga que pessoas nos afetam, as coisas têm a importância que damos a elas. E a partir do momento que você se nega a permitir que coisas que antes machucavam continuem machucando, você toma as rédeas da sua vida e se abre a um leque de novas oportunidades e o mais importante: você se permite a cura. E se permitindo a cura, você entende que priorizar o que sente e o que pensa não é egoísmo; é sobrevivência, é exercício de amor próprio.

Deixar ir é tão ato de amor quanto permanecer. Acontece que não deixamos ir ou permanecemos pelos motivos errados. Você reclama que o preço da escolha é caro mas te garanto que pagar caro em 1h de estacionamento na vida é muito menos doloroso do que pagar 365 dias nesse plano fidelidade que só te suga. Se você tem dois preços a escolher, se você tem dois pesos a dar, só você pode fazer isso mas não espere que quem combinou de te encontrar para a sessão de cinema das 19h esteja lá 365 dias depois porque você não teve coragem de ligar o carro e sair andando. Não é nem justo esperar isso de alguém.

Se ele/ela quer ir embora, segure a porta e diga vá. É nessa hora que você separa “os homens dos meninos”. Ou se ele/ela não vai embora, vá você. Mas não ouse não viver. Se a sorte escolheu você e você cego nem nota, alguém vai notar. E quando isso acontecer, aprenda a lição e continue o jogo da vida. Você pode ter perdido o jogo, mas se você está num campeonato todo mundo perde alguma hora. No final, só um leva o troféu para a casa e se não for você, outro vai. Por isso ficar empacado só vai te fazer tomar W.O. da vida.

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